Capítulo II TIPOGRAFIA: A EXPRESSÃO ESCRITA DA COMUNICAÇÃO VISUAL
2. Características da tipografia
2.3. Regras da tipografia
Para que toda a comunicação dos tipos seja eficaz é importante que haja a organização dos elementos com normas e padrões que possam auxiliar uma ordem geral de utilização, podemos chamar de Ordem Tipográfica, conforme Duplan (2013, p. 79). Sendo assim, o fato de haver tipos que representem o que aquele emissor pretende levar ao seu receptor deve ser da maior garantia para que a mensagem não tenha prejuízo. Aqueles componentes primordiais da linguagem tipográfica que precisam estar sempre dominados dentro de uma ordem formal, plástica e que mantenham a eficácia da transmissão da mensagem ao receptor merecem ser respeitados. A seguir comentamos cada um.
Dramatização - Um traço, um estilo de letra fácil de ler para um conteúdo fácil de
compreender. As escolhas do designer para que a quantidade de palavras contidas numa única linha haja a condução de um bom ritmo de leitura para o leitor: a isto chamamos de
dramatização. Conforme nos diz Duplan (2013), para cada conteúdo há um tipo de
caractere: “Um texto leve, fácil, não pede um caractere muito pesado, que deixaria a página escura, trágica à primeira vista. Um texto grave, ao contrário, aceita um caractere mais sombrio, que constrói uma página trágica, austera, o que contribui para descartar a ideia de facilidade ou fantasia” (DUPLAN, 2013, p. 81).
FIGURA 63 - Exemplos do uso dos caracteres gerando dramatização - Pierre Duplan.
Fonte: adaptado de DUPLAN, 2013, pp. 80-81.
Na Figura 63, acima, à esquerda, temos um exemplo de dramatização que aceita um caractere mais pesado e trágico. (Maksim Gorki, A Donzela e a Morte, Leipzig, 1961). A composição tipográfica é na fonte Tiemann Antiqua. À direita temos um outro exemplo de dramatização mais suave, leve, fácil. George Wueerth, Viagens Inglesas, Leipzig, 1962. A composição tipográfica é em Walbaum Antiqua (Monotype). Esta fonte foi criada por Justus Erich Walbaum no início do século XIX.
A seguir podemos perceber a sensação que os tipos podem imprimir ao leitor, como a leitura pode tornar-se mais ou menos agradável e com a dramaticidade que o texto indica. O
designer deve ter sensibilidade e conhecimento dos tipos disponíveis para que possa adequar
FIGURA 64 - O poder da tipografia nas sensações do texto.
Fonte: adaptado de DUPLAN, 2013, p. 82.
Silêncio branco - É como chamamos aqueles vazios entre as palavras, os textos para que o leitor possa respirar, pensar, voltar para si e concentrar-se, encontrando o entendimento do texto que está absorvendo. A página de rosto, o frontispício, determinam limites que criam um momento introdutório para que haja a abertura do texto. Duplan (2013) comenta:
O silêncio branco dos vazios da guarda isola o leitor do mundo exterior ele permite se concentrar num espaço definido o ar da leitura se apresenta diante dele: a página de rosto, o frontispício, determinam limites que criam, por meio de inúmeros parâmetros, o clima de simpatia e de abertura necessário a recepção e ação reflexiva a primeira página, enfim, não passa da confirmação de todas as propostas pré-visualizadas nas páginas anteriores ao texto da obra (DUPLAN, 2013, p. 83).
Redundância plástica - Um outro fator é a redundância plástica, ou seja, a página
pode ser clara ou escura (uso da tinta), pode ter relação histórica com alguma coisa (tipo de papel, acabamento etc.) etc. O texto está sendo apresentado de uma maneira flexível, ou seja, é um texto que conduz o leitor com leveza ou é um texto que imprime dramaticidade, força? Aqui podemos ver que existem fatores que podem facilitar ainda mais os objetivos que a mensagem deseja atingir. De acordo com Duplan (2013, p. 83) a “redundância plástica” torna-se o caminho mais adequado, pois “o caractere reforça a significação do texto”.
FIGURA 65 - Exemplos de uso do silêncio branco e da redundância plástica.
Fonte: adaptado de DUPLAN, 2013, pp. 84-85.
A Figura 65 mostra dois trechos de Excusez les parentes, de Pierre Ferran, Robert Morel Editor,1968. Composição de Marcel Lagrue em Paris, layout de Yves Perrousseaux, como exemplo de usar o branco como silêncio.
Existem muitas maneiras de se utilizar as fontes, conhecer a sua classificação torna- se mais teórico do que prático quando a fluência da criatividade está presente no momento em que o designer se encontra no processo de desenvolvimento de um novo projeto gráfico.
As observações feitas sobre uma ou outra fonte tipográfica sempre estarão relacionadas às características de estilo que aquele profissional requer para seu projeto gráfico, levando-o, por vezes a experimentar fontes diferentes para buscar a adequação correta à sua inspiração e que atenda também ao desejo de tornar-se um trabalho diferenciado e, para isso, não há teoria. Spiekermann (2011), fundador da MetaDesign, o maior escritório de design da Alemanha:
Há certos tipos que lhe são familiares. Você sabe como se comportarão sob certas circunstâncias e onde estão. Por outro lado, há aqueles tipos da moda que você sempre quis usar, mas não está bem certo de que este trabalho é o momento ideal para experimentá-los. [...]
Antes de organizar sua pasta de fontes, você precisa olhar para a tarefa adiante. Estabeleça um equilíbrio entre praticidade e estética - essa é a essência do design (SPIEKERMANN, 2011, p. 61).
Apresentamos a seguir uma figura que pode exemplificar a maneira como um
designer trabalha a partir de sua própria experiência, estabelecendo uma linha de conduta
(regras) para o uso da tipografia. É uma visão bastante particular, mas que tem o objetivo de compor um elenco de informações para que as fontes sejam utilizadas da melhor maneira - sob o ponto de vista deste designer, obviamente.
É uma sequência de sugestões para que o designer, experiente ou não, possa buscar o melhor resultado em termos de conhecer com o que está lidando (coluna 1) - que são princípios tipografia e, mesmo que rapidamente, sem profundidade, e ainda complemente seu saber com outras informações que ali estão. Seu autor, Sammy Maine, diz:
Mesmo que a tipografia seja uma arte e supostamente subjetiva ainda que dentro de parâmetros mínimos, estas regras podem ser aplicadas a fim de economizar tempo e muita experimentação [...]. É sempre bom saber algumas coisas básicas a não fazer para evitar o trabalho de experimentar muitas fontes em seu projeto (MAINE, 201561).
Vejamos os regulamentos da tipografia expressos por um designer gráfico e que encontramos comumente em projetos que estão à nossa volta.
61 Disponível em: http://www.creativebloq.com/typography/10-commandments-41411421. Acesso em 08 fev 2017.
Fonte: MAINE62.
Como pode-se ver, os dez mandamentos orientam o bom senso, destacando que é necessário conhecer as famílias das fontes, saber combiná-las usando serifa e não-serifa, evitar usar fontes similares, saber contrastá-las e apresentar um clima agradável. Uma maneira de dar movimento e plasticidade é misturar pesos diferentes na mesma fonte. Por isso, o profissional de design agrega à sua prática as ferramentas de comunicação visual no campo de projetos editoriais, considerando as necessidades em que está contextualizado. Dessa forma, deve saber manejar com criatividade os mandamentos da tipografia, mesmo que de acordo com sua experiência possa vir a desenvolver ou ajustar conceitos até então já elaborados por outro designer.
62 Disponível em: http://www.creativebloq.com/typography/10-commandments-41411421. Acesso em 08 fev. 2017.