CAPÍTULO II – PARTE PRÁTICA
ENQUADRAMENTO TEÓRICO
2. Adições 50 anos após a década de
2.1. Quarenta anos de drogas: um fenómeno pós revolução de Abril
2.2.1. Epidemiologia das drogas ilícitas
2.2.1.1. A nível mundial
As estratégias mundiais de luta contra a droga estabelecem dois princípios básicos de ação. O primeiro sustentado na luta e controlo da oferta, onde se destacam ações de controlo da produção e tráfico de drogas, bem como a implementação de medidas punitivas para os seus agentes (produtores e traficantes). O segundo tem por base a redução da procura, tendo como alvo preferencial os consumidores de drogas. Neste ponto, o United Nations Office on Drugs and Crime (UNODC) no seu relatório mundial sobre as drogas (2012) reconhece que a prevenção, o tratamento, a reabilitação, a reintegração e a saúde são os elementos chave para a redução da procura e que estes são mais eficazes que as medidas punitivas dos consumidores.
Na sequência desta linha de pensamento, a apresentação do estado da arte relativamente à matéria de drogas aparece de acordo com estes princípios básicos. Por um lado descrevemos os números relativos à produção e tráfico, por outro, apresentamos dados relativos ao número de pessoas a consumir drogas, ao número de pessoas em tratamento e às consequências relacionadas com o consumo (por exemplo, número de mortes) (UNODC, 2012).
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Em termos globais parece não haver alterações significativas no status quo do consumo, produção e consequências do consumo de drogas ilícitas. As grandes modificações em matéria de drogas verificam-se nos fluxos, onde se analisa uma transformação que demonstra que os mercados da droga são altamente adaptáveis e usando uma expressão popular “estão sempre um passo à frente”. Este cenário é reforçado com a retoma da oferta de opiáceos, mesmo depois da sua diminuição em 2010 provocada por uma praga que destruiu parte da plantação da papoila no Afeganistão (UNODC, 2012).
A nível mundial, o uso de drogas permanece estável há cinco anos com cerca de 3,4 a 6,6 % da população adulta (15-64 anos) mundial a consumir. Destes 10 a 13% são consumidores problemáticos com dependência ou problemas relacionados com o consumo de drogas. Apesar da tendência global de estabilidade, verifica-se um aumento de consumidores de drogas injetáveis infetados com VIH (estimativa de 20%), hepatite C (estimativa 46,7%) e hepatite B (14,6%), e quanto à consequência mais grave, a morte, ela é responsável por 1% dos casos (UNODC, 2012).
Relativamente à distribuição do tipo de droga responsável pela maior procura de tratamento, verificamos diferenças regionais. Os opiáceos continuam a ser a substância que mais propicia a procura de tratamento em todas as regiões (Ásia, Europa, África, América do Norte e Oceania). Já a cocaína é a maior responsável pela procura de tratamento na América e a canábis na África. A procura de tratamento de consumidores de drogas estimulantes do tipo anfetaminico é maior na Ásia (UNODC, 2012).
No que diz respeito à droga mais consumida globalmente, a canábis mantém-se como a substância de eleição (2,6 a 5,0%) seguida dos estimulantes (0,3 a 1,2% com exceção do ecstasy).
Opiáceos
O consumo de opiáceos (heroína, morfina e opiáceos sem prescrição médica) mantém-se estável com uma prevalência estimada de 0,6 e 0,8 % na população adulta (15-64 anos). Mesmo depois da quebra da produção em 2010, ela atualmente voltou aos níveis de 2009. No entanto, o real impacto desta quebra não pode ser analisado, mas acredita-se que é responsável pela diminuição da oferta de opiáceos em 2010 e 2011, onde também se registaram menos apreensões. A UNODC (2012) refere no seu
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relatório mundial sobre as drogas que esta diminuição da oferta em 2010 e 2011 poderá ser responsável pelo aumento do consumo de substâncias derivadas como a desmorfina (conhecido por “krokodil16”), e o ópio acetilado (conhecido como “kompot”) ou outros opiáceos sintéticos como o fenatil e a buprenorfina.
O fluxo do mercado de opiáceos tem registado alterações. Apesar da rota dos Balcãs ainda estar ativa, as apreensões nas regiões fornecidas por esta rota diminuíram em 2010, verificando por outro lado um aumento das apreensões em África e na Ásia.
Cocaína
O mercado de produção da cocaína também apresenta dados que demonstram esta adaptação e flexibilidade dos mercados das drogas. A quebra da produção de cocaína colombiana propiciou uma queda na produção global de cocaína, que imediatamente foi substituída pela produção em países como a Bolívia e o Peru, atuais mercados emergentes na produção de coca.
A América do Norte, a Europa e a Oceania continuam a ser os mercados principais desta substância. Contudo, a América do Norte por ser essencialmente abastecida por cocaína colombiana tem sofrido uma diminuição no seu consumo (de 3% em 2006 para 2,2% em 2010 nos EUA), enquanto o consumo na Europa e a Oceania permanece estável. Mesmo com a diminuição do número de apreensões de cocaína na Europa o consumo não seguiu esta tendência, demostrando que, por um lado as rotas de abastecimento estão a modificar-se, e, por outro, os países produtores que abastecem a Europa e a Oceania são essencialmente os países produtores emergentes como a Bolívia e o Peru. Estas alterações nos fluxos dos mercados estão a preocupar outras regiões que até então não tinham a cocaína como droga de consumo problemático como é o caso do Oeste de África. Na América do sul está a expandir-se o mercado de cocaína sintética como a cocaína crack (UNODC, 2012).
16 Krokodil é o nome usado para o consumo de desomorfina. Esta droga ganhou reputação na Rússia em
2010 devido à sua baixa qualidade de síntese. A desomorfina é sintetizada a partir da codeína num processo semelhante ao da metanfetamina, estando o produto final muitas vezes contaminado com químicos tóxicos e altamente corrosivos. Os consumidores pela via injetada acabam por apresentar problemas sérios de saúde devido aos danos provocados nos tecidos que acabam por infetar. A constelação dos danos tecidulares propiciou que esta droga ficasse conhecida como “comedora de carne” ou então Krokodil (Erowid, 2013).
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69 Estimulantes do tipo anfetaminico
Os estimulantes do tipo anfetamínico (ETS) (metanfetamina, anfetamina e ecstasy) são o segundo tipo de droga mais consumido em todo o mundo. No entanto a metanfetamina parece estar a ganhar terreno aos outros estimulantes, principalmente às anfetaminas que viram as suas apreensões decrescerem 42% desde 2006. Já o ecstasy parece estar a renascer nos mercados Europeus desde 2010, onde se registaram o dobro das apreensões de 2009. A disponibilidade desta droga parece também estar a aumentar nos EUA, na Oceania e no Sudoeste Asiático (UNODC, 2012).
Canábis
Em todo o mundo existem entre 119 milhões a 224 milhões de consumidores de canábis (cerca de 6,9%), o que a tornam a droga mais consumida, num registo que parece estar estabilizado.