1. PRÁTICAS DA LEITURA E ADOLESCÊNCIA
1.2 CONSIDERAÇÕES SOBRE A ADOLESCÊNCIA
1.2.4 Leitura e adolescência nos estudos de Comunicação
1.2.4.1 A leitura de adolescentes como objeto de pesquisa
Em análise inicial podemos detectar um número significativo de estudos na região sudeste, totalizando oito, enquanto tivemos um na região Sul e um na região Centro-Oeste. Nas demais regiões do país não foram localizados estudos, a não ser o levantamento nacional que contempla todas as regiões. Dos oito artigos encontrados na região Sudeste, dois são de São Paulo, e seis, do Rio de Janeiro. Essa divisão se dá em função do que encontramos em outros comparativos, pois os estudos tratados nessas quantificações são os que apresentam recortes específicos de pesquisas dos mesmos autores dessas regiões, o que pode esclarecer sobre essa concentração na região Sudeste.
Da mesma forma é essencial ressaltarmos as áreas que se debruçam sobre essa temática e que enfatiza o que mencionamos sobre as diferentes perspectivas encontradas. Embora a busca tenha sido feita pelos estudos de Comunicação, salientamos que, em alguns trabalhos, os estudos aliam autores de Educação/Letras, ou somente de uma das áreas, o que indica que a análise dessa temática se concentra especialmente nas áreas indicadas. Esse pressuposto é ressaltado pelas abordagens que levam em conta o papel da escola e do professor e o fato de que, diante desse novo cenário e tecnologias, a educação também precisa estar atenta aos novos desafios que implicam no ato de educar e ler.
O que podemos destacar é que, mesmo em eventos e revistas de comunicação, os trabalhos, na maioria das vezes, são de áreas da Educação ou Letras. Isso indica, então, a escassez de trabalhos de Comunicação que abordam essas temáticas e que partam da experiência dos leitores pelo viés comunicacional.
Dentre os artigos consultados no Intercom Nacional podemos perceber que a grande maioria levou em consideração a leitura a partir da experiência do próprio leitor, tanto em atividades de observação em sala de leitura (ROCHA, 2015; 2013; 2012), como pelo estudo de
recepção feito por Travancas (2015; 2012) e Machiavelli e Bordinhão (2015). Outro trabalho que destaca a experiência do leitor é o de Azevedo (2015), que, através de entrevistas, buscou compreender as relações simbólicas construídas entre os jovens e seus livros e autores preferidos.
As técnicas utilizadas nesses estudos foram, respectivamente, aplicação de atividade/observações das atividades/conversas com os alunos; questionários/entrevistas; observação/questionários/entrevistas; entrevistas. Já o estudo de Andrade (2012) realizou uma observação participante de uma sala de leitura e da influência que dispositivos móveis tinham nesse ambiente e suas relações com as leituras.
Os estudos encontrados no Google Acadêmico também não abrangem a experiência do leitor, sendo que o de Lima; Souza e Corsi (2015) apresenta a pesquisa de duas das autoras; uma feita em uma livraria de um shopping, e outra, no âmbito escolar. O outro estudo encontrado, de Isabel Travancas (2013), apresenta as ideias iniciais de sua pesquisa com adolescentes, pontuando questões teóricas e indicando os passos que pretende seguir no seu estudo. No texto de Travancas (2013), ela indica as técnicas de observação participante, questionários e entrevistas e, no texto de Lima; Souza e Corsi (2015), foram realizadas entrevistas nos dois estudos apresentados.
Para identificarmos as perspectivas mais trabalhadas nos estudos, localizamos os autores mais utilizados. O que encontramos indica uma concentração na perspectiva teórica de Roger Chartier, o qual foi tratado em quatro trabalhos, outros 12 autores foram utilizados duas vezes, e 55 autores foram citados apenas uma vez. Os 12 autores que foram utilizados em mais de um trabalho foi em virtude de serem trabalhos dos mesmos autores, publicados em eventos diferentes. Os trabalhos estão centrados em diferentes perspectivas teóricas, que ora conversam, ora indicam outras abordagens, tanto pelo viés educacional, como pelo viés da literatura. Vimos que as perspectivas não indicavam uma aproximação em algumas questões, o que pode ter relação com as diferentes áreas em que as temáticas são trabalhadas, que são vistas sob diferentes perspectivas teóricas e o que pode indicar essa segmentação. Elencamos as referências tratadas por cada estudo para compreendermos essa configuração.
Mesmo não trabalhando com as mesmas perspectivas, alguns dos estudos possuem pontos em comum em suas considerações. Muito se dá em relação ao papel da escola e família como mediações fundamentais para que a leitura se torne um hábito ou uma atividade mais prazerosa para o adolescente, o que não impede de pensarmos em relações que vão além dessas instâncias, que também são pontuadas por dois trabalhos selecionados e que vão ao encontro da nossa proposta de avançar nessa questão. Devemos considerar, além dessas mediações,
outras que são tão importantes para o desenvolvimento ou aproximação do adolescente com o livro e/ou a leitura quanto as apresentadas. Essas mediações podem ser de amigos, bibliotecários, pessoas que fazem parte de suas redes sociais, canais do Youtube, redes sociais de leitores. Todas esses novos espaços e relações configuram também novas mediações, ou permitem pensar em novas mediações, o que é importante para observarmos o contexto desse adolescente, considerando o que indica as diferentes formas de constituir suas práticas, seus gostos e suas escolhas, sem deixar de considerar os papéis da escola e da família.
Outro ponto que teve destaque nos trabalhos encontrados foi a relação da leitura desses adolescentes pesquisados com os best-sellers (LIMA, SOUZA E CORSI, 2015; TRAVANCAS 2015; MACHIAVELLI E BONDINHÃO 2015), que foram identificados como preferência dos pesquisados. Isso indica como as pesquisas também devem considerar essas leituras, que se consolidam como importantes para a construção desse leitor, sem excluir a questão da leitura ser ou não a mais recomendada, e serve para refletirmos a relação que esse primeiro contato pode proporcionar para além dessas leituras.
Mesmo que a internet tenha sido vista como um contexto maior no qual esses jovens estão inseridos, a maioria não se debruçam sobre o que ela pode indicar nessa relação de leitura. Não podemos deixar de considerar que algumas pesquisas partem de estudos maiores e que, por questão de espaço, podem ter tratado de recortes específicos. Para esse momento podemos identificar essa questão como algo a ser mais profundamente abordado e tratado a partir do nosso estudo, dando conta da dimensão do digital, não como algo comparativo, mas como uma mediação importante para pensarmos essas práticas adolescentes.
Os dados indicam que a perspectiva histórica e social do livro, proposta por Roger Chartier, é fundamental para estudarmos essas temáticas. Além dele, também elegemos os estudos de Isabel Travancas como importantes, pois a autora reflete sobre os poucos trabalhos que se dedicam à recepção da leitura. Ela também indica que os jovens leem, só não estão lendo aquilo que a escola e os pais esperam. Esse ponto também foi destacado no trabalho de Machiavelli e Bordinhão (2015), ou seja, os jovens leem e se apropriam das leituras.
Outra questão pertinente para refletirmos a partir da pesquisa de Travancas (2015) é a dificuldade em realizar pesquisa com adolescentes, em como estabelecer uma conversa e pensar nas experiências desses jovens a partir de suas falas, sendo que estes possuem algumas dificuldades para expressar o que sentem. A autora indica alguns caminhos que contribuem para utilizarmos metodologias pertinentes ao nosso estudo, como por exemplo, grupos de discussão, que possibilitam uma interação entre os jovens e conversas mais dinâmicas e participativas.
A questão da escola e da família como espaços fundamentais para o gosto e a prática da leitura que vá além do âmbito escolar está clara em todos os trabalhos. A relação com a tecnologia também é destacada pelos estudos encontrados, mas não há um aprofundamento dessas questões relacionadas à internet ou às tecnologias na relação com as novas práticas de leitura, tanto em sala de aula, como em casa.
Com esse levantamento podemos perceber que, além de serem poucos os estudos feitos pela área da Comunicação sobre a experiência da leitura por adolescentes, também são poucos os realizados na região Sul. Isso indica como o livro e a leitura merecem maior atenção nos estudos na nossa área, especialmente em uma cidade do interior do estado. Também conseguimos identificar de que forma estão sendo realizados esses estudos e quais suas perspectivas e metodologias, o que nos permite analisar novos caminhos e possibilidades para pensarmos a nossa pesquisa.
No próximo capítulo discorremos sobre a perspectiva da recepção e sua abordagem para a compreensão das práticas de leitura dos adolescentes, apresentando uma breve trajetória e reflexões desses estudos. Da mesma forma pontuamos contribuições importantes de autoras que são essenciais para efetivarmos um estudo de recepção com leitores.
2 ESTUDOS DE RECEPÇÃO E AS MEDIAÇÕES NAS PRÁTICAS DE LEITURA
Pensar a comunicação a partir do viés da recepção permite-nos entender melhor a relação dos meios com os sujeitos na nossa sociedade. Para compreendermos de que maneira esses estudos foram sendo tratados ao longo da história, precisamos remontar a períodos em que os meios de comunicação passaram a ter papel importante e que indicavam novas configurações na sociedade. Ou seja, quando os meios de comunicação começaram a levantar questionamentos em pesquisadores interessados no que essa inserção poderia acarretar. Apresentamos, a seguir, uma breve trajetória dessas pesquisas.