2 O INSTITUTO DA ARBITRAGEM NO DIREITO
3.1 CORTE PERMANENTE DE ARBITRAGEM
3.1.1 Escopo
A CPA foi concebida originariamente como um foro exclusivo para Estados. Logo, apenas poderia ser provocada por ente estatais para chamar outros países a tomarem assento em procedimentos arbitrais.
Há que se esclarecer que as Convenções de Haia de 1899 e de 1907 não se restringiram a regulamentar a arbitragem como meio de solução pacífica de divergências internacionais. Igualmente trouxeram provisões sobre os bons ofícios, a mediação e as comissões de inquérito, regulamentando-as para que os Estados deles pudessem se utilizar. Além das Convenções de Haia, foram sendo elaborados outros instrumentos normativos no seio da CPA. Uma vez que se mostrava lacunoso e desatualizado o regramento do processo arbitral na Convenção de Haia de 1907, viu-se imprescindível redigir diploma próprio que detalhasse melhor o instrumento da arbitragem, tendo surgido o Regulamento de Arbitragem da CPA. Além desse regulamento, em 1990 foi definido um novo conjunto de regras compatíveis com a nova realidade da arbitragem internacional. Assim, vieram o Regulamento Opcional para Arbitragem entre dois Estados, o Regulamento Opcional para Arbitragem entre duas Partes das quais uma é um Estado, o Regulamento Opcional para Arbitragem envolvendo Organizações Internacionais e Estados e o Regulamento Opcional para Arbitragem entre Organizações Internacionais e Pessoas Privadas. Em áreas temáticas específicas, posteriormente foram editados dois instrumentos normativos: o Regulamento Opcional para Arbitragem de Disputas relativas a Recursos Naturais e ao Meio Ambiente de 2001 e o Regulamento Opcional para Arbitragem de Disputas relativas a Atividades Espaciais de 2002. Estes dois últimos corpos normativos evidenciam a diversidade de matérias que podem ser abordadas na CPA.
Porém, deve ser dito que os citados regulamentos são meramente opcionais. Logo, o tão-só fato de o Estado ter aderido às Convenções de Haia de 1899 e de 1907 não importa a aplicação automática desses regulamentos opcionais. Na verdade, quando instituído o juízo arbitral, as partes podem definir a submissão àqueles regulamentos opcionais que certamente se mostrarão úteis para colmatarem espaços vazios deixados pelo compromisso arbitral que não tenha acobertado todos os aspectos e vicissitudes da arbitragem internacional.
No decorrer dos anos, a CPA foi sofrendo mudanças para acompanhar as novas conformações das relações internacionais. Uma das mais marcantes mudanças ocorreu com a reforma do Regulamento de Arbitragem que se deu em 2012, quando se inseriu naquele
diploma regramento para as arbitragens envolvendo organizações internacionais e pessoas privadas, absorvendo as diretivas que constavam dos regulamentos opcionais mencionados há pouco. A revisão de 2012 foi realizada tomando por modelo o Regulamento de Arbitragem da UNCITRAL para incorporar os preceitos já consagrados para a arbitragem comercial internacional, conferindo maior importância à flexibilidade do procedimento e à autonomia das partes. Exemplos desse enfoque reformador podem ser encontrados no art. 10(2) em que se prevê que as partes podem estruturar o tribunal arbitral para que seja composto por um, três ou cinco árbitros, sendo ainda permitido que o número de árbitros seja outro, desde que obedecida a forma de indicação contemplada no regulamento. O art. 10(4) complementa para fixar que a nomeação não está circunscrita aos membros da CPA, podendo, por conseguinte, ser indicado como árbitro pessoa externa à CPA.
Da harmonização entre os Regulamentos de Arbitragem da CPA e da UNCITRAL se infere que o regime da arbitragem internacional da CPA não se diferencia enormemente do regime das arbitragens transnacionais comerciais, tornando cada vez mais irrelevante a dicotomia que costumeiramente se faz no direito entre público e privado e reforçando a afirmação de que as pessoas privadas podem ser sujeito de direito nas relações internacionais.
3.1.1.1 Estrutura da Corte e a função do Secretário-Geral como appointing authority
A CPA se compõe de três órgãos: a) o Conselho Administrativo; b) os Membros da Corte; c) o Escritório Internacional (International Bureau).
O Conselho Administrativo é formado pelos representantes diplomáticos indicados pelos Estados partes da Convenção de Haia de 1907, sendo presidido pelo Ministério das Relações Exteriores dos Países Baixos. Esse órgão desempenham uma função preponderante sobre os demais, dirigindo o Escritório Internacional, elaborando os regulamentos da CPA e decidindo as questões administrativas da CPA122. Exerce, portanto, funções fiscalizatória, legislativa e executiva no âmbito da CPA.
Os Membros da Corte são os potenciais árbitros que são indicados pelos Estados partes da Convenção de Haia. Cada país poderá designar, no máximo, quatro pessoas que serão indicadas por um prazo de seis anos para integrar uma lista geral. Nos termos do art.
44 da Convenção de Haia de 1907, os requisitos para ser indicado como membros são apenas dois: a) ser reconhecido por notório conhecimento no direito internacional; b) gozar de alta consideração moral. Não se requisita que o indicado seja da nacionalidade do Estado parte, podendo, inclusive, uma mesma pessoa ser indicada por mais de um país para figurar na lista geral. De acordo com o art. 45 da Convenção de Haia de 1907, os árbitros para resolver litígios no âmbito da CPA devem ser escolhidos dentre a lista geral dos Membros da Corte. No entanto, o referido dispositivo perdeu sentido diante da regra contida no art. 10(4) do Regulamento de Arbitragem de 2012 que estipula que as partes podem escolher árbitros que não sejam Membros da Corte. Atualmente, os Membros da Corte indicados pelo Brasil são Celso Lafer, Nadia de Araújo, Antonio Paulo Cachapuz de Medeiros e Eduardo Grebler.
O Escritório Internacional disponibiliza suporte administrativo aos tribunais arbitrais e às comissões formadas na CPA123, sendo responsável pelas comunicações, pelo depósito dos documentos e pela gestão dos negócios administrativos124. Inclusive, o Escritório Internacional poderá oferecer seu apoio logístico e suas instalações para arbitragens outras em que figurem um dos Estados partes, como procedimentos que sejam regidos pelo Regulamento de Arbitragem da UNCITRAL125. Nessas situações, o Escritório Internacional poderá facultar aos Estados partes assistência técnica e suas dependências, como se cartório (registry) fosse, para procedimentos arbitrais que tramitem em qualquer parte do mundo. Com essa abertura, fica claro o propósito da Convenção de Haia de 1907 em promover a arbitragem internacional como uma forma universal de solução de controvérsia, não importando se realizada pela CPA ou não. Exemplificativamente, deve ser lembrado o caso do tribunal arbitral instalado com base nos Acordos de Argel de 1981 entre Estados Unidos e Irã para a apreciação de reclamações compensatórias envolvendo os dois governos e seus nacionais após a crise de 1979 em que iranianos fizeram americanos reféns na Embaixada Americana em Teerã, o que levou o Estado norte-americano a bloquear recursos financeiros iranianos. O citado tribunal arbitral tem desenvolvido suas atividades com o suporte do Escritório Internacional da CPA126.
Para a chefia do Escritório Internacional é indicado o Secretário-Geral, cujas funções, porém, não se limitam a gerenciar administrativamente o citado órgão. Além desta tarefa, o
123 Art. 15 da Convenção de Haia de 1907. 124 Art. 43 da Convenção de Haia de 1907. 125 Art. 47 da Convenção de Haia de 1907.
126 PERMANENT COURT OF ARBITRATION. Annual Report. 2015. Disponível em: <https://pca-
art. 6(1) do Regulamento de Arbitragem da CPA lhe atribui o ofício de autoridade nomeadora (appointing authority)127. Como tal, o Secretário-Geral poderá: a) requisitar das partes e dos árbitros informação que julgar necessária (art. 6(2); b) nomear árbitros diante da dissidência das partes na composição do tribunal arbitral, inclusive fora da lista dos Membros da Corte (arts. 7 a 10); c) indicar árbitros substitutos em circunstâncias especiais que justifiquem a retirada da parte do direito de indicar um novo árbitro (art. 14(2); d) decidir impugnação contra a designação de árbitro, cuja parcialidade seja desafiada (art. 13(4)); e) revisar e ajustar a determinação do tribunal arbitral sobre a distribuição das despesas e tarifas da arbitragem (art. 41(2)).
O mais interessante é que essa função de appointing authority é atribuída ao Secretário-Geral da CPA por outros regramentos de arbitragens internacionais, como o Regulamento de Arbitragem da UNCITRAL que, em seu art. 6(1)(2), indica o Secretário- Geral da CPA como autoridade nomeada que pode ser escolhida para os procedimentos regulados por aquele regulamento128. Mais uma vez se constata a interseção que há entre os Regulamentos de Arbitragem da CPA e da UNCITRAL, evidenciando que ambos compartilham uma visão semelhante da arbitragem internacional.
Para ilustrar a relevância dessa atribuição do Secretário-Geral da CPA, o Relatório Anual de 2015 da CPA informou que, naquele período, o Secretário-Geral recebeu 42 requisições que se relacionavam com sua função de autoridade nomeadora129. Ainda acrescente o citado informe que, entre os anos de 2011 a 2015, o Secretário-Geral recebeu 257 requisições como appointing authority. Mais uma vez se notabiliza o caráter universal da CPA que não se fecha num sistema de arbitragem internacional apenas para aqueles que tenham aderido às Convenções de Haia.
127 PERMANENT COURT OF ARBITRATION. Permanent Court of Arbitration Rules 2012. 2016.
Disponível em: <https://pca-cpa.org/wp-content/uploads/sites/175/2015/11/PCA-Arbitration-Rules- 2012.pdf>. Acesso em: 15 mar. 2016).
128 UNITED NATIONS COMISSION ON INTERNATIONAL TRADE LAW. UNCITRAL Arbitration
Rules. 2015. Disponível em:
<http://www.uncitral.org/uncitral/en/uncitral_texts/arbitration/2010Arbitration_rules.html>. Acesso em: 15 dez. 2015.
129 PERMANENT COURT OF ARBITRATION. Annual Report. 2015. Disponível em: <https://pca-