4.1 AS MULHERES E A MEMÓRIA HISTÓRICA DA IGREJA DE GOIÁS
4.2.3 Mulheres na Diocese e a Diocese em mudança
No ano de 1966 morre o bispo da Diocese de Goiás, Dom Abel. Em dezembro de 1967 é empossado um novo bispo em seu lugar, Dom Tomás Balduíno. Esse novo bispo trazia consigo “os ventos de renovação” do Concílio Vaticano II e de sua experiência de militância no Movimento de Educação de Base (MEB), quando trabalhou na Prelazia de Conceição do Araguaia. Quinze dias após sua chegada na Diocese, no marcante ano de 196819, em uma reunião com os padres, no município de Itaberaí, já
convocava uma assembléia diocesana. A novidade era a presença não só dos padres, mas de religiosas e do laicato.
Em relação às assembléias da Diocese de Goiás, Jadir Pessoa (1999, p. 105) afirma que “é em torno das assembléias e a partir delas que vão surgindo as novas formas de poder interno, as definições ideológicas, as contradições do modelo e os enfrentamentos internos e externos”.
Segundo Pessoa (1999), as oito primeiras assembléias da Diocese foram divididas e reagrupadas em quatro etapas: Modernização (1968-1969), marcada ainda pelo poder institucional da hierarquia; Transição (1970-1971), marcada pela pesquisa para o conhecimento da realidade e a criação de uma instância de poder, a “Equipe Diocesana”, que auxiliaria o bispo nas mudanças; Renovação (1972-1973-1974),
19 No ano de 1968 eclodiram por todo o mundo diversas manifestações estudantis e de jovens. Foi o ano
marcada como a explosão do novo, “muito mais do que a chegada do novo bispo em si” (PESSOA, 1999, p. 106), pois, com a implantação do modelo político-pastoral da Igreja de Goiás, acabaram-se os decretos diocesanos, impulsionou-se a criação dos “Grupos de Evangelho” e das Regiões Pastorais. Por fim, a assembléia da Igreja do Evangelho (1975), marcada pela erradicação das práticas tradicionais dos sacramentos sem nenhum compromisso social e pela opção preferencial pelos pobres e oprimidos.
Apesar de Pessoa (1999) admitir que o laicato era a maioria nas referidas assembléias diocesanas, ele desconfia da verdadeira autonomia dos leigos nessas assembléias. Contrapõe a Ivanilde Moura (1989) que viu nestas assembléias uma divisão de poderes do clero com os leigos. Pessoa também faz duras críticas à Diocese de Goiás pela tentativa de erradicar a religiosidade popular e por não saber lidar em muitos momentos, com a pluralidade existente em seu próprio interior20.
A participação dos leigos, desde a primeira assembléia, superou em quantidade a participação dos padres. E na convocação desses leigos, as mulheres tiveram suas vagas proporcionais às dos homens. “Estavam convocados todos os padres, religiosos e religiosas, e quatro leigos de cada paróquia: um homem e uma mulher adultos, um jovem e uma moça” (CAPPONI, 1999, p. 25). No entanto, a participação da mulher, nas primeiras assembléias e em outros encontros fora do município em que residiam, foi muito menor que a dos homens. Por exemplo, na 5ª Assembléia Diocesana em 1972,
20 Nesse sentido, o próprio título do seu livro, A Igreja da Denúncia e o silêncio do Fiel, já é uma crítica à
contra a Diocese de Goiás. Pois, para o autor, a Diocese de Goiás fez uma significativa mudança social, deixando de ser uma aliada da classe dominante para ser uma aliada da classe dominada, porém, o clero continuou tendo o direcionamento das coisas referentes a organização interna da Igreja. Ver: PESSOA, Jadir de Morais. A Igreja da Denúncia e o silêncio do Fiel. Campinas: Editora Alínea, 1999.
dos 75 participantes apenas 17 eram mulheres, e dessas mulheres, 11 eram religiosas e 6 eram leigas, ao passo que o clero somava 26 e os homens leigos 32.
Uma participante que esteve presente na segunda Assembléia Diocesana com seu esposo, fala sobre essa pouca participação das mulheres em encontros fora de sua vizinhança: “eram em menor número [...]. Na base você percebia a participação maior, tanto na roça como na cidade. Mas, nos encontros diocesanos, às vezes municipais, era menor” (Anexo T).
Qual o motivo então, para que nesta época, houvesse tão poucas mulheres em encontros diocesanos ou mesmo nos encontros municipais? Não eram elas o maior número de fiéis atuantes na Igreja?
A sociedade brasileira e goiana é herdeira de uma sociedade ocidental patriarcal de secular exclusão das mulheres. As mulheres quase sempre estiveram sob a tutela do pai ou do marido. Nas sociedades tradicionais camponesas isso parece ser ainda mais forte, mesmo nos dias atuais.
A cultura camponesa é fortemente marcada por uma estrutura familiar patriarcal, onde o homem é o chefe da família e, portanto o poder está concentrado em suas mãos. Tudo o que envolve a sua vida vem marcado por este dado cultural, até mesmo a própria fé (SCOLARO, 2001, p. 105).
Diante dessa tradição cultural camponesa de domínio do homem sobre a mulher e de submissão que ela vivia (e talvez muitas ainda vivam), no período de 1960 e 1970, pode-se afirmar, que a falta de mulheres nos primeiros encontros/reuniões religiosas fora da redondeza de onde elas moravam, se deu principalmente pela condição de submissão ao homem.
Nesta mesma linha de pensamento, Lemos (apud SCOLARO, 2001, p. 105) diz que “as culturas camponesas são construídas socialmente, com marcas de concepção de gênero hierarquizadas, na sua maioria com desvantagem para as mulheres”.
Conforme a pesquisa sócio-econômico-religiosa de 1970 da Diocese de Goiás,21
a maioria das donas de casa, quando saía para alguma atividade social, era quase sempre para participar de atividades religiosas. Se comparadas ao marido e aos filhos, tinham pouca ou nenhuma participação em outras atividades sociais,nas quais os homens tinham predominância (farra, jogo, baile, cinema e futebol). Ou seja, o homem tinha o poder de sair sem a mulher. Mas, por que as mulheres podiam participar das práticas religiosas e não de outros tipos de lazer?
Talvez o confinamento da mulher dentro de casa e sua saída apenas para as atividades referentes à religião tenha raízes antigas na cultura camponesa goiana. Paulo Rodrigues Ribeiro (2001, p. 34), falando das imagens que os viajantes europeus (Saint-Hilaire, George Gardener, Luiz D’Alincourt e Johann Emanuel Pohl) tiveram da mulher goiana no século XIX, afirma que apesar dos preconceitos e da adjetivação pejorativa que esses viajantes empregaram ao falar da condição feminina, seus escritos não deixam de ser uma importante fonte histórica para compreender a mulher goiana do século XIX.
Ribeiro (2001) expõe a seguinte situação: os viajantes apresentam as mulheres reclusas em suas casas. Por não receberem instrução escolar elas viviam apenas para
21
Na pesquisa sócio-econômica-religiosa da Diocese de Goiás de 1970, das 294 pessoas pesquisadas nas famílias, sobre a participação nas atividades da Igreja, as mulheres eram a maioria. A pesquisa foi dividia por categorias: Pai (85), Mãe (139), Filho (70).
o marido e a família; somente em situações extraordinárias é que podiam sair de casa e quando saíam era para ir à Igreja.
Porém, essa realidade iria mudar com o passar do tempo. No final da década de 1970 e durante a década de 1980, as mulheres já estavam participando em maior número nas diversas atividades diocesanas. Participação que se efetiva em vários níveis. Tanto no município onde moram quanto em outros municípios da Diocese de Goiás ou não. Isto sem necessariamente ter o marido por perto.