7 A FORMAÇÃO, A CRISE E O FUTURO SINDICALISMO: A
7.4 Crises capitalistas e metamorfose do trabalho
Nas sociedades pré-capitalistas, as crises do modelo de produção eclodiam pela subprodução de valores de uso decorrente do desaparecimento ou da destruição total ou parcial dos produtores ou dos meios de produção. As catástrofes que lhes ocasionavam eram de matizes naturais, ou seja, fatores heterônomos e alheios ao modelo produtivo, como desastres ambientais e doenças que vitimavam os produtores ou as matérias-primas utilizadas na cadeia produtiva. Não havia, portanto, uma causa artificial a ensejar a miséria e o empobrecimento social vivenciados nesses hiatos críticos da reprodução econômica do capital.
Na sociedade capitalista, ao contrário, as crises são decorrências artificiais das contradições internas encontradas no interior do próprio modo de produção capitalista. Nesse âmbito, não é a epidemia que gera a diminuição da força de trabalho, mas, ao contrário, é a redução da produção econômica ou a introdução de trabalho morto que fomenta o desemprego. Enquanto nas crises pré-capitalistas a diminuição da força de trabalho é causa da subprodução, nas crises econômicas capitalistas é um efeito resultante da superprodução. De acordo com Netto e Braz, as crises capitalistas não são um acidente de percurso, nem são aleatórias, tampouco independem do movimento do capital. Não são ainda uma enfermidade ou anomalia, nem uma excepcionalidade que possa ser suprimida. Na verdade, as crises são constitutivas do capitalismo, ou seja, um fenômeno historicamente naturalizado no seu interior. (2012: 170).
Para Mészáros, no entanto, não há nada de especial em se associar capitalismo e crise. Ao contrário, as crises são um modo natural de sua existência. De intensidade e duração variadas, essas depressões são formas de progressão do capital para além de suas barreiras imediatas. Promove-se o deslocamento de suas contradições, a fim de dinamizar sua esfera
43
Sobre o neocorporativismo, veja-se MERCANTE, Carolina. As Centrais Sindicais e o Neocorporativismo à
Brasileira. In Revista Estudos Políticos. Vol 5. N. 1. p. 267/287. Disponível em http://revistaestudospoliticos.com/wp-content/uploads/2015/02/Vol.5-N.1-p.267-287.pdf. Acesso em 02/11/2017.
produtiva e de dominação, daí porque a última coisa que o capital pode desejar em suas hostes é a superação permanente de todas as crises (2011: 795). Com efeito, se, de um lado, tais crises demonstram o desequilíbrio entre os setores de produção e de consumo, de outro, são, elas próprias, instrumentos necessários ao processo cíclico de retomada do crescimento econômico, daí serem concebidas como instrumento natural e imprescindível do sistema capitalista.
Nessa perspectiva, Frigotto chama a atenção para o fato de que os mecanismos de enfrentamento e superação de uma crise cíclica são elementos complicadores que alimentam as contradições internas do sistema, deslocando o problema até o advento de uma nova crise. Sustenta, nessa ordem de ideias, que o financiamento público do padrão de acumulação capitalista foi uma intervenção necessária à superação da virulenta crise do ano de 1929, mas essa intervenção estatal se tornou posteriormente um problema crucial, segundo a ideologia neoliberal, para a detonação da crise dos anos 1970 (1995: 66).
As crises capitalistas não são, portanto, crises de penúria, mas, de superprodução ou de superacumulação, como classificam Montaño e Duriguetto, a partir das lições de Ernest Mandel. Tais recessões desvelam a contradição interna que existe entre a socialização da produção e a acumulação privada dos meios de produção. Na primeira espécie, ocorre uma brusca e significativa queda da taxa média de lucro, gerando a retração da produção e dos níveis de emprego. Na última, o excesso de capital na escala ampliada de produção é de tal ordem que não pode ser investido completamente para garantir a taxa de lucro esperada. (2011: 182).
Tais crises se alternam em períodos mais ou menos longos denominados ciclos econômicos, os quais podem ser esquematizados, conforme Netto e Braz (2012: 172/173), em quatro fases: crise, depressão, retomada e auge. Na crise, a produção não é escoada e, por isso, é diminuída ou paralisada, gerando-se a diminuição de salários e o desemprego. Na depressão, a produção se mantém estagnada, há a redução dos preços dos produtos ou sua estocagem ou mesmo a destruição de parte deles. Ainda nessa fase, há procura pela alteração da engenharia produtiva com a intensificação da produtividade do trabalho, com vistas a resguardar o preço baixo das mercadorias, mantendo-se os níveis salariais e de desemprego no patamar anterior. Na retomada, as mercadorias em excesso são escoadas no mercado, ocorrem incorporações empresariais ou fusões de produtores menores pelos maiores, rearticulando-se a produção que volta aos índices anteriores à crise. No auge, a concorrência leva o capitalista a investir no parque fabril para ampliar a produção, gerando-se um clima de prosperidade e de euforia econômica, de modo que a demanda esquenta e os preços se elevam até que um novo
detonador político ou econômico qualquer deflagre o início de uma nova crise, e, dessarte, de um novo ciclo da economia.
A crise estrutural do capital apresenta, no entanto, características que lhe são próprias e capazes de lhe diferenciar das demais crises cíclicas vivenciadas no modo de produção capitalista. Desde a conjuntura histórica de sua deflagração e até mesmo pela forma linear e duradoura de seus efeitos, impõe se afirmar que não se trata de uma mera crise de superprodução, mas do sistema de dominação em si. Em outras palavras, a crise estrutural é a crise da dominação capitalista sobre o trabalho que determinou a reorganização do sistema produtivo, o esgarçamento das relações salariais tradicionais com a constituição de novas e precárias formas de trabalho, além da crise de identidade da classe trabalhadora e de legitimidade da atuação sindical.
Ao final da década de 1960, as taxas médias de lucros já não cresciam satisfatoriamente, pondo em xeque o modelo de produção fordista-keynesiano firmado em Bretton Woods após a 2ª guerra, como resultado de rígidos compromissos então assumidos pelos principais atores do modelo de produção, inclusive o Estado. A partir de 1973, com a crise do petróleo, somado a um processo inflacionário crescente desde 1968, eclodiu um período de profundas mudanças e incertezas com reflexos na vida político-econômica mundial e nos processos de trabalho.
Esse novo arranjo do modelo de produção a partir de 1973, chamado de
acumulação flexível, contrapunha-se fortemente à rigidez do modelo fordista, apoiando-se na
reengenharia da organização administrativa das empresas e na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e dos padrões de consumo. Tal modo de produção caracteriza-se pela supremacia do capital financeiro em relação ao produtivo, pela abertura de novos mercados e de novos serviços, além do acirramento da concorrência internacional com a criação de um novo padrão de desenvolvimento desigual entre setores da produção e regiões geográficas. Por sua vez, a comunicação via satélite e a queda do custo dos transportes estreitaram o tempo das decisões privadas e públicas gerando o que Harvey chama de compressão do espaço-tempo no mundo capitalista (2013: 140). Enquanto as garantias sociais e as organizações sindicais atuam no âmbito da territorialidade dos sistemas jurídicos nacionais, o capital internacional flana por sobre a barreira espacial, comprometendo a eficácia e a amplitude dos cânones protetivos da força de trabalho.
Ao lado disso, o modelo de acumulação flexível, ao impor a verticalização da produção e a diminuição de estoques, rompeu o compromisso fordista referente à estabilidade do pleno emprego e, assim, fomentou a flexibilização das leis trabalhistas e a precarização do
trabalho vivo para determinar uma nova forma de exploração e de dominação de uma força de trabalho cada vez mais heterogênea, desconcentrada e complexa, deflagrando uma séria crise de representatividade do movimento operário, tanto no que se refere às estratégias de mobilização, quanto no que diz respeito à legitimidade de sua atuação.
A acumulação flexível atomizou a classe trabalhadora ao destruir seus laços de solidariedade e lhe subtrair a possibilidade de constituição de sua consciência histórica, seja pela profusão de interesses individuais diversos e concorrentes que espraia, seja porque impede a identificação mais clara e direta dos integrantes em si da respectiva classe fragmentada, a qual, de acordo com a corrente subjetivista, é forjada pela vivência das mesmas condições de trabalho, experiências, dificuldades, opressão, exclusão e sofrimento em decorrência das contradições impelidas no interior do sistema.
Por outro prisma, o modo de acumulação flexível impõe uma nova divisão social do trabalho e a consagração da lógica destrutiva do desemprego estrutural através da eliminação de antigos postos de trabalho estáveis e da ampliação do trabalho morto em detrimento do vivo, além de estabelecer um modelo produtivo mais flexível e precário que projeta a pobreza e a miséria social ao excluir do mercado os trabalhadores mais jovens e os mais velhos, além de hifenizar os mais vulneráveis, a exemplo das mulheres, dos negros, dos homoafetivos e dos estrangeiros.
Nesse contexto, impõe-se compreender a crise estrutural como inerente ao próprio sistema de dominação, como faz Mészáros, quando diz que, diferentemente das depressões cíclicas anteriores, essa crise afeta os limites absolutos das três dimensões fundamentais do capital – a produção, o consumo e a circulação/distribuição/realização –, o que lhe outorga um aspecto de totalidade, pois não se circunscreve apenas ao âmbito sócio-econômico, mas, ao contrário, impele também efeitos nas instituições políticas, inclusive quanto ao próprio papel do Estado que, sob o mote da ideologia neoliberal, revela-se nitidamente como a superestrutura que gerencia os interesses da classe dominante das relações econômicas de produção ocorridas na sociedade, flexibiliza as intervenções feitas pelo Estado de Bem-Estar Social, entroniza a privatização de empresas estatais lucrativas e estabelece políticas públicas de consenso ou de concertação social que reduzem os sindicatos ao papel de legitimador formal da precarização dos direitos trabalhistas tão caras à agenda ultraliberal. (2011: 800).
Por sua vez, Antunes afirma que os elementos constitutivos da crise estrutural do capital são de grande amplitude e complexidade, indicando dois deles que lhe parecem centrais: de um lado, a modificação da materialidade da classe trabalhadora, da sua forma de ser, tanto de sua subjetividade, quanto dos seus valores e ideais que pautam suas ações e
práticas concretas; e, de outro, a intensificação das transformações no processo produtivo por meio do avanço tecnológico, da constituição das formas de acumulação flexível, do downsizing, dos modelos alternativos ao binômio taylorismo/fordismo com destaque para o modelo japonês do toyotismo. Nesse viés, aponta as consequências mais importantes ocorridas em virtude dessa transformação no mundo do trabalho: a crescente redução do proletariado fabril e incremento do subproletariado fabril e de serviços, como os terceirizados, os subcontratados e os part-time; o aumento significativo do trabalho feminino, preferencialmente absorvido no universo do trabalho precarizado e desregulamentado; o incremento dos assalariados médios e de serviços, ainda que nesse setor já se observe a existência de desemprego tecnológico; a exclusão dos jovens e velhos no mercado dos países centrais; a inclusão precoce e criminosa de crianças no mercado de trabalho; e a expansão do trabalho social combinado, onde trabalhadores de diversas partes do mundo participam do processo de produção e de serviços (2011: 183/184).
Desse modo, compreende-se que a precarização do trabalho humano realizada pelo modo de acumulação flexível através de instrumentos que atuam diretamente sobre a realidade social como a terceirização, a pejotização, os consórcios, o empreendedorismo, entre outros, evidencia a retração material da própria noção de classe trabalhadora tanto na dimensão de classe em si quanto na de classe para si, pois, de um lado, torna difuso e amorfo o sujeito histórico da luta pela emancipação da classe operária, identificado a partir das condições objetivamente dadas e, de outro lado, desconstrói as tradicionais matrizes discursivas desse sujeito coletivo que necessita urgentemente constituir outras estratégias de linguagem e de atuação para não desnaturar sua legitimidade representativa no plano do real, inclusive com imbricações mais amplas e plurais para amparar o indivíduo no bojo da particularidade de suas diversas necessidades sociais, as quais transcendem às tradicionais lutas sindicais reivindicatórias de caráter econômico imediato.
As propostas já lançadas pela teoria econômica liberal para a solução da crise estrutural não alcançam verdadeiramente os fundamentos do problema. Com efeito, como essa depressão está na estrutura do sistema, ou seja, decorre de contradições internas indissolúveis do capital, infligindo o próprio modelo de dominação exercido sobre a massa trabalhadora, não é mais possível disfarçá-la ou deslocar os limites do sistema, de modo que se impõe com urgência a discussão sobre o papel do trabalho vivo no interior do modo de produção capitalista e do estabelecimento de uma reprodução social voltada essencialmente às necessidades humanas.
Para Mészáros (2004), o sistema capitalista é e sempre será essencialmente antagônico, à medida que se estrutura na subordinação do trabalho ao capital e na usurpação total do poder de tomar decisões. Esse antagonismo estrutural se expande para todos os seus poros, do microcosmo constitutivo ao macrocosmo mais abrangente. Nesse sentido, tal modo de produção é irreformável e incontrolável, daí porque não se pode conceber ou sustentar a formulação de alternativas à crise no seu âmago interior. É preciso, segundo o autor, colocar- se uma saída para além do capital com a introdução de um modo de reprodução social orientado não pelo mercado, mas pelos próprios produtores associados, a fim de se alcançar o redimensionamento qualitativo da produção e a crescente satisfação das necessidades humanas. Desse modo, para o autor, insere-se na agenda histórica atual a tarefa de se rearticular um movimento socialista revitalizado a partir de ações políticas conscientes e conjuntas do braço industrial (os sindicatos) e do braço político (os partidos) do movimento operário.
Frigotto concebe que a alternativa que pode incorporar verdadeiro progresso para o alcance das necessidades e a ampliação da liberdade humana continua sendo o socialismo, malgrado o colapso do socialismo real. No entanto, adverte que, no olhar estrábico da burguesia, a crise atual aparece como um desvio das leis naturais do mercado. Nesse sentido, para os neoliberais, impõe-se a solução da crise estrutural através da recomposição das taxas de lucro e dos mecanismos de reprodução do capital com o recrudescimento da exclusão social alcançada a partir da restrição dos ganhos de produtividade, das garantias e das estabilidades no emprego, do aumento das taxas de juros para aumentar a poupança e arrefecer o consumo, da diminuição dos impostos sobre o capital, além dos gastos e receitas públicas, o que se reflete diretamente na minoração dos investimentos em políticas sociais. (1995: 79/82).
Por sua vez, Antunes aponta que, atualmente, o maior desafio da classe-que-vive-
do-trabalho é soldar os laços de pertencimento de classe existentes entre os diversos
segmentos que compreendem o mundo do trabalho, articulando desde aqueles mais centrais no processo de criação de valores de troca, como também os mais periféricos, mas que, diante das condições precárias que vivenciam, são potencialmente rebeldes ao capital e sua sociabilidade destrutiva e descartável (2011:185).
Antunes destaca também que é preciso se alterar a lógica da produção societal, a fim de revolvê-la à produção de valores de uso e não de troca, contemplando-se as reais necessidades para a sobrevivência humana, ao invés de se objetivar exclusivamente a expansão da taxa de lucro do capital. De outra banda, a produção de coisas socialmente úteis
deve ter como critério o tempo disponível e não o tempo excedente que preside a sociedade contemporânea. Com isso, o trabalho social seria dotado de maior dimensão humana, perdendo o caráter fetichizado e estranhado que ora se manifesta (2011:187).
De fato, uma vez que o capitalismo se orienta unicamente no sentido de obter a expansão cada vez maior de sua taxa de lucro e não possui qualquer preocupação com o cenário de miséria e exclusão social impelida pela lógica destrutiva do próprio sistema, não há soluções internas definitivas que possam superar a crise estrutural, o que confere importância aos estudos desenvolvidos pela teoria jurídico-trabalhista crítica no Programa de Pós- gradução em Direito da Universidade Federal de Pernambuco e reafirma a agenda histórica de rearticular os trabalhadores em relação a um projeto reprodução social que promova uma nova delimitação qualitativa da produção, contemple intransigentemente a satisfação das necessidades humanas e amplie a dimensão de sua dignidade.