2 O INSTITUTO DA ARBITRAGEM NO DIREITO
2.2 MODALIDADES DE ARBITRAGEM
2.2.4 Arbitragem interna, estrangeira e internacional (transnacional)
2.2.4.2 Arbitragem transnacional: um conceito econômico
2.2.4.2.2 A funcionalidade do conceito de arbitragem internacional: regimes
Para além de propósitos teóricos, a funcionalidade de um conceito próprio para a arbitragem transnacional está na organização de uma regulação específica para as relações jurídicas que se encaixarem nele. Alguns países se preocuparam em delimitar uma classe própria de arbitragem transnacional, elaborando regras de enquadramento aplicáveis apenas a ela. Outros – como o Brasil – não dedicaram a sua competência legislativa a esse tema, tendo se limitado a tratar apenas das arbitragens interna e estrangeira.
Considerando esse quadro, pode-se classificar os regimes nacionais de regulação da arbitragem nos seguintes grupos: a) regime unitário ou monista; b) regime dualista; e c) regime semidualista91 ou monista internacionalizante92. O regime dualista é aquele em que a legislação estabelece um conceito para a arbitragem internacional e estatui para ela regras especiais que são distintas daquelas dedicadas à arbitragem doméstica. Essas regras distintas podem, por exemplo, tratar das causas de revisão ou anulação da sentença arbitral, prevendo hipótese mais restritas para a arbitragem internacional que contariam com um regime mais permissivo. Por sua vez, o regime unitário traça uma única regulação para a arbitragem doméstica e transnacional, disciplinando uniformemente as duas categorias. E, a sistemática semidualista diz respeito às ordens jurídicas que diferenciam as arbitragens interna e transnacional e estendem à segunda algumas regras legais que foram positivadas para a primeira. Há um conjunto de regras comuns às duas modalidades, mas também são previstas
91 PINHEIRO, Luís de Lima. Manual de Arbitragem, p. 199.
92 BONATO, Giovanni. A arbitragem internacional na França e a arbitragem societária na Itália: algumas
reflexões comparativas com o direito brasileiro. Revista da Faculdade de Direito da UFMG, Belo Horizonte, n. 66, p.253-289, jan-jun 2015, p. 265.
regras específicas para cada uma delas. Seria, por conseguinte, um modelo intermediário de regulação da arbitragem.
A LA espelha claramente um regime unitário ao ter se preocupado apenas em definir um único bloco normativo que se aplica a arbitragem que se desenvolve no território brasileiro, não importando se o objeto dela tenha ou não algum caráter internacional. Nem mesmo diligenciou o legislador brasileiro em legalmente estipular um conceito de arbitragem internacional. Outros Estados seguiram caminho distinto, como a França que optou por uma disciplina dualista. É exatamente sobre a problemática dessas definições e suas implicações práticas que se propõe a discorrer o presente estudo.
É difícil afirmar que um regime, em abstrato, seja melhor do que outro. Na verdade, como apontam alguns, determinar a superioridade de um ou outro sistema é um faux problème93, pois a disciplina da arbitragem doméstica e internacional é estabelecida por uma opção política. Veja-se o caso da França. A legislação francesa construiu um quadro regulatório próprio para a arbitragem internacional, pois a disciplina legal da arbitragem doméstica se mostrava inadequada à autonomia que se deseja garantir aos procedimentos arbitrais com características transnacionais94. Portanto, a escolha por um ou outro sistema dependerá de circunstâncias específicas que tocam ao ambiente regulatório (Legislativo e Judiciário) de cada Estado e à tradição jurídica acerca de uma maior ou menor autonomia da arbitragem internacional.
Mesmo assim, não se pode confundir a sentença arbitral estrangeira com a sentença arbitral internacional, como se realçou outrora. Enquanto a primeira se distingue em razão de elementos jurídicos que a conectam a um Estado (conceito jurídico), a segunda se particulariza por um conteúdo econômico que pode justificar a aplicação de regras particulares (conceito econômico). Elas não se contrapõem, assim como se observa na polarização das arbitragens estrangeira e nacional. Da mesma forma, esse conceito econômico de sentença arbitral internacional não se aplica aos laudos arbitrais proferidas pelas arbitragens internacionais que envolvem os sujeitos de direito internacional (interestatal e mista). Estas últimas sentenças internacionais, como já dito em linhas pretéritas, são verdadeiramente “anacionais”, não se apoiando em qualquer sistema jurídico
93 LALIVE, Pierre. Un Faux Problème: Monisme ou Dualisme dans la législation arbitrale? In: PHILIPPIN,
Edgar et al (Ed.).Mélanges en l'honneur de François Dessemontet. Lausanne: Cedidac, 2009. p. 255-263, p. 263
94 BONATO, Giovanni. Panorama da arbitragem na França e na Itália. Perspectiva de direito comparado com
o sistema brasileiro. Revista Brasileira de Arbitragem, Porto Alegre, v.11, n. 43, p. 59-92, jul./set. 2014, p. 88.
local. O fundamento de validade delas está em tratados e acordos que corporificam o compromisso arbitral.
Todavia, não é incomum haver uma confusão entre essas espécies. Ao comentar acórdão proferido em 2003 por um Tribunal de Apelações do Uruguai95 que decidiu ação de nulidade proposta em face de laudo arbitral proferido em Montevidéu, capital daquele mesmo país, María Blanca Noodt Taquela glosou que a corte incorretamente classificou como estrangeiro o citado laudo que, embora tivesse sido proferido no território uruguaio, apreciou disputa societária que ligava sociedades da Argentina, das Bermudas, do Chile e das Ilhas Cayman96. Elucidar se o laudo impugnado era estrangeiro ou nacional constituía premissa para a decisão da ação judicial, já que o tribunal entendia que as causas de nulidade da legislação uruguaia somente seriam aplicáveis às arbitragens nacionais. Para a referida autora, a distinção arbitragem interna versus internacional não guarda relação direta com a oposição arbitragem estrangeira versus nacional, podendo existir um laudo arbitral nacional que tenha sido prolatado numa arbitragem internacional. Percebe-se que o Judiciário uruguaio categorizou o laudo arbitral em estudo como estrangeiro para justificar a inaplicabilidade das causas de nulidade da arbitragem nacional, tendo sido influenciado pelo conteúdo econômico da demanda que denotava a sua internacionalidade. No entanto, ao ter sido proferido no território nacional, não parece correto afirmar que ele seria realmente um laudo estrangeiro, mas, na verdade, internacional em razão dos traços que o interligam para além das fronteiras nacionais.