• Nenhum resultado encontrado

4.3 Personagem da mulher

4.3.4 A mulher emancipada

As ambições das personagens analisadas referem-se tanto à procura de um homem que as fizesse felizes, – o que vamos ver no capítulo 4.3.11, que relata sobre as mulheres que buscam o verdadeiro amor –, como às suas aspirações pela carreira e uma vida melhor e independente, o que vai ser o tema dos seguintes parágrafos.

Este tópico é estreitamente relacionado com o machismo da sociedade portuguesa do passado, que era movida pela ideia de que «o papel do homem é de natureza instrumental

e o papel da mulher de natureza expressiva» (Poeschl, Múrias, Costa: 2004, p. 368),

confirmado em muitos estudos «científicos» do século XIX e da primeira metade do século XX. Daí se deduz que a mulher sempre era destinada aos trabalhos domésticos e aos cuidados pela família, ao passo que o homem ganhava dinheiro. A situação devia ter mudado com a Revolução Tecnológica, contudo, no Portugal agitado pelo salazarismo, a emancipação da mulher começou a realizar-se por causa da «forte ausência dos homens ativos durante

a década de 60 (emigração, guerra colonial)» (Coelho: 2011, p. 1) e atingiu o seu máximo

com a abolição do regime salazarista depois da Revolução dos Cravos.

Além disso, José Rodrigues Miguéis, graças à sua estadia nos Estados Unidos da América, um dos países mais progressistas daquela época, podia comparar esta situação com

o estado conservador de Portugal com certo distanciamento. Assim, nos contos migueisianos, além da análise do interior dos protagonistas e uma intriga trabalhada de modo muito interessante, aparece neles, embora não visível à primeira vista, uma reflexão muito viva da sociedade da época ligado ao arte de narrar excecional. Neste aspeto vemos a sua enorme contribuição.

Orientando-nos para a protagonista e narradora de O Jardineiro de Almas, avistamos nela uma aspiração muito marcante a tornar-se independente em oposição à vontade dos seus parentes. Graças aos repetidos estímulos por parte do seu amante, apesar de ela viver nas condições familiares muito tradicionais, consegue estudar nas escolas noturnas, divorciar, apresentar a demissão no trabalho do que nunca gostava e finalmente vir a ser escritora eminente. Deste modo, esta mulher encarna o ponto máximo da emancipação e ascenção social de todas as personagens apresentadas neste trabalho. Por outra parte, apesar de ela desejá-lo muito, não consegue viver com o homem a quem sempre amava.

Um dos passos positivos que realiza a protagonista do conto Tendresse para o seu desenvolvimento pessoal é a decisão de deixar de ser submissa e separar-se do marido grosseiro, porque «O casamento não era o que romanticamente tinhas sonhado, mas apenas

a submissão passiva, a vida caseira, os deveres da noite na cama… […] Não houve filhos. Ele tornou-se taciturno e rude, por vezes mesmo brutal. » (Rodrigues Miguéis 1982: p. 123).

A razão de não ter filhos pode ser justificada, se omitimos a possibilidade de problemas fisiológicos, pela repugnância da protagonista. As feministas dos anos sessenta defendiam a ideia, como a expõem Callegao Borsa e Friedrich Fiel, que «a maternidade [é] a causa da

opressão das mulheres pelos homens. Interpretada como obstáculo a igualdade. […] Isto porque seria exatamente nesta condição que a mulher seria submetida a uma maior opressão do homem.» (Callegaro Borsa, J., Friedrich Feil, C, 2008: p. 5). Esta hipótese pode ser

confirmada pelo seu modo de vida depois do divórcio: ela consegue avivar e alargar a loja da sua mãe e vir a ser uma comerciante bem sucedida e independente, mantendo só relações amorosas efémeras.

A Agnès é uma mulher abastecida, uma «[…] colorista e desenhadora chefe de uma

conhecida empresa de decoração interior, fabricante de tapeçarias e tentures de luxo […]»

(Rodrigues Miguéis 1982: p. 170). O seu pai até costumava dizer com orgulho: «Agnès tinha

o futuro garantido.» (Rodrigues Miguéis 1982: p. 162), o que chegamos a saber graças ao

e das possibilidades que ele lhe tinha proporcionado. Mesmo que seja portuguesa, vive desde o seu nascimento nos Estados Unidos, país-modelo enquanto à emancipação; conclui-se que a sua situação é muito mais fácil em comparação com ambas as mulheres acima mencionadas, não sendo oprimida pela sociedade que a rodeia.

Na Amália tampouco vemos qualquer evolução, apesar de ela se encontrar numa situação totalmente oposta. Não dá sinais de nenhumas esperanças nem aspirações por causa da sua educação. Não só nasceu na pobreza, mas é incapaz de subir socialmente e nem parece que o pretende. Está grávida sem ser casada, o que ainda agrava a sua situação numa sociedade portuguesa tradicional.

A «Princesa», assim como a Amália, parece não ter nenhumas ambições ou desejos para o futuro e sacrifica-se em pró da vida comum dela e do seu namorado, se é que a relação amorosa depois de ela se tornar prostituta ainda seria possível. No entanto, vale a pena frisar que é ela quem tenta melhorar a situação deles e não o homem, o seu amante.

A única mulher que recusa diretamente a emancipação é a Elisa de A Bota. Isso manifesta-se quando lhe está oferecida uma vida cómoda, voltando ela as costas à toda a sua vida anterior. Elege a alternativa mais fácil, sem trabalho e qualquer atribuição pessoal. Mais concretamente, não está contente com o meio do que provém nem com o futuro que a esperaria com o Joaquim, trabalhando ela como enfermeira, e por isso decide tentar a sorte com um velho e rico que até tem criados, sendo tão ociosa que não quer ser nada emancipada passando a vida como uma das personagens dos romances queirosianos.

Sobre as aspirações das mulheres do resto dos contos, o narrador não nos revela quase nada com a exceção da Masha, a única da qual sabemos muito mais. Mesmo que esta seja uma imigrante que conserva os seus costumes culturais, por outra parte faz notar que sempre adquire o que pretende, pelo menos quanto à carreira, e sempre revela a capacidade de surpreender as pessoas que a rodeiam com as suas decisões inesperadas e muito progressistas. Tendo ela estudado no conservatório, é uma excelente pianista. Depois, quando o narrador se apaixona por ela, estuda Química. E, mais, no final do conto, ela vem a ser soldada de Israel. Então, é uma mulher absolutamente independente, sendo até capaz de ser militar, o que podemos considerar o ponto culminante da emancipação, embora exagerado, levado ao extremo e deste modo ironizado em contraste com a narradora de O Jardineiro de Almas, cujo comportamento é auténtico.

Neste capítulo vale a pena mencionar uma mulher regida pelas convenções do machismo do homem português e a submissão da mulher portuguesa levado ao extremo oposto, também ironizado. Trata-se da hospedeira Maria do conto Estranha Vida e Morte do

Professor Reineta. Esta açoriana acha que para servir bem ao seu hóspede tem que dar-lhe

à sua disposição também o seu corpo: «Coisa a mais natural deste mundo: o hóspede era de

qualidade, honrava a casa, e tudo ficava em família.» (Rodrigues Miguéis 1982: p. 74).

Documentos relacionados