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6 O TEMPO E O ESPAÇO NAS RELAÇÕES DE TRABALHO SOB A

6.3 Limites da jornada de trabalho e lutas de classe

De acordo com Marx, a mercadoria força de trabalho é vendida e comprada pelo valor correspondente ao tempo necessário à sua produção (2014: 269). Dessa forma, ao capitalista interessa explorar o máximo possível da força de trabalho durante as horas contratadas. Assim, mitiga intervalos improdutivos, reserva o mínimo possível para a alimentação e descanso, intensifica o ritmo dos trabalhos e impõe o alongamento da jornada até não mais poder, inclusive sem majoração do pagamento salarial. Marx destaca que no intercâmbio do trabalho pelo capital as partes resguardam suas posições fundamentadas na lei da troca: o aumento da jornada diminui o valor pago pela força de trabalho. Desse modo, o capitalista busca sugar a força de trabalho comprada até o limiar físico do trabalhador e levantar todas as barreiras culturais e jurídicas opostas a seu interesse, enquanto o trabalhador deseja conservar o valor da mercadoria vendida com a imposição de limites extensivos e intensivos à jornada normal de trabalho.

Sustenta, então, que na antinomia de direitos iguais, ambos ancorados na lei fundamental de troca, quem decide é a força, daí depreender que a luta histórica em torno da regulamentação da jornada de trabalho funda a luta de classes:

Vemos que, abstraindo de limites extremamente elásticos, não resulta da natureza da troca de mercadorias nenhum limite à jornada de trabalho ou ao trabalho excedente. O capitalista afirma seu direito, como comprador, quando procura prolongar o mais possível a jornada de trabalho e transformar, sempre que possível, um dia de trabalho em dois. Por outro lado, a natureza específica da mercadoria vendida impõe um limite ao consumo pelo comprador, e o trabalhador afirma seu direito, como vendedor, quando quer limitar a jornada de trabalho a determinada magnitude normal. Ocorre assim uma antinomia, direito contra direito, ambos baseados na lei

de troca de mercadorias. Entre direitos iguais e opostos, decide a força. Assim, a regulamentação da jornada de trabalho se apresenta, na histórica da produção capitalista, como luta pela limitação da jornada de trabalho, um embate que se trava entre a classe capitalista e a classe trabalhadora. (2014: 273)

Incrivelmente, sua teoria continua a ter rebatimento no capitalismo contemporâneo. A luta em torno da jornada de trabalho está no centro da contrarreforma ultraliberal das legislações trabalhistas no mundo e especialmente no Brasil. Somente a articulação coletiva das forças trabalhistas no campo político será capaz de conter o avanço predatório sobre os limites da duração normal do trabalho. Nem mesmo o Judiciário poderá segurar esse grave retrocesso social através de uma hermenêutica de princípios constitucionais consagradores da dignidade humana. É curial se compreender que o grosso da reprodução social se passa ao largo das barras dos tribunais que descortinam apenas um véu insignificante no bojo da reprodução capitalista.

As versões marxianas chamam a atenção para o fato de que o tempo não é um elemento dado, mas socialmente construído e reconstruído, conforme a prevalência dos interesses políticos e econômicos em dado momento histórico. No Brasil, a marcha ultraliberal extirpa o tempo não produtivo do interior da jornada. Os turnos de 12 x 36 horas, que revezam a força de trabalho para explorá-la dia e noite sem parar, passam a guardar previsão legal e não apenas em normas coletivas, assim como já eram regulamentados legalmente os acordos de compensação e prorrogação de jornadas que asseguram a extração da mais valia absoluta pelo capital. O tempo à disposição do empregador, por exemplo, em inúmeras hipóteses, deixa de ser remunerado, transferindo-se o ônus ao empregado. As horas de percurso, outrossim, não são mais devidas na vigência da Lei n. 13.467/2017 e o intervalo intrajornada diminuído à metade. A lei trabalhista brasileira já estabelecia limites de tolerância na variação da marcação dos cartões de ponto até o limite de 10 minutos diários, institucionalizando o trabalho excessivo não pago e nem compensado. Repare-se que, se esse limite não parece relevante sob o prisma diário, em uma semana de seis dias de trabalho já representará uma hora não paga e em um ano importará, então, em 48 horas não remuneradas, ou seja, mais que uma semana normal de trabalho. É assim que se alimenta o capital: todos os momentos do tempo são elementos de lucro.

É difícil crer em um cenário jurídico diverso diante de um crescente exército de reserva, de uma concorrência desenfreada, do alastramento de diversos instrumentos de precarização do trabalho humano e de um Parlamento dominado por empresários e pelo agronegócio. As bases do sistema político e econômico se apresentam flagrantemente favoráveis à superexploração do trabalho pelo capital, sem maior preocupação com a sua

degradação excessiva, ou seja, com sua saúde e bem-estar. Na hipótese de ocaso prematuro da capacidade de trabalhar, o capital se socorre da população excedente para a reposição da força de trabalho. Por sua vez, a Lei n. 13.467/2017 estabelece uma barreira írrita ou insignificante à proteção física e mental dos trabalhadores, prevendo a tarifação da indenização por danos extrapatrimoniais, conforme o grau da ofensa e o último salário do ofendido. Nessa perspectiva, para além de monetarizar a dignidade da pessoa humana, o legislador reformista impôs seu rebaixamento intrínseco, à medida que diminua o valor da força de trabalho.

No estudo da jornada de trabalho, Marx chama a atenção para a necessidade dos trabalhadores se unirem como classe. A dinâmica da luta de classes, segundo a doutrina marxista, serve tanto para reequilibrar o sistema quanto para derrubá-lo. Harvey, por exemplo, sustenta que “a existência de certo ganho de poder do movimento dos trabalhadores é socialmente necessário ao funcionamento efetivo do capitalismo” (2013: 153). A história já demonstrou ao capital que uma menor exploração da força de trabalho pode ser mais produtiva que sua superexploração. O New Deal e o próprio Estado de bem-estar social ilustram alianças sociais que fortaleceram a produtividade e a acumulação capitalista. No entanto, apenas a luta de classe instrumentalizada por uma forte consciência sindical para si será capaz de reequilibrar as forças da relação de trabalho e, no limite, promover reivindicações com matizes mais revolucionários.

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