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4.3 A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES POBRES NA IGREJA DE GOIÁS

4.3.2 As Comunidades Eclesiais de Base

4.3.2.3 Agentes de Pastoral

4.3.2.3.1 As agentes de Pastoral Leigas

Na Diocese de Goiás os agentes de pastoral eram padres, freiras ou leigos e leigas que recebiam um certo salário para se dedicarem, de maneira integral, aos trabalhos da paróquia ou de uma pastoral diocesana. Muitos agentes de pastoral eram mulheres, em sua maioria freiras. Pela escassez de padres e pela tentativa de uma maior partilha de poder (SCOLARO, 2001, p. 112) a Diocese de Goiás entregou paróquias nas mãos de freiras e de leigos.

A partir do ano de 1985 inicia-se na Diocese uma experiência de equipes colegiadas de agentes de pastoral. Religiosas, padres e leigos, homens e mulheres, foram morar juntos para assumir a paróquia.

Quando eu terminei o ensino médio, em 84, surgiu um convite, partindo de Dom Tomás pra que a gente pudesse... a Diocese estava interessada em fazer uma experiência com leigos, leigos engajados na comunidade, morando em casas paroquiais. A primeira experiência que a Diocese estava querendo fazer nesse sentido. Eu fui convidada juntamente com Sebastiana, que a gente era amiga do grupo de jovens, e pela nossa atuação também. Aí nós fomos fazer um ano de experiência em Uruana, que era um trabalho com uma religiosa, com o padre e três leigos (Anexo C).

Após essa primeira experiência de comunidade mista na paróquia de Uruana e após a experiência de uma moça, Francisca da Silva, em assumir o trabalho pastoral de um povoado do município de Itapuranga, surge a primeira equipe leiga de agentes de pastoral. Eram moças, vindas das comunidades da própria Diocese de Goiás, como Eliete, Francisca, Olívia, Roneide e Sílvia, que foram assumir por quatro anos a paróquia de Itapirapuã (CAPPONI, 1999).

Mas, sobre as relações salariais dos agentes de pastoral não havia uma definição e igualdade. As agentes de pastoral recebiam salários inferiores aos dos homens. Tanto as freiras como as leigas, geralmente, recebiam salários menores que os padres.

O primeiro trabalho que nós fizemos como leigas engajadas mesmo foi em Itapirapuã. Nós enfrentamos muitas dificuldades. Tinha a questão financeira que não era definida, a gente não recebia salário. A comunidade era muito pobre. Logicamente nós não passamos fome, mas nós tivemos dificuldades em todo trabalho da pastoral, que tem seus gastos e a nossa vida mesmo pessoal. A gente teve dificuldade nesse sentido (Anexo C).

Além da problemática salarial havia a questão da autonomia dessas agentes de pastoral. Segundo Scolaro (2001, p. 112-113).

Isso de fato representa um avanço com uma limitação, ou seja, a limitação é que nessas paróquias sempre havia um padre que respondia como pároco. Quer dizer, o padre morava em outro município, mas era responsável pelos sacramentos que os leigos não podem ministrar e por isso o poder em última análise continuava nas mãos dos homens. Contudo esta realidade fez a Diocese crescer e criar novas relações e perceber realidades de convivência e de ação pastoral de uma forma diferente.

Apesar dessas limitações, Scolaro (2001), acredita que essa experiência em Goiás representa um avanço para a Diocese e para as mulheres na Igreja, sobretudo para as leigas.

Da mesma forma que essas experiências contribuíram com o crescimento da Diocese, nos termos de Scolaro (2001), pode-se perceber também a contribuição que deram para a formação das mulheres que participaram dessas experiências. Uma das moças que foi agente de pastoral em uma paróquia da Diocese, nos anos de 1980 (Anexo C), declara:

Tudo que sou hoje, além da formação e educação que a gente recebe na família, eu acho que eu recebi uma grande contribuição da Diocese de Goiás. Nesse sentido, para minha formação pessoal, formação profissional até. Na

minha escolha, até o curso superior que eu fiz, acho que foi uma das escolhas a partir de uma militância que eu tive na Igreja.

4.3.2.3.2 Agentes de Pastoral como Intelectuais orgânicos

Os agentes de pastoral da Diocese ajudavam o povo a fazer a interação da fé com a vida, da religião com a política. Este papel ocupava a maior parte do tempo dos agentes de pastoral na formação dos Grupos de Evangelho (CAPPONI, 1999, p. 44). No seu trabalho, os agentes usavam comparações de símbolos bíblicos com os símbolos mais conhecidos da realidade local. Na “parábola do joio e do trigo”, mencionada anteriormente, o “timbete”24 era equiparado ao joio e o trigo ao arroz. Tal comparação era usada para as pessoas entenderem melhor o texto bíblico. Nas reflexões desses textos os agentes direcionavam a interpretação para o momento político e social do país e dos próprios trabalhadores. Conforme Pessoa (1999, p. 118), em diversas ocasiões, os próprios agentes interpretavam as parábolas, direcionando-as somente para o lado político, com isso, matavam a criatividade do povo e aprisionavam a metáfora. Dessa maneira tornavam sua ação pastoral uma “ortopraxia” (PESSOA, 1999, p. 118).

Outras críticas foram feitas aos agentes de pastoral brasileiros por atuações muitas vezes “agressivas” frente ao povo. Betto (1985, p. 41-44) faz duras críticas aos agentes de pastoral do tipo populistas e do tipo vanguardistas. Por populista ele considera os agentes que se inserem no meio do povo, pensando que o povo por si só tem todas as respostas para os seus problemas. O agente populista não respeita o

povo porque não se prepara e não planeja a ação pastoral. Chama-os de românticos e de canonizadores da pobreza. O contrário do populista, seria o agente vanguardista que se acha o salvador do povo. Nessa concepção o povo não seria capaz de produzir a história, o agente é o único a pensar, enquanto o povo só após se apossar das idéias iluminadas do vanguardista poderia se libertar.

Apesar das críticas aos agentes do tipo populista e vanguardista houve agentes de pastoral que realmente tornaram-se porta-vozes do outro modelo da fé cristã vivida principalmente pelos grupos desfavorecidos. Segundo Maduro (1980, p. 184), os agentes de pastoral, nos moldes gramscianos, tornaram-se muitas vezes intelectuais orgânicos. Surgindo da nova situação histórica eles representam os interesses de determinado grupo social. No caso das CEBs e do Cristianismo da Libertação muitos agentes de pastoral representaram as classes menos favorecidas.

Cada grupo social, nascendo no terreno originário de uma função essencial no mundo da produção econômica, cria para si, ao mesmo tempo, de um modo orgânico, uma ou mais camada de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, não apenas no campo econômico, mas também no social e político (GRAMSCI, 1978, p. 3).

Ao discorrer sobre os intelectuais orgânicos de Gramsci, Souza (1982, p. 57) enfatiza que eles não se resumem aos intelectuais “clássicos” (como o filósofo, o artista e o literato), mas também, “ao pesquisador, ao técnico, ao educador, ao administrador, aos organizadores da sociedade civil e da sociedade política, aquele que desenvolve a consciência de classe”. Nesse sentido, muitos agentes de pastoral da Diocese de Goiás também podem ser considerados intelectuais orgânicos.

Segundo Scolaro (2001, p. 128), os intelectuais da Diocese de Goiás não foram somente o clero e os leigos de formação mais elaborada, mas “todos aqueles que foram participando das Assembléias ou até mesmo colaborando de alguma forma nas pequenas comunidades de base”.

Partindo dessa concepção de Scolaro (2001), pode-se dizer que, além das freiras e das agentes leigas liberadas, as mulheres pobres que tiveram uma certa liderança pertenciam igualmente ao grupo dos intelectuais orgânicos da Diocese de Goiás.

Fui do conselho paroquial uns oito anos ou dez, por aí. Aí eu dava assistência. Assim... A gente participava do município todo. Nessa época que a gente tava na coordenação do conselho paroquial eu ia no município todinho. Inclusive a gente ficou muito conhecida de ir nas reuniões do... Córrego da Onça... na roça todinha, na zona rural, tudo, tudo, tudo. A gente ia com padre Isaque ou ia só nós os coordenadores mesmo, nas reuniões. Eu assumi sim (Anexo F).

Falando sobre as CEBs urbanas, Löwy (2000, p. 83) diz que elas eram substancialmente comunidades de mulheres, somando mais de 60 por cento dos participantes. Ele fala mesmo de uma feminização das CEBs. Segundo o autor, essa feminização é fortalecida “pelo fato de que a maioria das agentes pastorais que ajudam a organizar as CEBs nas áreas urbanas populares são mulheres das ordens religiosas femininas” (LÖWY, 2000, p. 83).

Nunes (2004, p. 504) também reconhece a importância das freiras como agentes de pastoral e diz que as CEBs eram verdadeiras comunidades de mulheres. Porém, ela não se restringe apenas às CEBs das cidades, mas engloba todas as CEBs.

Enfim, as mulheres, maioria nas CEBs, feminilizaram as comunidades de base, e ao mesmo tempo, muitas se tornaram intelectuais orgânicas de sua própria classe.