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DO CONTRATO AO ESTATUTO

No documento Curitiba 2007 (páginas 122-127)

nos modelos civis já conhecidos. Como se vê, o contrato de trabalho é instituto recente, que apenas será consolidado no Direito no final do século XIX e início do XX.

A proposição da liberdade de acesso ao trabalho obviamente mantinha um elo fraco, o peso de que o indivíduo sem recursos pudesse receber contraprestação digna pelo trabalho entregue. Será essa promoção do contrato de trabalho, que era a integralidade de um Direito do Trabalho, que desembocará na descoberta da impotência do contrato para fundar uma ordem estável260.

trabalho provocam um quadro de miséria material e moral onde quer que exista trabalho subordinado262.

O pauperismo é, antes de tudo, uma imensa decepção que sanciona o fracasso do otimismo liberal moderno do século XVIII e início do XIX. Mobilizam-se as elites para desenvolver um poder tutelar em relação aos desafortunados263. Assume-se a necessidade de uma política social voltada a grupos em situação de menoridade. Passa a ser indispensável reconstruir, num universo onde reina o contrato, novas regulações que sejam compatíveis com a liberdade e mantendo as relações de dependência sem as quais uma ordem social é impossível264.

Torna-se necessária a criação de novas tutelas e inseri-las solidamente no tecido social. O liberalismo do século XIX não muda de valores, mas passa agora a enfrentar fatores de desordem: não mais um excesso de regulações pesadas e arcaicas, mas riscos de desintegração social.

GENRO reconhece dois motivos fundamentais para que o Estado burguês conferisse identidade jurídica aos trabalhadores, através do Direito do Trabalho.

262 As condições de trabalho advindas da 1ª Revolução Industrial podem ser assim resumidas: a) Esquemas rígidos de disciplina: o mercantilismo reaviva os poderes disciplinares do espaço fechado; é necessário enquadrar o trabalho em sistemas de coerções. b) (in)segurança do trabalho: poeira, incêndios, explosões, gases, desmoronamentos, tuberculose, asma pneumonia;

c) salários: ausência de participação do Estado e abundância de mão de obra permitiam baixos salários. d) jornada: a utilização do lampião à gás permitiu jornadas de 12, 14 ou 16 horas diárias;

e) idade dos trabalhadores: a integralidade da família era contratada; os trabalhadores eram comprados, vendidos e trocados com seus filhos.

263 Não pode ser negada a importância para a melhoria das condições de trabalho em duas doutrinas, o socialismo e a doutrina social da Igreja. Com o Socialismo, tem-se o avanço do pensamento dos primeiros socialistas-anarquistas (Saint-Simon, Pierre Joseph Proudhon, Michail Bakunin, Kropotikin). Em 1848 é editado o Manifesto Comunista de Marx e Engels: sepulta a hegemonia, no pensamento revolucionário, das vertentes insurrecionais ou utópicas. Reorienta estrategicamente as classes socialmente subordinadas. Em 1850, Marx lança Contribuição à crítica da economia política. Consubstancia-se a teoria do materialismo histórico em que se expressava o surgimento da consciência do proletariado, no bojo de lutas de classes cada vez mais freqüentes.

Já a Doutrina Social da Igreja toma forma com a Encíclica Rerum Novarum (coisas novas), em 1891, do Papa Leão XIII, a qual traça regras para a intervenção estatal na relação entre trabalhador e patrão e harmonização das relações sociais. Sobre o mesmo tema, seguiram as encíclicas Quadragesimo anno (1931), Divini redemptoris (1931).

264 CASTEL, Op. Cit., p. 305-308.

Primeiro, para que o Estado absorvesse os conflitos sociais e os arbitrasse de forma que as classes trabalhadoras não se estruturassem em condições de pré-insurreição. Segundo, para que as classes proprietárias dispusessem de canais de controle da insurgência contra a lógica da reprodução capitalista fundada na mais-valia. Nesse sentido, o autor afirma que o “humanismo” foi uma “necessidade histórica” oriunda da contradição entre capital e trabalho265.

Um sistema de regulação estatal das relações de trabalho estabelece uma nova tecnologia de tutela, pois a constrói inserida no marco contratual do liberalismo: dentro do liberalismo econômico (o registro da troca contratual) há a reinserção de um modelo de relação tutelar, típico do registro da troca desigual.

Como estratégia de classe da burguesia, rejeita-se o direito ao trabalho, próprio do socialismo, mas admite-se a urgência de um direito do trabalho266. Neste enfoque, o Estado não é um terceiro entre grupo de interesses opostos, mas promovente da dependência operária267.

O Direito do Trabalho como modalidade de assistência calcada em um estatuto de Direito promove um duplo caráter restritivo. Primeiro, o de limitação da incidência dos sujeitos especificamente previstos como destinatários do regramento. Segundo, o de reafirmar o critério de assistência, restringindo as hipóteses de assistência ao também expressamente previsto; impossibilita, por efeito, outro tipo de assistência, familiar ou privada268. Em nossa opinião, será esse modelo legalista e limitador de “direitos trabalhistas”, concebidos para a

265 GENRO, Tarso Fernando. Introdução à Crítica do Direito do Trabalho. Porto Alegre: L&PM, 1979, p. 46.

266 CAPELLA, Juan Ramón. Os cidadãos servos. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris Editor, 1998, p. 136.

267 CASTEL, Op. Cit., p. 347-362.

268 CASTEL, Idem, p. 368-369.

limitação do pauperismo, e submissão da organização dos trabalhadores, que limitará tentativas extra-legalistas de ampliação de direitos269.

Este processo de atuação do Estado na regulação do trabalho para limitação da pauperização produzirá a passagem da “condição operária” à “relação salarial”. Na primeira, com ampla liberdade de fixação de condições de trabalho, a remuneração é próxima da renda mínima que assegura apenas a reprodução do trabalhador – a chamada “lei de bronze dos salários270 – e não permite investir no consumo. A relação salarial que se inaugura com o Direito do Trabalho e previdência social é marcada por modelo de remuneração que comanda amplamente o consumo, uma disciplina do trabalho que regulamenta o ritmo de produção e um quadro legal de estruturação da relação jurídica271272.

O desenvolvimento do Direito do Trabalho legislado europeu-ocidental pode ser dividido, esquematicamente, em quatro fases:

a) 1ª fase (início do séc. XIX): restrições ao trabalho de menores e mulheres; leis de caráter humanitário. Legislações de caráter disperso e

269 “Assim, à medida que o Direito do Trabalho legitima a sociedade de classes dá alternativas mínimas aos trabalhadores, para que estes participem do mundo jurídico, esta participação estará sendo manipulada pelas classes dominantes através do Estado – gerando a ilusão de que o sistema jurídico da sociedade burguesa representa a única possibilidade de resistir à dominação capitalista.” GENRO, Tarso Fernando. Introdução à crítica do direito do trabalho. Porto Alegre:

L&PM, 1979, p. 85.

270 “Depois de ter trabalhado hoje, é mister que o proprietário da força de trabalho possa repetir amanhã a mesma atividade sob as mesmas condições de força e saúde. a aoma dos meios de subsistência deve ser, portanto, suficiente para mantê-lo no nível de vida normal do trabalhador. As próprias necessidades naturais de alimentação, roupa, aquecimento, habitação etc..., variam de acordo com as condições climáticas e de outra natureza. Demais a extensão das necessidades imprescindíveis e o modo de satisfazê-las são produtos históricos e dependem, por isso, de diversos fatores.” MARX, Karl. O Capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975, p. 191.

271 CASTEL, Op. Cit., p. 419.

272 NEGRI e HARDT assinalam que os trabalhadores utilizaram da era disciplinar, notadamente nos momentos de dissidência e de desestabilização política do capitalismo, para ampliar os poderes sociais do trabalho, aumentando o valor da força de trabalho e redesenhando o conjunto de necessidades e desejos aos quais o salário e o bem-estar social tiveram de responder.

Segundo esses autores, houve notável aumento do valor do salário; especialmente do salário social. HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Império. Rio de Janeiro, São Paulo: Record, 2004, p.

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assistemático.

b) 2ª fase (de 1848 ao início da I Guerra Mundial): Sistematização e consolidação das leis protetivas. Influência do Manifesto Comunista e do movimento socialista de organização dos trabalhadores. As reivindicações são institucionalizadas na ordem jurídica, com inúmeras legislações sistematizadas próprias à tutela das relações de trabalho.

c) 3ª fase (após a I Guerra Mundial). Institucionalização e oficialização do Direito do Trabalho, em especial com a inserção da matéria em Cartas Constitucionais. São emblemáticas as Constituição Mexicana de 1917273 e a Alemã 1919 (Weimer)274275. Também é o período de internacionalização do Direito do Trabalho, com a criação da OIT, em 1919, pelo Tratado de Versalhes276. A legislação trabalhista ganha consistência e autonomia no universo jurídico.

d) 4ª fase (final do séc. XX). Crise e transição do Direito do Trabalho.

Diversos fatores econômicos e sociais são arrolados, como crise do petróleo a partir da década de 70, constantes déficits fiscais do Estado, renovação

273 A Carta Mexicana estabelecia pioneiramente jornada de oito horas; proibição de trabalho de menores de doze anos; limitação de jornada de menores a seis horas; jornada noturna limitada;

descanso semanal; proteção à maternidade; salário mínimo; direito de sindicalização e greve;

indenização de dispensa; seguro social; proteção contra acidentes do trabalho.

274 Também fazia a previsão de criação de um sistema de seguros sociais e participação dos trabalhadores na fixação de salários e demais condições de trabalho.

275 Como definidoras das modernas constituições sociais, também são importantes as Cartas Espanhola de dezembro de 1911 e a Constituição da URSS, de 1936,.

276 São os seguintes os princípios do Tratado de Versalhes: 1o) o trabalho não há de ser cosiderado mercadoria ou artigo de comércio; 2o) tanto os patrões como os empregados têm o direito de associação visando a alcançar qualquer objetivo lícito; 3o) o salário a ser pago aos trabalhadores deverá assegurar um nível de vida conveniente em relação à sua época e ao seu país; 4o) a limitação do trabalho a 8 horas por jornada e 48 horas semanais; 5o) descanso semanal remunerado mínimo de 24 horas, sempre que possível aos domingos; 6o) supressão do trabalho das crianças e imposição ao trabalho dos moneroes de ambos os sexos das limitações necessárias para permitir-lhes continuar sua isntrução e assegurar seu desenvolvimento físico; 7o) salário igual, sem distinção de sexo, para um trabalho de igual valor; 8o) tratamento econômico eqüitativo nas leis relativas a condições de trabalho, promulgadas em cada país; para os trabalhadores que nele residem legalmente; 9o) organização, em cada Estado, de um serviço de inspeção, que inclua mulheres, a fim de assegurar a aplicação das leis e regulamentos para a proteção dos trabalhadores.

tecnológica e vitórias eleitorais de forças representativas do neoliberalismo. Cria-se o efeito de flexibilização, desregulamentação e precarizaçäo do trabalho.

Também deve ser registrada a importância do Direito Internacional para a formação do Direito do Trabalho nacional. Como registra SÜSSEKIND, a OIT, com a ação desenvolvida desde 1919, tornou-se uma das mais respeitáveis e inesgotáveis fontes do novo ramo do Direito277.

Como se pode ver do esquema proposto, o Direito do Trabalho, e em especial a legislação heterônoma, surge como um produto social que atua de forma complementar à atuação coletiva dos grupos organizados de trabalhadores.

Evidencia, na compreensão de DELGADO, a afirmação de um padrão democrático de gestão trabalhista alcançada nos setores mais avançados da economia. Por efeito, consegue absorver e fazer atuar o avanço político, social e cultural da classe trabalhadora, pois não retira o essencial senso de cidadania e de sujeito social, nucleares à existência e consolidação de qualquer convivência democrática278. Como se analisará adiante, o desenvolvimento do sistema jurídico trabalhista brasileiro não consegue alcançar esse êxito, o que, por fim, implicará uma matriz de intensa prevalência da heteronomia autoritária na fixação da tutela.

No documento Curitiba 2007 (páginas 122-127)