A terceira viragem em Portugal digamos que, vai do 25 de Abril de 1974 até à publicação da Lei 3/84. O 25 de Abril de 1974 vê a censura acabar, o que torna possível, em simultâneo, a erotização do cinema e da televisão (recorde-se a projecção de filmes como o Último Tango, ou ainda a telenovela Gabriela) e o florescer do comércio pornográfico (Vilar Duarte, 1990). Estes 10 anos (1974 a 1984) são anos de profundas reviravoltas nos costumes e atitudes da população portuguesa em matéria da sexualidade.
Estas mudanças estão impregnadas quer de políticas estatais, quer de movimentos sociais ligados a questões da sexualidade.
O Estado promove a partir do ano de 1976, com o apoio dos Serviços de Saúde, uma política de enraizamento do planeamento familiar, perspectivando a prevenção de gravidezes não planeadas e do consequente recurso ao aborto. Um passo muito importante na promoção da saúde materno-infantil; política que consagra na própria constituição (Vilar Duarte, 1990). O Estado Português altera o código de família, corrigindo assimetrias que consagravam a desigualdade e a dominação do sexo feminino pelo masculino. Neste processo, tem um papel de relevo a comissão da condição feminina, organismo que promove no final da década
ICBAS Revisão Bibliográfica
Manuel Alberto Morais Brás
186
projectos de informação em planeamento familiar com o patrocínio do Fundo das Nações Unidas para Actividades da População, dinamizando ao nível escolar, estudos e editando materiais, fazendo formação a professores, por forma a evitar uma educação não sexista.
Contudo, não se assiste a nenhum impulso significativo por parte da política do Ministério que promova o debate da educação sexual no meio escolar.
As organizações feministas, concentram as suas maiores preocupações em campanhas que reivindicam o direito à contracepção e à legalização do aborto. Entre 1978 e 1984, os debates públicos mais marcadamente polémicos, são sobretudo os relacionados com o aborto, o que coincide em alguns casos com propostas de lei no Parlamento (Vilar Duarte, 1990).
Ainda no decurso deste período, a APF, embora participando também nos debates anteriormente expostos, organiza esforços em trono da informação sobre os métodos de planeamento familiar, sendo cada vez mais solicitada para abordar temas relacionados com a sexualidade dos jovens, especialmente dos adolescentes, e com temas da necessidade da educação sexual na família e na escola.
Assim, muito sucintamente, chegamos ao quarto momento – a aprovação da Lei 3/84 e as suas consequências. A parte que se refere ao planeamento familiar, embora inicialmente com alguma contestação por parte de pais, nomeadamente no que diz respeito ao livre acesso dos jovens às consultas de planeamento familiar sem o seu consentimento, rapidamente foi regulamentada (Vilar Duarte, 1990).
Até 1984 não existia nenhum quadro legal para a educação sexual nas escolas. Também não existiam quaisquer barreiras legais ao seu desenvolvimento. Desde esse ano, vários documentos legais e declarações oficiais deram a este tema um quadro legal e institucional mínimo, embora incompleto.
Passamos a indicar alguns diplomas legais que nos parecem relevantes nesta matéria:
Lei 3/84 – Direito à Educação Sexual e ao Planeamento Familiar – Esta lei, publicada em Março de 1984, foi produzida no seio de um animado debate parlamentar sobre as questões ligadas à legalização e despenalização do aborto. A Assembleia da República entendeu que deveriam ser também debatidos Projectos de Lei que se situassem no campo da prevenção do aborto (e não somente na sua legalização ou despenalização). Teve-se a preocupação de definir um quadro legal para a prestação de cuidados de planeamento familiar e para a implementação da educação sexual nas escolas. Vejamos alguns dos seus aspectos mais importantes:
Revisão Bibliográfica ICBAS
• Os programas escolares devem incluir conhecimentos científicos sobre anatomia, fisiologia, genética e sexualidade humanas, devendo contribuir para a superação das discriminações em razão do sexo e da divisão tradicional de funções entre homem e mulher;
• Será dispensada particular atenção à formação inicial e permanente dos docentes, por forma a dotá-los do conhecimento e da compreensão da problemática da educação sexual, em particular no que diz respeito aos jovens;
Serão ainda criadas também condições adequadas de apoio aos pais no que diz respeito à educação sexual dos filhos.
Infelizmente, a parte referente à educação sexual da lei 3/84 nunca foi regulamentada tal como estava prevista. Fruto de receios e estratégias políticas, a lei 3/84 constitui somente um enquadramento global do tema, extremamente importante mas também muito incompleto. Relativamente à educação sexual, esta teria ainda de percorrer um longo caminho. Os anos que medeiam entre 1984 e 1988 são marcadamente vincados pelo crescimento das actividades de educação sexual nas escolas. O entusiasmo é enorme, pelo que são vários os organismo e instituições que aderem e discutem esta problemática: Sindicatos de Professores, Santa Casa da Misericórdia ou a Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica.
A nível governamental, a educação sexual encontra eco no Ministério da Saúde, quer a nível da Saúde Escolar, quer através de Acções de Educação para a Saúde, e de Programas de Planeamento Familiar e para Adolescentes (Vilar Duarte, 1990).
Portaria 52/85 – Esta portaria constitui a regulamentação da Lei 3/84 no tocante ao planeamento familiar e é especialmente destinada aos serviços de saúde. No entanto, ao delegar nas competências dos serviços de saúde a necessidade de organizar programas de informação educação sexual, esta legislação constitui o ponto de partida para muitos projectos de articulação Saúde-Educação nesta área concreta.
Despacho 9/EBS/86 – Este despacho revelou a preocupação do Ministério da Educação em articular as acções de educação sexual promovidas por serviços e organizações exteriores às escolas com as próprias escolas. Nele, é sugerida que na realização deste tipo de acções haja uma articulação prévia entre a entidade que pretende realizar a acção, o Conselho Directivo, a Associação de Pais e a Inspecção Geral do Ensino. Em alguns casos, este despacho acabou por dificultar a realização das acções ao ser (incorrectamente) entendido como uma obrigação e não como um caminho desejável.
ICBAS Revisão Bibliográfica
Manuel Alberto Morais Brás
188
Lei de Bases do sistema educativo (14 de Outubro de 1986) – Só na Lei de Bases do Sistema educativo, a educação sexual nas escolas voltará a ser matéria de legislação. No n.º 2 do artigo 47.º, a lei prevê a criação de uma nova área curricular chamada Formação Pessoal e Social que pode, entre outras, incluir uma componente de educação sexual.
Em 1986, foi aprovada a Lei de Bases do Sistema Educativo (LBSE) que, no n.º2 do seu artigo 47º, inclui também a Educação Sexual, situando-a numa nova área educativa a Formação Pessoal e Social – sendo esta definitiva como uma área transversal (e não somente disciplinar, como muitas vezes tem sido entendida) e que “pode ter como componentes a educação ecológica, a educação do consumidor, a educação familiar, a educação sexual, a prevenção de acidentes, a educação para a saúde, a educação para a participação nas instituições, serviços cívicos e outros no mesmo âmbito”.
A Lei de Bases do Sistema Educativo atribui a responsabilidade de incluir nos currículos e nos quotidianos escolares a abordagem de temas ligados à vida, às necessidades e ao processo de desenvolvimento pessoal e social das crianças e jovens, entre os quais os temas relacionados com a educação sexual.
Dec. Lei n.º 286/89 – Organização Curricular – Esta nova área curricular prevista na Lei de Bases dá lugar a uma disciplina chamada Desenvolvimento Pessoal e Social, opcional em relação à educação religiosa, e com uma carga horária semanal de 1 hora. Prevê ainda uma outra área curricular – a Área Escolar – que poderá acolher também iniciativas nesta área. A constituição da República Portuguesa (quarta revisão Constitucional, publicada na Lei Constitucional n.º1/97, de 20 de Setembro de 1997) aponta, no Artigo 67º, as incumbências do Estado para protecção da Família. No número 2, de entre as atribuições indicadas, destacam-se duas com relevo particular no âmbito da Saúde Sexual e Reprodutiva e, nomeadamente, no da educação sexual.
Assim, as alíneas c) e d) do número citado, apontam, respectivamente, o dever do Estado em: “Cooperar com os pais na educação dos filhos (...) e de (...) garantir, no respeito da liberdade individual, o direito ao planeamento de família, promovendo a informação e o acesso aos métodos e aos meios que o assegurem, e organizar as estruturas jurídicas e técnicas que permitam o exercício de uma maternidade e paternidade conscientes”
A Lei de Bases da Saúde, publicada em Agosto de 1990 (Lei 48/90, de 24 de Agosto), realça, na base II, que a promoção da saúde e a prevenção da doença fazem parte das prioridades no planeamento das actividades do Estado; indica, ainda, as crianças e os adolescentes como exemplos de grupos sujeitos a maiores riscos, para os quais são tomadas medidas especiais; por seu turno, na Base VI,
Revisão Bibliográfica ICBAS
refere-se que todos os departamentos, especialmente os que actuam nas áreas específicas da segurança e bem- estar social, da educação, do emprego, do desporto (...) devem ser envolvidos na promoção da saúde.
Através da Resolução do Conselho de Ministros nº 124/98, de Outubro de 1998, foi aprovado o relatório inter-ministerial para a elaboração de um plano de acção em educação sexual e planeamento familiar, que consubstancia algumas medidas concretas com vista ao cumprimento dos princípios consignados na Lei 3/84, assim como a (...) identificar as acções já em curso, com o objectivo de as potenciar e desenvolver, numa perspectiva de articulação e cooperação intersectorial, bem como definir todas aquelas que permitam melhor alcançar os objectivos em causa (Resolução de Conselho de Ministros nº 124/98, de 1 de Outubro de 1998; D.R. nº 243, de 21/10/98). Esse relatório foi apresentado por uma comissão composta por representantes dos Ministérios da Educação, da Saúde, da Justiça, do Trabalho e da Solidariedade, das Secretarias de Estado da Juventude e da Habitação, constituindo-se como um plano de acção integrado nos domínios da Educação Sexual e do Planeamento Familiar.
E nesse documento, a educação sexual é entendida como (...) uma componente essencial da educação e da promoção da saúde, sendo por isso assumido como necessário reforçar a concretização e aplicação das Leis vigentes, através da articulação das intervenções dos vários Ministérios, com vista a atingir os objectivos considerados prioritários:
“Promover a Saúde Sexual e Reprodutiva, tendo como alvo prioritário os adolescentes e as populações especialmente vulneráveis;
Proporcionar condições para a aquisição de conhecimentos na vertente da Educação Sexual que contribuam para uma vivência mais informada, mais gratificante, mais autónoma e logo mais responsável da Sexualidade; Estimular o desenvolvimento de referências éticas, de atitudes, de afectos e de valores na família, na escola e na sociedade;
Criar condições que permitam desenvolver as capacidades de cada cidadão para perceber e lidar com a sexualidade na base do respeito por si próprio e pelos outros e num clima de aceitação dos valores da tolerância, da não- discriminação e da não-violência, de abertura à diversidade e da capacidade crítica de debate e da experiência de responsabilidade e autonomia,
Promover as capacidades individuais que ajudem a construir uma consciência clara da importância da tomada de decisão, de recusa de comportamento não desejado e do conhecimento dos recursos para apoio quando este for considerado necessário;
Criar condições para a gravidez planeada em que os factores de risco sejam atenuados, ou mesmo anulados através da melhoria da qualidade de prestações e cuidados de saúde;
Valorizar as actividades de educação e informação dirigidas a crianças e adolescentes facilitando condições adequadas para que estas tenham lugar;
ICBAS Revisão Bibliográfica
Manuel Alberto Morais Brás
190
Rentabilizar e aumentar, a nível regional e local, a oferta/cobertura de cuidados apropriados em Saúde Sexual e Reprodutiva, nomeadamente nas áreas mais carenciadas”.
(Relatório inter-ministerial para a elaboração de um plano de acção em Educação Sexual e Planeamento Familiar; p:19-20).
Em Fevereiro de 1999, através da Resolução do Conselho de Ministros n.º7/99, foi aprovado o plano para uma política global de família, em que se preconiza, nomeadamente, a aplicação de medidas tendentes a criar condições para uma maior participação das famílias na vida escolar, através da organização e da colaboração em iniciativas que visem a melhoria da qualidade do ensino e a humanização das escolas. Neste diploma, é explicitada, também, a necessidade de assegurar maior equidade no acesso aos cuidados em saúde sexual e reprodutiva, por parte dos adolescentes e dos jovens, para o que se enfatiza a vantagem de haver articulação interinstitucional e multiprofissional.
Em Agosto de 1999, foi publicada a Lei 120/99 (em fase actual de regulamentação), que reforça as garantias do direito à saúde reprodutiva. Através desta, preconiza-se que nos estabelecimentos dos ensinos básicos e secundário seja implementado “um programa para a promoção da saúde e da sexualidade humana, no qual será proporcionada adequada informação sobre a sexualidade humana, o aparelho reprodutivo e a fisiologia da reprodução, SIDA e outras doenças sexualmente transmissíveis, os métodos contraceptivos e o planeamento da família, as relações interpessoais, a partilha de responsabilidades e a igualdade entre os géneros”. No articulado, aponta-se para formas de abordagem interdisciplinar dos temas citados, para a colaboração estreita com os serviços e profissionais da saúde, com os organismos representativos dos estudantes e dos encarregados de educação; preconiza-se, ainda, que nos planos de formação dos docentes constem acções especificas sobre educação sexual e reprodutiva.
Em suma, o quadro legal e normativo existente:
“Legitima a existência da educação sexual como componente da educação, incentiva o seu desenvolvimento, atribui ao estado e ao sistema educativo em geral, e às escolas em particular, responsabilidades e deveres a este nível; Aponta, como está disposto na Lei 3/84 e é reforçado no relatório inter-ministerial para a elaboração de um plano de acção em educação sexual e planeamento familiar, para um conceito de educação sexual que não se restringe aos aspectos biológicos e médicos, uma vez que se lhe associam as vertentes da formação pessoal e social das crianças e jovens;
Define algumas vias de inclusão da educação sexual no quotidiano escolar, como a curricular e a extracurricular, apelando à articulação inter-institucional e à rentabilização dos recursos dos vários Ministérios”(Lei 120/99, de 11 de Agosto).
Revisão Bibliográfica ICBAS
16 – CONTRACEPÇÃO
O dever de informar, não o poder de decidir (...). Pierre-Gilles de Gennes