Capítulo II TIPOGRAFIA: A EXPRESSÃO ESCRITA DA COMUNICAÇÃO VISUAL
2. Características da tipografia
2.1. A estrutura dos tipos
É interessante perceber que quando pensamos em tipos, naturalmente pensamos em
letras na maioria das vezes. Não há indícios de que as letras sejam mais importantes do que
os numerais, sinais ou ornamentos, que são os elementos da tipografia. Porém sabemos que as letras são aquelas que se responsabilizam pelo trânsito da mensagem, indo do emissor ao receptor (e vice-versa) levando em si uma carga de sentidos que a tornam ideal para aquele projeto. Porém, tudo tem uma origem e consideramos que ela está no próprio ser humano, assim como Lupton (2013) expõe:
A origem das palavras está nos gestos do corpo. Os primeiros tipos foram modelados diretamente sobre as formas da caligrafia. No entanto, elas não são gestos corporais, mas imagens manufaturadas para repetição infinita. A história da tipografia reflete uma tensão contínua entre a mão e a máquina, orgânico e o geométrico, o corpo humano e o sistema abstrato (LUPTON, 2013, p. 9).
Quando o processo torna-se industrializado, mecânico, por meio da prensa de Gutenberg, temos o início das grandes alterações nos estilos das letras, que foram mudadas para que pudessem ser utilizadas conforme as características dos equipamentos que as utilizavam, conjuntamente com o respeito às representações visuais do alfabeto - tudo isso no sentido de que o receptor pudesse entender as mensagens que estavam sendo impressas e que, dali por diante, já se percebia que era uma estrada sem volta, conforme diz Carramillo Neto (1997) em seu livro, citando McLuhan ao abrir o capítulo que dedica às Matrizes de
Impressão: “Quando Gutenberg inventou a impressão com os tipos móveis, estava
descoberto o milagre da difusão das ideias. Gutenberg inventou o público” (CARRAMILLO, 1997, p. 89).
FIGURA 23 - Estrutura de um tipo.
Fonte: adaptado de CARRAMILLO, 1997, p. 91.
Os tipos móveis trouxeram a possibilidade de compor a estrutura dos textos que participavam dos impressos. Em variadas quantidades que ficavam à disposição do tipógrafo, eles eram acolhidos pelos instrumentos de impressão para que pudessem, organizados, atender às necessidades plenas da produção gráfica. Sua contribuição ao avanço da comunicação, revolucionando a escrita e a forma de apresentar a linguagem é indiscutível já que os tipos móveis tinham em seu elenco não somente as letras mas também os sinais gráficos (acentos, traços, vírgula etc.) para formar as frases completas, como substituição dos textos manuscritos. Lupton (2013) vem contribuir com seus apontamentos históricos nesse sentido, salientando o caráter de produção de massa com o advento dos tipos móveis:
Os tipos móveis, inventados por Johannes Gutenberg na Alemanha no início do século XV, revolucionaram a escrita no Ocidente. Ao contrário dos escribas, que fabricavam livros e documentos à mão, a impressão com tipos permitia a produção em massa. Grandes quantidades de letras podiam ser fundidas a partir de um molde e concatenadas em “formas”. Depois que as páginas eram revisadas, corrigidas e impressas, as letras eram dispensadas em caixas subdivididas para rio utilização (LUPTON, 2013, p. 9).
A seguir apresentamos imagens dos tipos de metal em diferentes situações. Nossa intenção é aproximar o leitor da realidade do uso destes tipos e de como o trabalho, no sistema de impressão tipográfico, era minucioso e já requeria um alto grau de concentração.
Errar na colocação de um tipo ou deixar de colocá-lo implica em refazer toda a composição. Vejamos:
FIGURA 24 - Tipos soltos, à disposição para que sejam utilizados.
Fonte: site Tipografart43.
FIGURA 25 - Tipógrafo manipulando os tipos e fazendo a composição.
Fonte: site Cardquali44.
43 Disponível em: https://tipografart.wordpress.com/tag/tipografia/. Acesso em 28 jan. 2017.
FIGURA 26 - Tipos já compostos em sequência, formando frases.
Fonte: site Em Fechamento - Assuntos Editoriais45.
Na figura a seguir, uma ilustração de 1917, feita por Frank S. Henry, onde podemos ver as caixas que eram utilizadas em gráfica tradicionais para organizar as fontes tipográficas e o material de espacejamento. “As letras maiúsculas são guardadas em uma gaveta acima das minúsculas. Daí os termos “caixa-alta” e “caixa-baixa”, derivados do espaço físico da gráfica” (LUPTON, 2013, p. 8).
45Disponível em: http://www.emfechamento.com.br/2014/05/guia-rapido-de-tipos-de-impressao- e.html#.WIznQvkrLIU. Acesso em 28 jan. 2017.
FIGURA 27 - Tipos, espaços e intervalos de chumbo.
Fonte: adaptado de LUPTON, 2013, p. 8.
Um caractere impresso é um caractere dono de uma estrutura construída tecnicamente para que o mesmo tenha plenas condições de ser reproduzido em qualquer contexto independentemente de quem o utilize, pois deve carregar em si caraterísticas que venham a permitir sua utilização sem conflitos, sem dificuldades - tanto para aquele que trabalhará com ele na construção do projeto, como para o público que o visualizará. A seguir apresentamos estas características - também chamadas de anatomia - dos tipos:
FIGURA 28 - Características da estrutura dos tipos (1).
Fonte: adaptado de LUPTON, 2013, p. 32.
FIGURA 29 - Características da estrutura dos tipos (2).
FIGURA 30 - Características da estrutura dos tipos (3).
Fonte: adaptado de LUPTON, 2013, p. 32.
FIGURA 31 - Características da estrutura dos tipos (4).
FIGURA 32 - Características da estrutura dos tipos (5).
Fonte: adaptado de LUPTON, 2013, p. 33.
Acima pudemos conhecer as características dos tipos, que são variadas e que definem a estrutura exclusiva, integral ou parcial, de cada fonte quando em comparação com outra. A nomenclatura que se dá para cada parte e/ou detalhe, como haste, bojo, serifa, orelha ou
bandeira, espinha, altura de ascendente, saliência etc., é a denominação pela qual podemos
tecnicamente apontar para uma parte específica de um tipo, referenciando-a num diálogo entre designers, por exemplo, ou também fazendo marcações numa arte-final ou layout de projeto gráfico. Este elenco de referências é utilizado com frequência pelos criativos desenvolvedores de fontes e também por designers, como podemos ver a seguir na figura que apresenta o desenho de uma fonte.
FIGURA 33 - Desenho de uma fonte.
Fonte: site do IPCA46.
Mas há outros elementos que constituem as características ou anatomia dos tipos. São eles o tamanho e a escala. Nos próximos itens vamos compreender do que se tratam estes elementos e perceber como são fundamentais para que a presença dos tipos se mantenha adequada aos padrões necessários do projeto gráfico, como também adequados aos limites que o projeto possui.
Dentre os itens que compõem a anatomia de um tipo está o tamanho. Por meio dele podemos considerar a altura ou a largura de um tipo onde, atualmente, com a oferta dos computadores e seus softwares, podemos escolher com facilidade o tamanho dos caracteres, porém, antes do advento da informática, era muito mais frequente que os designers, os diagramadores, diretores de arte e todos aqueles profissionais que trabalhassem com o texto impresso - jornalistas, por exemplo - calculassem o volume de texto para determinado
46 Disponível em: http://ipca-tipografia-2011-12.blogspot.com.br/2011/10/composicao-tipografica.html. Acesso em 07 fev. 2017.
espaço na página por meio do cálculo de paicas47 ou pontos (padrão norte-americano,
utilizado largamente no Brasil), ou que calculassem em polegadas, milímetros ou pixels48.
FIGURA 34 - Altura dos tipos com pontos e paicas.
Fonte: adaptado de LUPTON, 2013, p. 34.
Todas as tentativas para dar um padrão às medidas dos tipos iniciaram-se no século XVIII e o sistema de pontos foi instaurado para medir tanto a altura das letras quanto a distância entre as linhas (leading). No quadro a seguir podemos conhecer como os pontos equivalem. Isto nos dá a condição de mensurar as ideias e necessidades que temos de comunicar, por exemplo, a medida de uma determinada letra e, assim, calcular o tamanho que um texto poderá ter em um determinado espaço. Ressaltamos que as paicas são normalmente utilizadas para medir as larguras das colunas de texto.
QUADRO 7 - Equivalência das medidas.
PONTOS 1 ponto = 1/72 polegada = 0,35 milímetros PAICAS 1 paica = 12 pontos = 4,2 milímetros
Fonte: adaptado de LUPTON, 2013, p. 34.
As anotações de pontos e paicas para orientar os produtores tanto do conteúdo (para lhes informar a quantidade, o limite de texto que poderão escrever) quanto da criação do
47 Paica é um padrão de medida tipográfica anglo-saxã. Esta unidade correspondente a 72 avos de um Pé, ou respectivamente, um sexto de polegada. A paica subdivide-se em 12 unidades de outra medida tipográfica, o ponto. Uma paica equivale a aproximadamente 4,23 mm. Disponível em:
http://dicionarioportugues.org/pt/paica. Acesso em 28 jan. 2017.
48 Pixel ou pixels: (aglutinação de Picture Elements). Qualquer um dos pequenos pontos que juntos formam uma imagem, como em uma tela de um monitor de computador ou televisão, ou um sensor como em uma câmera fotográfica. Disponível em: http://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=pixel. Acesso em 28 jan. 2017.
layout49 e daqueles que planejam a produção gráfica em seus estágios (diagramação50, arte-
final51 etc.), muitas vezes são feitas de forma abreviada. A seguir apresentamos a
padronização universal das abreviações de pontos e paicas na indústria gráfica. QUADRO 8 - Abreviações de paicas e pontos.
8 paicas = 8p 8 pontos = p8, 8 pt 8 paicas, 4 pontos = 8p4
corpo de 8pt com entrelinha da 9pt = 8/9 Helvética Fonte: adaptado de LUPTON, 2013, p. 34.
Temos também a largura aplicada às letras, quando tratam suas medidas horizontais e que oficialmente é chamada de largura de composição. Sempre uma largura é proporcional ao tipo da letra. Há vezes em que esta largura pode ser grande, noutras é pequena - mas ela sempre será equivalente ao tamanho da letra mais um pequeno espaço para distanciá-la das outras e o seu uso deve ser de acordo com a mensagem que se deseja transmitir. Muitos gostam de fazer experimentos com as escalas horizontais e verticais das letras distorcendo as suas proporções. Desta forma alguns elementos que são grossos ficam finos e vice-versa; porém é interessante escolher sempre um tipo com as proporções que ele necessita (estreito, comprimido ou largo).
49 Layout: esboço, planejamento ou espelho de trabalho tipográfico com a especificação dos caracteres que devem ser empregados, disposição da matéria, claros, medidas e outras minúcias relativas à composição de um livro, folheto, periódico, anúncio ou obra comercial. Disponível em:
http://michaelis.uol.com.br/busca?id=4bxAx. Acesso em 28 jan. 2017.
50 Diagramação: esquema que tem as mesmas dimensões e o mesmo formato da publicação, e em que se acham calculados e representados os elementos (títulos, textos, fotos, legendas etc.) que formam o material a ser impresso. Disponível em:
http://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=Diagrama%C3%A7%C3%A3o. Acesso em 28 jan. 2017.
51 Arte-final: 1) Trabalho ou projeto de arte gráfica (ilustração, anúncio, cartaz, página de livro, jornal ou revista, capa de livro, jornal, disco, revista etc.) pronto para reprodução; 2) acabamento final de um trabalho de arte gráfica (com as devidas especificações de retículas, cor, fotografias, ampliações, reduções etc.). Disponível em: http://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=arte-final. Acesso em 28 jan. 2017.
FIGURA 35 - Distorção das letras.
Fonte: adaptado de LUPTON, 2013, p. 34.
Outro fator que compõem a estrutura dos tipos é a escala. A escala permite que se dê maior ou menor impacto a um projeto conseguindo que haja maior contraste visual,
movimento ou profundidade pelo uso dos caracteres num determinado contexto. A questão
da escala é importante em nosso contexto que contém a análise do meio físico com o meio digital porque, conforme cita Lupton (2013):
A escala é relativa. Tipos de 12pt mostrados num monitor de 32 polegadas podem dar a impressão de ser pequenos demais, enquanto impressos na página de um livro podem parecer balofos e pesados. Os designers criam hierarquia e contraste ao jogar com a escala das letras. Mudanças na escala ajudam a criar contraste visual, movimento e profundidade, além de expressar e hierarquias de importância. A escala é física (LUPTON, 2013, p. 38).
FIGURA 36 - Exemplos de escalas com o contraste entre tipos com tamanhos diferentes.
Fonte: adaptado de LUPTON, 2013, p. 38.
Há algumas outras observações que se enquadram no contexto dos tamanhos dos tipos. Ocorrem situações onde as fontes podem ter exatamente o mesmo tamanho em pontos, mas são diferentes em altura, peso ou proporções. Esta situação pode alterar a escolha de uma fonte por outra, pois devemos lembrar que o objetivo sempre é o de atender às necessidades do projeto gráfico.
FIGURA 37 - Exemplos de ocorrências onde os tamanhos das letras iguais são iguais em pontos, mas diferentes em alturas, pesos e proporções.
Fonte: adaptado de LUPTON, 2013, p. 35.
Outra ocorrência que existe é a presença dos chamados tamanhos ópticos - que ocorre quando temos uma fonte que aparenta funcionar bem tanto em tamanho grande quanto em tamanho pequeno. De fato, isto pode vir a ocorrer e cabe ao designer gráfico definir qual a fonte e o tamanho ideal para aplicar em determinadas situações do projeto gráfico. Letras que dão o sentido de elegância e sofisticação quando em tamanho grande, ao serem reduzidas passam a apresentar claramente inadequação pois tornam-se pesadas, densas, como é o caso do “A”, da fonte Adobe Garamond, aplicada em tamanhos diferentes de acordo com a necessidade (Figura 38). Vejamos a seguir exemplos destas situações.
FIGURA 38 - Tamanhos ópticos - Parte I.
Fonte: adaptado de LUPTON, 2013, p. 37.
FIGURA 39 - Tamanhos ópticos - Parte II.