O reconhecimento do contrato pelo Direito cristaliza a conquista de que as operações econômicas devem ser objeto de regulação jurídica. A operação econômica, portanto, é o substrato imprescindível para o conceito de contrato como formatação jurídica dela. Por conseqüência, o contrato opera apenas na esfera do econômico, na circulação de riqueza. De acordo com o rememorado até aqui, circulação de riqueza, no modo específico da liberdade dos participantes e abstenção do Estado, foi o objeto da luta de um específico grupo social, a burguesia.
43 Em específico, o artigo 1.197 do Código Civil Francês de 1804 equiparava o contrato à lei.
44 “Todo o sistema contratual se inspira no indivíduo e se limita, subjetiva e objetivamente à esfera pessoal e patrimonial dos contratantes.” THEODORO JÚNIOR, Humberto. O contrato e sua função social. Rio de Janeiro: Método, 2004, p. 1.
45 GODOY, Cláudio Luiz Bueno. Função social do contrato. São Paulo: Saraiva, 2004, p.4-5.
Mas a conquista do econômico pelo jurídico não significa o esgotamento das confrontações do terreno formativo do contrato. Conforme relato de PIETRO PERLINGIERI, no estudo do direito dos contratos, é necessário que se afaste a fórmula do ideário liberal-positivista de reconhecer uma plena autonomia da ciência jurídica e a tentativa de definir a chamada “realidade jurídica” como algo que possa viver separadamente da realidade social, econômica ou política.
Segundo o autor, estabelecida a recíproca influência entre os aspectos sociais, econômicos, políticos e aqueles normativo-jurídicos, a transformação de um aspecto econômico, político, ético, incide – as vezes profundamente – reciprocamente sobre a ordem normativa46.
É necessário que se vá mais além, para que se possa compreender não apenas a operação econômica, mas também os objetivos transcendentes da formação jurídica do direito obrigacional. É da doutrina de ROPPO que a disciplina dos contratos, longe de limitar-se à doutrina do direito natural de imposição da razão é, antes, uma intervenção positiva e deliberada do legislador para satisfazer determinados interesses e sacrificar outros. A tutela oferecida pelo ordenamento é do exclusivo interesse desejado. Por efeito, o Direito dos contratos não se limita a revestir passivamente a operação econômica de um véu per si não significativo, a representar uma mera tradução jurídico-formal. Antes, tende a determinar e orientar as operações econômicas segundo seus objetivos políticos. Essa, segundo ROPPO, é a autônoma relevância do contrato-conceito jurídico à operação econômica47.
O Direito dos contratos, portanto, deve ser estudado sob a perspectiva da ideologia que o anima. Está nos estudos de POULANTZAS a constatação de que as relações ideológicas são essenciais na constituição das relações de propriedade econômica e de posse, na divisão do trabalho no seio das relações de
46 PERLINGIERI, Pietro. Perfis do direito civil. 2ª ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2002, p. 2.
47 ROPPO, Op. Cit., p. 22-24.
produção. A ideologia nunca é neutra48. Dizer a tática é parte da organização das classes dominantes; esconde-se apenas para não revelar às classes dominadas49. Como refere CORREAS, a ideologia consiste especialmente num poder essencial à classe dominante, que a faz atuar através dos mecanismos estatais de regulação50. Ainda que a ideologia externada do contrato liberal seja de aparente neuturalidade, resta claro que os interesses da burguesia se fazem plenamente presentes no regulamento que impõe às contratações.
Na medida em que a liberdade de contratar, indubitavelmente, interessa àquele que tem melhores condições de imposição do regulamento do pacto, o elemento ocultado pela ideologia da liberdade de contratar é o fato de que ela não satisfaz o interesse social. A ideologia opera em benefício apenas de uma parte da sociedade, a classe capitalista51. A outra realidade dissimulada pela ideologia burguesa, e conseqüência da primeira, é a da igualdade jurídica dos contratantes.
Trata-se de construção que visa esconder incríveis desigualdades substanciais, típicas de sociedades capitalistas e recorrentes nas relações jurídico privadas.
Já na obra de BETTI está a constatação de que o direito tem uma finalidade dinâmica de tornar possível a perene renovação e circulação de bens52.
48 POULANTZAS, Nicos. O estado, o poder, o socialismo. São Paulo: Graal (Paz e Terra), 2000, p.
27.
49 POULANTZAS, Idem, p. 31.
50 “Certamente a ideologia dos produtores do direito é uma causa do discurso. Mas com relação aos efeitos do mesmo, ocorre que como conseqüência da efetividade ou inefetividade das normas podem ser produzidas transformações na ideologia dos distintos atores.” CORREAS, Óscar.
Introdução à sociologia jurídica. Porto Alegre: Editora Crítica Jurídica – Sociedade em Formação, 1996, p. 192.
51 “Nesse sentido, o princípio da liberdade contratual, ou melhor a ideologia que exalta a liberdade contratual como pilar de uma forma de organização das relações sociais mais progressiva, contém indiscutíveis elementos de verdade. Mas como é próprio de qualquer ideologia, adiciona-lhes elementos de dissimulação e deturpação da realidade: mais precisamente, cala e oculta a realidade que se esconde por detrás da ‘máscara’ da igualdade jurídica dos contratantes, cala e oculta as funções reais que o regime do laissez-faire contratual está destinado a desempenhar no âmbito de um sistema governado pelo modo de produção capitalista, os interesses reais que por seu intermédio se prosseguem”. ROPPO, Op. Cit., p. 37.
52 BETTI, Emilio. Teoria Geral do Negócio Jurídico. Coimbra: Coimbra Editora, 1969, p. 95.
No ordenamento baseado na propriedade individual, essa renovação é obra da autonomia da vontade53. A ideologia burguesa aplica-se ao contrato54 na forma da autonomia privada clássica e no dogma da igualdade de partes55. O elemento escondido pela ideologia burguesa é que, embora o contrato seja consensual, nem sempre seu conteúdo está embasado na vontade real.
Como elemento ideológico, a concepção de contrato encontrada na ideologia burguesa é atada ao liberalismo econômico. LARROUMET faz notar que é somente em uma economia liberal que a vontade da vinculação jurídica goza de prestígio totalizador. É nesse tipo de organização que a autonomia da vontade é privilegiada como elemento do contrato que permite os intercâmbios econômicos.
É isso que explica, em primeiro lugar, que o princípio da autonomia da vontade, independentemente de sua significação jusfilosófica, não pode ter um conteúdo verdadeiro fora do liberalismo econômico. Em segundo lugar, é exatamente o declínio do liberalismo econômico o elemento que permite a discussão do princípio da autonomia da vontade56.
Se o contrato apresenta as características do modelo de organização dos fatores de produção de cada momento histórico, não pode ser visto singelamente como o instrumento jurídico de circulação de riqueza, embora esta seja sua função explícita. O significado é muito mais amplo, como signo da ordem econômica e
53 BETTI, Op. Cit., p. 96.
54 “A regulamentação privada expressa o que as partes querem fazer; a regulamentação legal, o que a coletividade pretende que façam. Nenhuma delas é neutra em termos econômicos e distributivos.” LORENZETTI, Ricardo Luis. Fundamentos do direito privado. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1998, p. 539.
55 Nas palavras de Orlando Gomes, a liberdade de contratar “é o postulado econômico da livre iniciativa, ou seja, na sociedade capitalista o homem precisa ter liberdade de agir para persecução dos seus interesses particulares. Tem no contrato o meio técnico-jurídico para exercer essa liberdade, podendo estipular, como, quando e com quem lhe aprouver”. GOMES, Orlando. Novos temas de direito civil. Rio de Janeiro: Forense, 1984, p. 103.
56 LARROUMET, Christian. Apud SANTOS, Antônio Jeová. Função social do contrato. São Paulo:
Método, 2004, p. 38
social do território em que está inserido, com elevada acepção ideológica e política.
Essas confrontações iniciais do direito obrigacional determinarão as funções que são reservadas ao fenômeno contratual.