4.3 A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES POBRES NA IGREJA DE GOIÁS
4.3.2 As Comunidades Eclesiais de Base
4.3.2.2 A pedagogia das CEBs
As CEBs na Diocese de Goiás e no Brasil foram constituídas em plena ditadura militar brasileira, período de restrita participação popular. Época em que qualquer organização de oposição era tida como algo subversivo, portanto, proibido. Impedida toda e qualquer possibilidade de manifestação contrária ao governo e as classes
dominantes, o povo buscou na Igreja - no Cristianismo da Libertação – uma nova forma de se organizar (BETTO, 1985, p. 22; LIMA 1979, p. 55).
Em meio a essa falta de democracia no cenário brasileiro, as CEBs ensaiavam na prática o que exigiam as autoridades eclesiásticas do governo: uma sociedade democrática e mais justa. “Através da voz dos bispos, a Igreja criticava, de maneira cada vez mais direta e explícita, as violações de direitos humanos e a ausência de democracia” (LÖWY, 2000, 145). Através de práticas simples, as CEBs tornaram-se verdadeiras escolas de aprendizado democrático. Por exemplo, nas CEBs da Diocese de Goiás a/o coordenadora/o era escolhida/o pelos membros da comunidade local para um mandato de dois anos.
Nas CEBs, as mulheres pobres aprenderam e exercitar o poder participativo, na coordenação e na atuação em diversas atividades e ministérios da comunidade - catequese, liturgia, Ministras da Eucaristia, do Batismo, do Matrimônio, etc. - (SCOLARO, 2001, p. 109; RIBEIRO, 1999, p. 166). Mesmo as mulheres que não tinham função específica na comunidade, eram apenas membros, aprenderam a falar em público, a perder o medo, a expor o que pensavam, a soltar sentimentos presos e a desabafar; aprenderam a ouvir, a opinar e a deliberar sobre assuntos tratados nas reuniões. Assim demonstra o depoimento de I. A. G. (Anexo O): “Todo mundo tinha sua vez pra falar. Não falava ao mesmo tempo não. Que isso é uma coisa muito importante, não é? Porque cada um falava; deixava a sua pra falar; falava”.
Segundo Capponi (1999, p. 44), essa participação nas CEBs significa para a classe trabalhadora e pobre o “milagre da libertação interior”. Isso serve tanto para o homem pobre quanto para a mulher pobre. No entanto, para as mulheres que viviam
numa sociedade em que “só o homem fala e tem razão sobre as coisas”, essa libertação veio em dose dupla, tanto pela sua condição de pobre como de mulher. Nas CEBs “Os homens não têm mais a última palavra; as mulheres começaram a se sentir em pé de igualdade” (HOORNAERT, 1979, p. 78).
A gente tem muita experiência, porque a gente cresce como pessoa, como mulher, como mãe. Ah! tem muito ganho assim [...]. Passar entender, passar compreender; ver as diferenças entre pessoas; aceitar as diferenças. Eu acho que foi muito bom. A gente tem um ganho muito grande, um crescimento. [...] Porque antes a gente só obedecia e depois a gente passou a compreender que nós também temos o nosso direito. Então, a gente começa desenvolver e ver que a gente também tem os mesmos direito de falar, de fazer, de querer e aceitar (Anexo E).
A comunidade de base possibilitou a saída da mulher pobre do seu mundo doméstico, familiar, do privado, para o mundo do público. Essa nova realidade representou para muitas mulheres pobres uma etapa pedagógica de atuação pública no âmbito dos movimentos sociais/populares, assim como no âmbito da política formal:
Se na família, no mundo do trabalho e na sociedade, estas mulheres das camadas populares são ainda extremamente oprimidas e marginalizadas, sua participação efetiva no universo religioso e eclesial tem se mostrado como uma possibilidade real e original de acesso e de passagem a uma maior consciência social e tomada de posição no espaço público, em termos de participação nos sindicatos, nas associações de bairros, nos movimentos populares e nos partidos políticos. A experiência e o comportamento religioso das mulheres dos meios populares brasileiros, seu assumir maciço e majoritário dos diferentes serviços eclesiais são, muitas vezes, num primeiro momento, o único espaço que lhe é permitido como lugar de presença e atuação fora dos limites domésticos da casa e do cuidado da família (BINGEMER, 2002-2003, p. 110[406]).
As mulheres pobres, interioranas, camponesas, por meio da sua participação nas CEBs, nos Grupos de Evangelho e nas atividades da Diocese de Goiás, nos anos de 1970 e 1980, fizeram pedagogicamente uma trajetória de auto-afirmação, de auto-
valorização do seu ser feminino, assim como, de tomada de consciência social e política.
A própria dinâmica das CEBs e o processo de conscientização que vem se dando em seu interior estimula as mulheres a assumirem-se como sujeitos, deliberando com liberdade e responsabilidades sobre seus atos. Nesse sentido é a própria participação na instituição eclesial que as leva a assumir, de forma consciente e responsável, uma prática que se distancia da doutrina oficial desta mesma Igreja (RIBEIRO apud LEMOS, 2005, p. 187).
Segundo Jarschel (1991), a mulher pobre começa a ser valorizada na Igreja com o nascimento das Comunidades Eclesiais de Base. As CEBs proporcionaram às mulheres pobres um caminho para o seu protagonismo e para sua afirmação. Assim como escreve Nunes (1992) e Ribeiro (1999):
As Comunidades Eclesiais de Base e os Clubes de Mães a elas ligadas contribuíram, certamente, de forma inédita na história do Catolicismo, para que ‘o protagonismo das mulheres pobres’ ocorresse, no interior da própria Igreja e na sociedade brasileira (NUNES, 1992, p. 25)
“[...] participando do próprio surgimento e desenvolvimento das CEBs, as mulheres trouxeram para as comunidades sua contribuição própria; mas, ao mesmo tempo, esta participação nas comunidades - que são espaços inovadores onde ‘se dá voz a quem não tem voz’ – foi o que permitiu a afirmação das mulheres” (RIBEIRO, 1999, p. 166).
Conforme Lesbaupin (1999), de forma semelhante, em outros lugares, em outras dioceses e regiões do país, as mulheres das CEBs foram se valorizando pela sua participação na comunidade de base:
Dentro das comunidades, a partir da leitura e reflexão bíblica, da partilha da palavra, da solidariedade na ação, as mulheres vêm assumindo sua própria capacidade, vêm se descobrindo, descobrindo sua potencialidade, muitas se tornando líderes nas comunidades, nas lutas, nos conselhos, nas celebrações, na pregação. [...] Num mundo em que os papéis principais são atribuídos aos homens e as mulheres ficam em segundo plano, a vivência nas comunidades ajuda a resgatar o seu valor e seu espaço na sociedade. A própria relação homem-mulher vem se modificando em função desta participação maior, deste papel ativo assumido pelas mulheres e também em razão de reflexão conjunta que homens e mulheres vêm fazendo em suas comunidades (LESBAUPIN, 1999, p. 89).