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2 HOSPITALIDADE E HOSPITAIS – REVENDO CONCEITOS

2.2 CONSIDERAÇÕES SOBRE A HOSPITALIDADE

2.2.2 A Hospitalidade como uma vertente do humanismo

A hospitalidade, em função dos princípios que defende e que preza no relacionamento entre pessoas, desponta como uma vertente do humanismo, corrente de pensamento que existe desde a Grécia e Roma antigas e que com o passar dos séculos, principalmente a partir do período da Renascença, vem sendo incorporada às discussões de grandes pensadores da história, ganhando cada vez mais visibilidade nos mais variados campos na atualidade.

Nogare (1994), autor que fundamenta a discussão que segue sobre humanismo, aborda em sua obra as diferentes fases, concepções e posicionamentos de diferentes pensadores no decorrer dos séculos, cada qual com suas convicções, concebidas em diferentes momentos e inseridas em contextos culturais, econômicos e sociais diferentes, porém, todas elas tendo no homem o foco de sua atenção.

O autor inicia sua obra falando do amor, resgatando as palavras de Cristo que já pregava, há dois mil anos atrás, “Amai-vos uns aos outros”, como prática que deveria ser corriqueira entre homens. Segundo Nogare (1994, p. 18) “o amor autêntico, verdadeiro, desinteressado, parece a única forma de relacionamento humano em que a prerrogativa de o homem ser fim e não meio é reconhecida e realizada”. Complementa afirmando que

No amor o “eu” dirige-se ao “tu”, querendo esse “tu” em sua identidade, singularidade e profundidade. O amor, bem longe de diminuir ou abafar a personalidade do “tu”, a revela, destaca, potencia e faz vibrar como em nenhuma outra experiência. É o amor, em certo sentido, que cria a pessoa, isto é, que a desperta para o seu valor e a dinamiza para a sua realização. (NOGARE, 1994, p. 18)

O movimento humanista, o interesse pelo homem, tem início na Grécia, quando os gregos descobrem no homem não o seu eu subjetivo, singular, imprevisível, mas sim o “homem considerado na sua idéia, no seu tipo, na sua validade universal e normativa”, onde todos são iguais e merecem, por conseguinte, serem tratados com igualdade. É no humanismo dos gregos que, segundo Nogare (1994), o humanismo que se fala e se debate hoje em dia é modelado.

Segundo Jaeger (apud NOGARE, 1994, p. 26), o termo humanismo vem de

humanitas, que significa a “educação do homem de acordo com a verdadeira forma humana,

como o seu autêntico ser”. Protágoras, considerado o maior de todos os sofistas5, faz uma

5 Os sofistas se situam historicamente entre o V e IV séculos antes de Cristo; contemporâneos dos últimos pré-socráticos e de Sócrates e Platão têm sua maior expressão na Atenas de Péricles. Platão sempre que fala

colocação pertinente quando diz que “sem uma educação à vida política, à justiça e ao pudor, numa palavra sem uma educação moral e humana os homens acabam prejudicando-se reciprocamente, [...] de tal forma que vão dividindo-se e perecendo” (NOGARE, 1994, p. 32).

Não só os sofistas, os quais começaram as discussões acerca do tema, como também os filósofos que o precederam, deram grande valor à discussão sobre o homem, tanto que até hoje nomes como Sócrates, Platão e Aristóteles, são lembrados e estudados. Platão, em seu diálogo Banquete, faz menção a uma premissa fundamental: todo o homem tende à felicidade. Se todo homem tende à felicidade, e se todos os homens são iguais, um deve dar suporte ao outro para que esta felicidade seja alcançada.

Assim, é a partir da educação, do estabelecimento de meios de convivência, do entendimento do outro enquanto homem, digno de respeito que, posteriormente, os romanos, os quais estabeleciam contato com os mais variados povos em função do domínio que exerciam sobre seus territórios, ao entrarem em contato com costumes e legislações distintas das que estavam acostumados, tiveram de elaborar e estabelecer princípios de convivência social, importantes do ponto de vista do humanismo.

Esses princípios são relevantes, pois remetem o homem à compreensão de que assim como ele busca a felicidade, os seus inimigos e adversários também o fazem, sendo, portanto, impelidos a pensar no outro como igual, como um indivíduo que na sua essência, é homem igual a ele e merece, no mínimo, respeito.

Nogare (1994, p. 47), reafirma, através das palavras de Jesus, que “a lei ética suprema é amar”. O amor é, portanto, revestido de características tais como “interioridade, devendo radicar-se no coração; universalidade, até amar os inimigos; delicadeza e generosidade, e no sentido de proibir também as mínimas ofensas e de pedir os atos mais heróicos em favor do próximo”. Por isso, o amor tem de ser expresso, saindo do coração e se espalhando em direção ao próximo através de ações.

O mesmo autor afirma que uma sociedade somente é humanista quando os homens fundam seu relacionamento no amor, mas como nem todos amam uns aos outros, pelo menos no sentido que dão individualmente à palavra amor, uma vez que o amor é uma inclinação espontânea, Nogare (1994) apresenta a maneira como Kant contorna essa situação. Para Kant (apud NOGARE, 1994, p. 48),

dos sofistas refere-se a eles como pretensos mestres de virtude, não de filosofia. Aristóteles os qualificou de pregoeiros de uma sabedoria aparente. Todavia, o grande mérito dos sofistas e que interessa a este estudo, é o fato terem sido eles os primeiros a chamar a atenção dos sábios para os problemas humanos. (NOGARE, 1994, p. 29-30)

Fazer o bem por dever, ainda quando nenhuma inclinação conduz a ele e até se oponha uma aversão natural e invencível, é amor prático e não patológico, amor que tem assento na vontade e não em uma tendência da sensação, que se funda em princípios da ação e não em terna compaixão, sendo este o único que pode ser ordenado.

Kant complementa dizendo que “quem fala em ‘deveres de amor’ substitui necessariamente ao ato de amor propriamente dito atos de beneficências, ou no máximo atos de benevolência” (KANT apud NOGARE, 1994, p. 48).

Pensamentos como este passam a ser encorajados, principalmente, a partir da Renascença6, quando o Humanismo é resgatado durante esse período. O humanismo,

etimologicamente “vem do ciceroneano ‘humanitas’, que significa ‘erudição’ e ‘cultura’, mas também ‘comportamento correto e civil’, e ‘dignidade’” (NOGARE, 1994, p. 56). É resgatado uma vez que a Renascença é também entendida, etimologicamente, como renascimento, renovação, um período de “florescimento cultural”.

É na Renascença, portanto, que o homem percebe que, mais que um espectador, ele pode criar, tomar parte, dar rumo a sua vida e ao que o circunda. Todavia, conforme ressalta Marx (1982) séculos mais tarde, o homem é produto do seu meio, sendo que terá suas ações influenciadas pela estrutura social, econômica e cultural em que estiver inserido. Assim, para que mudanças significativas aconteçam, não só o homem enquanto indivíduo singular, mas também o meio de que faz parte, terão de passar por toda uma mudança, onde estruturas terão de ser repensadas e, quem sabe, alteradas. Isso pode ser explicado por Marx (apud NOGARE, 1994, p. 252) quando diz que “não é a consciência dos homens que determina o seu ser, pelo contrário, é seu ser social que lhe determina a sua consciência”. Por isso, não se forma uma nova consciência se não se construir um novo meio social.

Assim, a hospitalidade, o receber de bom grado, o acomodar, oferecer alimentação, prestar assistência a quem recorre ao outro em busca de auxílio, são também fundamentos do humanismo e, portanto, importante aspecto a ser reinstaurado nos hotéis e hospitais, que acolhem, mesmo sem conhecer, pessoas com vivências distintas, mas iguais na sua concepção enquanto homem.