tecnológica e vitórias eleitorais de forças representativas do neoliberalismo. Cria-se o efeito de flexibilização, desregulamentação e precarizaçäo do trabalho.
Também deve ser registrada a importância do Direito Internacional para a formação do Direito do Trabalho nacional. Como registra SÜSSEKIND, a OIT, com a ação desenvolvida desde 1919, tornou-se uma das mais respeitáveis e inesgotáveis fontes do novo ramo do Direito277.
Como se pode ver do esquema proposto, o Direito do Trabalho, e em especial a legislação heterônoma, surge como um produto social que atua de forma complementar à atuação coletiva dos grupos organizados de trabalhadores.
Evidencia, na compreensão de DELGADO, a afirmação de um padrão democrático de gestão trabalhista alcançada nos setores mais avançados da economia. Por efeito, consegue absorver e fazer atuar o avanço político, social e cultural da classe trabalhadora, pois não retira o essencial senso de cidadania e de sujeito social, nucleares à existência e consolidação de qualquer convivência democrática278. Como se analisará adiante, o desenvolvimento do sistema jurídico trabalhista brasileiro não consegue alcançar esse êxito, o que, por fim, implicará uma matriz de intensa prevalência da heteronomia autoritária na fixação da tutela.
histórica deste ramo da ciência jurídica nacional279. O signo que marcou as relações de trabalho no Brasil do século XIX foi o controle (dos trabalhadores) e a segurança (dos patrões e do sistema produtivo)280.
Em que pese o esquematismo que sempre permeia em qualquer estudo histórico fundado na divisão estanque de etapas, é válido, para efeito meramente ilustrativo, relacionar, de forma mais aproximada possível, alguns momentos da formação do Direito do Trabalho brasileiro:
a) Pré-história. A Constituição de 1824 aboliu as corporações de ofício para assegurar a liberdade de exercício de ofícios e profissões281. São proclamadas diversas leis tendentes à abolição de escravidão: Em 1871, Lei do Ventre Livre; 1885, Lei dos Sexagenários; 1888, Lei da Abolição.
b) Primeira fase (1888 a 1930). Manifestações incipientes e esparsas.
De modo relevante, é apenas na agricultura cafeeira e na industrialização incipiente que verifica a relação empregatícia. Há pouca atuação coletiva dos trabalhadores e intensa imigração de europeus, trazendo idéias socialistas282. Poucas iniciativas de regulamentação pelo Estado (liberalismo não intervencionista). Constituições liberais clássicas. A Constituição de 1891 garante a liberdade de associação. Pequenos agrupamentos de trabalhadores, chamados de ligas operárias, com caráter reivindicativo de melhores salários e redução da jornada (trabalhadores do couro, costureiras, madeira). Também há formação de caixas beneficentes para formação de fundos para assistência de trabalhadores doentes283. Ocorrem greves esporádicas, principalmente em São Paulo.
279 FONSECA, Ricardo Marcelo. Modernidade e contrato de trabalho. São Paulo: LTr, p. 131.
280 FONSECA, Idem, p. 132.
281 Em 1699, havia, em Salvador, corporações de oficiais mecânicos e de ourives.
282 Em 1912 é fundada a Sociedade Operária Italiana Mútuo Socorro “Ettore Fieramosca” e, em 1914, a Società Mutuo Socorro “Galileo Galilei”.
283 Sociedade Cooperativa Beneficente Paulista (1896), Sociedade Cooperativa Tipográfica Operária (1904).
Promulgam-se as seguintes leis: regulação de trabalho de menores (1891), organização de sindicatos rurais (Dec. 979 de 1903), organização de sindicatos urbanos, reunindo profissionais de ofícios similares ou conexos (Dec.
1.637 de 1907).
c) Segunda fase (1930 a 1945). Institucionalização do Direito do Trabalho. Com a Revolução de 30, se inicia intensa atividade administrativa e legislativa do Estado. Produz-se minuciosa legislação com controle do sistema justrabalhista pelo Estado e repressão dos movimentos autonomistas operários.
Em 1930 é criado o Ministério do Trabalho, o qual passa a expedir decretos.
As seguintes leis são criadas:
• 1930: Decreto 19.482 (Lei dos 2/3). Restrição ao trabalho de estrangeiros, com objetivo de sufocar manifestações operárias autonomistas.
• 1931: Decreto 19.770 (Lei dos Sindicatos). Criação de estrutura de sindicalismo oficial único (colaborador do Estado). Os sindicatos deixam de ser pessoas jurídicas de direito privado.
Veda-se atividade política e de propagando ideológica.
• 1932: Decreto 21.396. Estabelecimento de sistema judicial de solução de conflitos com as Comissões mistas de conciliação e julgamento.
• 1932: Regulamentação do trabalho das mulheres.
• 1934: É promulgada a primeira Constituição a tratar sobre o Direito do Trabalho. Estabelece-se garantia liberdade sindical (art. 120), isonomia salarial, salário mínimo, jornada de 8 horas, proteção ao trabalho das mulheres e menores, RSR, férias remuneradas (§ 1o do art. 121). Hiato de pluralidade sindical e autonomia; sindicatos voltaram a ser pessoas jurídicas de direito
privado.
• 1936: Decreto sobre o salário mínimo.
• 1937: Constituição Federal de cunho eminentemente corporativista, inspirada na Carta del Lavoro, de 1927 e na Constituição polonesa. O art. 140 referia que a economia era organizada em corporações, sendo consideradas órgãos do Estado, exercendo função delegada de poder público284. Instituiu o sindicato único, imposto por lei, vinculado ao Estado, podendo haver intervenção, mas, contraditoriamente, afirmava que “a associação profissional ou sindical é livre”. Criação do imposto sindical, como forma de reforçar a submissão ao Estado. A greve e o lockout foram considerados recursos anti-sociais, nocivos ao trabalho e ao capital e incompatíveis com os interesses da produção nacional (art. 139). Para desenvolver seu programa econômico e dominação política, era imprescindível ao Estado evitar a luta de classes.
• 1943. Consolidação das Leis do Trabalho. Alterou, reuniu e ampliou a legislação trabalhista.
• Constituição de 1946. Hiato democrático. Extinto o Estado Novo, emergiu a Constituição de 1946, que outorgou à Justiça do Trabalho o status de órgão do Poder Judiciário. O direito de greve foi reconhecido, mas se manteve o sindicato atrelado ao Estado.
• Ditadura pós 1964. Na nova fase autoritária. A greve e a atividade sindical voltam a ser reprimidas. Constituição de 1967, com a emenda de 1969, diminuiu o limite de idade para trabalho
284 Art. 140. “A economia da produção será organizada em corporações e estas, como entidades representativas das forças do trabalho nacional, colocadas sob a existência e proteção do Estado, são órgãos e exercem funções delegadas de poder público.”
de 14 anos para 12 anos, em retrocesso social.
Reconhece-se nesse período ausência de maturação político-judicial, substituída por uma matriz corporativa e intensamente autoritária. Resultou um modelo fechado, centralizado e compacto. O sistema manteve-se praticamente o mesmo até pelo menos 1988.
e) 3ª fase (final dos anos 80). Transição democrática. Com a Carta de 88, buscou-se a superaçäo democrática do modelo anterior, vedando-se a intervenção nos sindicatos. Inclusão dos direitos trabalhistas no rol dos “direitos sociais”, no título “dos direitos e garantias fundamentais”. Nas constituições anteriores, estavam sempre no âmbito da ordem econômica e social. O art. 7o é uma “mini CLT”, tantos são os direitos lá albergados. Representou avanço social na afirmação da importância da negociação coletiva, redução da idade mínima de trabalho, adicional de horas extras e férias, extensão de direitos aos domésticos;
também assegurou o direito de greve e liberdade sindical. O período inaugurado também marca uma intensa atividade legiferante do Estado, não raro com diplomas contraditórios.
O Direito do Trabalho no Brasil segue o modelo contratual regulado por intenso dirigismo estatal nas relações de emprego. O artigo 444 da CLT285 torna evidente a positivação do dirigismo contratual na legislação trabalhista nacional ao estabelecer vedação a pactuações divergentes das leis tutelares, decisões de autoridades competentes e das normas coletivas. Segue-se o modelo de defesa da vontade, a liberdade contratual, mas com proteção daquele que é mais débil, como forma de equilibrar o poder das partes. Nesse modelo formado, o contrato de emprego é fruto do dirigismo286 contratual, construído a partir da vontade do Estado no enquadramento legal da relação de emprego.
285 CLT. Art. 444. As relações contratuais de trabalho podem ser objeto de livre estipulação das partes interessadas em tudo quanto não contravenha às disposições de proteção ao trabalho, aos contratos coletivos que lhes sejam aplicáveis e às decisões das autoridades competentes.
286 “Os principais reflexos que o dogma do voluntarismo estabeleceram passam a ser quebrados por um dirigismo contratual restritivo da livre estipulação de cláusulas contratuais, da livre criação