V. A EFICÁCIA DOS PRECEDENTES VINCULANTES
5.2. A necessidade de estabilidade da jurisprudência no Peru
A jurisprudência desempenha um especial papel em qualquer sistema jurídico moderno. No entanto, a preocupação com a estabilidade da jurisprudência, no sistema peruano, tem sido encarada como uma questão secundária, e muitas vezes, deixada de lado.
Nesse sentido, precisamos de um sistema estável que outorgue segurança, confiança e igualdade, mesmo diante das modificações que são necessárias ao seu aperfeiçoamento. Embora a aplicação concreta desses valores não seja clara e de unívoca interpretação, a observação de alguns critérios torna a prática mais racional e possível, como se pretender delinear. Desse modo, a estabilidade deve ser conjugada com a adequação e a pertinência social da norma em vigor.
Certamente, atingir tal ponto de equilíbrio não é uma missão fácil de ser alcançada.
O princípio da proteção da confiança, na condição de elemento nuclear do Estado de Direito (além da sua íntima conexão com a própria segurança jurídica) impõe ao poder público – inclusive (mas não exclusivamente) como exigência da boa-fé nas relações com os particulares – o respeito pela confiança depositada pelos indivíduos em relação a uma certa estabilidade e continuidade da ordem jurídica como um todo e das relações jurídicas especificamente consideradas. (...)
Como concretização do princípio da segurança jurídica, o princípio da proteção da confiança serve como fundamentação para a limitação de leis retroativas [Direito retroativo], que agridem situações fáticas já consolidadas (retroatividade própria), ou que atingem situações fáticas atuais, acabando, contudo, por restringir posições jurídicas geradas no passado (retroatividade imprópria), já que a idéia de segurança
jurídica pressupõe a confiança na estabilidade de uma situação legal atual.237
Nesse sentido, as bússolas do Poder Judiciário são as fontes mais seguras para servir de guia aos cidadãos. Quando a lei formal não é suficiente, ou a sua execução não ocorre da forma que se entende devida, é o Poder Judiciário que irá definir, em concreto, como deve ou não ser a aplicação da norma posta no cerne do conflito, ou pelo menos, acreditamos que, assim deveria ser.
A estabilidade gerada pelas decisões judiciais não pode gerar a rejeição às mudanças ocorridas no seio da sociedade que pretendem servir. Não podem, igualmente, ser apresentadas como verdades absolutas e inatingíveis, pois deve admitir-se que a natureza humana é capaz de cometer os mais diversos equívocos, especialmente, quanto do exercício da difícil missão de julgar.
Deste modo, é evidente que um precedente existe com pretensão de se estabelecer no tempo. Contudo, admitir sua absoluta imutabilidade seria negar a própria vigência ao Direito, não ignorado de constituir um saber vivente e dinâmico.
A estabilidade da jurisprudência, na construção de um Direito capaz de responder aos preceitos do Estado Constitucional, e as modificações da jurisprudência são igualmente necessárias. Todavia, devem ser realizadas com as cautelas que a preservação dos valores do Estado exigem. Não é possível que a alteração dos entendimentos dos tribunais ocorra de forma inesperada e acometa os cidadãos com uma grave crise de segurança.238
As mudanças, embora necessárias, devem respeitar as situações que se consolidaram durante a vigência do entendimento anterior, com observância do
237 SARLET, Ingo Wolfgang. O estado social de direito, a proibição de retrocesso e a garantia fundamental da propriedade.In: Revista Diálogo Jurídico. Ano I, vol. I, nº 4, p. 129.
238 “A abrupta e irregular revogação dos precedentes é compreendida pelos juristas norte-americanos como um indicio de irracionalidade e não de progresso na Corte. Existe uma importante diferença entre revogar um precedente anterior e interpretá-lo para um novo caso. Na revogação do precedente, oJusticedeve demonstrar por que a decisão anterior da Suprema Corte foi equivocada.” (APIO, Eduardo. Controle difuso de constitucionalidade: Modulação dos efeitos, uniformização de jurisprudência e coisa julgada,p. 67,68).
princípio da proteção da confiança e da não surpresa, mediante o respeito ao princípio da irretroatividade do Direito, já revisado. Estabilidade não significa imutabilidade, ao contrário, indica a necessidade de observância de mudanças de forma racional e segura. Como afirmado por Nelson Nery Júnior:
A dinâmica da vida e dos fatos sociais indica a possibilidade de a jurisprudência ser alterada. Os tribunais devem acompanhar a evolução da sociedade em todos os seus matizes econômicos, sociais, culturais, políticos, religiosos etc. Não se poderia admitir o engessamento da jurisprudência dos tribunais em nome da segurança jurídica, pois a dose desse remédio, por ser excessiva, mataria o doente:
summum ius, summa iniuria. Daí por que é quase que axiomática a afirmação de que os tribunais podem modificar sua jurisprudência.239
Claro que a ideia do uso do precedente não insinua um regime judiciário autoritário e engessado. Por óbvio, que o juiz posterior pode, e às vezes deve, afastar a razão universalizável imposta a ele, mas, para tanto, deve proporcionar boas razões, que devem evidenciar que o caso atual não trata do mesmo problema ou que possui fatos relevantes que o distinguem ou exigem um tratamento jurídico distinto, ou, ainda, que a decisão precedente está equivocada.
Trata-se aqui das técnicas do distinguishing e do overruling, que têm como principal função permitir o desenvolvimento do Direito judicial.
239 NERY JÚNIOR, Nelson. Boa-fé objetiva e segurança jurídica: eficácia da decisão judicial que altera jurisprudência anterior do mesmo tribunal. In: FERRAZ JR., Tércio Sampaio; CARRAZZA, Roque Antônio e NERY JÚNIOR, Nelson. (Coord.)Efeitos ex nunc e as decisões do STJ., p. 89.