2 O INSTITUTO DA ARBITRAGEM NO DIREITO
3.1 CORTE PERMANENTE DE ARBITRAGEM
3.1.3 Regramento procedimental
O rito das arbitragens administradas pela CPA pode variar a depender do conjunto normativo que o governará. As Convenções de Haia se mostram anacrônicas, sendo, por conseguinte, mais adequado aos procedimentos atuais o Regulamento de Arbitragem da CPA de 2012. Há ainda os regulamentos opcionais já referidos, bem como a possibilidade de ser administrada pela CPA arbitragem submetida às regras da UNCITRAL.
Será apresentado o regramento procedimental a partir do Regulamento de Arbitragem da CPA de 2012, já que este diploma representa atualmente o conjunto normativo mais compatível às arbitragens internacionais que são gerenciadas pela CPA. Assim, as referências a artigos que serão feitas nas próximas linhas dizem respeito àquele diploma.
O primeiro passo para a instauração do juízo arbitral perante a CPA é a notificação da intenção de recurso à arbitragem por uma parte à outra (art. 2(1)). A mesma notificação deverá ser enviada ao Escritório Internacional (art. 3(1)). É a data do recebimento da notificação de arbitragem que marca o início do procedimento (art. 3(2)).
Deverá ser composto o tribunal arbitral de acordo com o consentido pelas partes (art. 7(1)). O mais comum é a composição de um tribunal arbitral com três membros, dos quais dois são designados por cada uma das partes e o terceiro, que será o presidente, será
escolhido por esses dois árbitros138. Diante de divergências na formação do tribunal arbitral, poderá atuar o Secretário-Geral como autoridade nomeadora, inclusive para decidir sobre alegações de suspeição (art. 13(4)).
Uma vez instituído o tribunal arbitral, deverão ser definidos os atos procedimentos e os seus termos para que se chegue à decisão arbitral (art. 17). É nesse momento que a parte requerente deverá fazer a declaração de reclamação com os requisitos exigidos (art. 20(2)), salvo se a notificação de arbitragem já atender esses pressupostos.
Em sua defesa, a parte respondente poderá contestar a jurisdição do tribunal arbitral. O Regulamento de Arbitragem da CPA consagra em seu art. 23(1)) o princípio da competência-competência pelo qual se estabelece que o próprio tribunal arbitral poderá decidir sobre sua jurisdição, inclusive acerca das objeções sobre a validade do acordo de arbitragem. Naquela mesma provisão, resguarda-se também a autonomia da cláusula de arbitragem frente ao contrato, tratado ou outro acordo que regule a relação jurídica das partes.
Uma vez impugnada a jurisdição, o tribunal arbitral poderá dividir o procedimento para, preliminarmente, apreciar e instruir a objeção e, após, decidir, proferindo decisão apenas sobre essa questão (art. 23(3)). Se assim não o fizer, o ponto será resolvido quando do julgamento de mérito.
No decorrer do procedimento, o tribunal arbitral, a pedido de uma das partes, poderá conceder medidas interinas com o propósito de resguardar riscos que possam prejudicar a correta e devida solução da disputa (art. 26(2)). Inclusive, prevê-se que as partes podem solicitar medidas semelhantes aos judiciários nacionais que funcionarão como juízes de apoio, sem que essa cooperação seja interpretada como renúncia à arbitragem (art. 26(9)).
O Regulamento de Arbitragem da CPA de 2012 não dispõe sobre a possibilidade da intervenção de terceiro ou do amicus curiae. A Convenção de Haia de 1907, em seu art. 84, prevê a possibilidade de um Estado vir a requerer a sua participação em arbitragem em que se discuta a interpretação de tratado da qual ele seja parte, embora não figure inicialmente em um dos polos da relação arbitral. Estipula ainda a provisão que, caso o citado Estado venha a intervir no processo, a interpretação que for fixada pelo tribunal arbitral vinculará aquele ente estatal. Aponta Brooks W. Daly que a CPA possui uma limitada experiência com pedidos de intervenção de amicus curiae não solicitados devido provavelmente ao maior
138 CARVALHO, Claudia Paiva; STORTI, Flávia Fonseca Parreira; FREITAS, Lucas Mendes Teixeira de. Op.
grau de privacidade dos procedimentos arbitrais administrados pela corte, notadamente quando aplicadas o Regulamento de Arbitragem da UNCITRAL139.
A instrução do juízo arbitral se dará através de audiências, coleta de provas testemunhais e documentais (arts. 27 e 28) e, até, de relatórios de peritos (art.29). As audiências serão realizadas de forma privativa, salvo se as partes acordarem o contrário (art. 28(3)). Com esses elementos colhidos com a instrução, os árbitros se habilitarão para apreciar o mérito da causa.
A sentença arbitral será ditada, no caso de mais de um árbitro, pela maioria (art. 33(1)), devendo ser, de regra, fundamentada (art. 34(3)). Podem ser proferidas sentenças parciais para agilizar a pacificação do conflito (art. 34(1)). Sobre o laudo pairará o selo da confidencialidade, salvo se as partes concordarem ou se, por dever legal ou para resguardar direito debatido judicialmente, for necessário exibir o laudo (art. 34(5)).
O laudo é final e vinculante, não cabendo recursos de revisão ou de anulação. Porém, é possível deduzir pedido de interpretação (art. 37) ou de correção (art. 38) para esclarecer ou aperfeiçoar a sentença arbitral.
Uma vez proferida a sentença arbitral, as partes devem se submeter a ela de boa-fé. Lembre-se que, de acordo com o art. 1(2) do Regulamento de Arbitragem da CPA de 2012, a aceitação da arbitragem redundará na renúncia da imunidade de jurisdição, mas não fará esvaecer a imunidade de execução, o que dificultará a implementação de um laudo em desfavor de um Estado perante uma jurisdição nacional.
Nas arbitragens interestatais, a relação arbitral não se estabelece com fundamento apenas na adesão às Convenções de Haia, mas pelo compromisso arbitral que ostenta a natureza de tratado. Assim, o descumprimento de uma sentença arbitral proferida pela CPA equivale, no campo do direito internacional, a uma violação do princípio do pacta sunt servanda, já que representaria, no fundo, a inobservância do compromisso arbitral.
Por outro lado, em arbitragens mistas em que aparece uma pessoa privada, a sentença arbitral poderá ser executada perante jurisdição diversa daquela em que restou estabelecida a sede da arbitragem, valendo-se das normas da Convenção de Nova Iorque de 1958, se o Estado de execução a tiver ratificado140. É de admitir que a execução desses laudos se assemelhará ao cumprimento das sentenças proferidas em arbitragens comerciais internacionais.
139 DALY, Brooks W. Op. cit., p. 45-46. 140 Ibid., p. 48.