• Nenhum resultado encontrado

4.3 A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES POBRES NA IGREJA DE GOIÁS

4.3.2 As Comunidades Eclesiais de Base

4.3.2.1 Grupos de Evangelho

Os Grupos de Evangelho eram as Comunidades Eclesiais de Base da Diocese de Goiás. O termo CEBs – Comunidades Eclesiais de Base - ainda não tinha tanta força na Diocese. No entanto, no ano de 1972, segundo Capponi (1999, p. 44) as CEBs já eram realidade: “Os grupos de Evangelho foram, desde 1972, a primeira concretização da opção pelos pobres. Eram pequenos grupos de trabalhadores, da roça e da cidade, que se encontravam para estudar a realidade à luz do Evangelho”.

Um pequeno grupo que se reúne para “ler a realidade”, discutir a situação na qual vivem os seus participantes, pode ser considerada uma CEB?

Segundo Teixeira (1988, p. 305) e Betto (1985, p. 16) definir exatamente um modelo para as CEBs no Brasil é impossível. Em termos numéricos esses dois autores comungam com a idéia de que as CEBs não são homogêneas. Conforme a realidade e o lugar, pode-se encontrar como CEBs tanto um grupo pequeno como um grande. Michel Löwy (2000, p. 82-83), por sua vez vê as CEBs como um pequeno grupo:

A comunidade de base é um pequeno grupo de vizinhos que pertencem à mesma comunidade, favela, aldeia ou zona rural populares e que se reúnem regularmente para rezar, cantar, comemorar, ler a Bíblia e discuti-la à luz de sua própria experiência de vida.

As CEBs da Diocese de Goiás eram (e continuam sendo) constituídas de pequenos grupos, rurais e urbanos. Sobretudo rurais, uma vez que nos anos de 1970 a maioria da população ainda vivia no campo (SCOLARO, 2001, p. 105).

O que define as CEBs não é o seu tamanho. Segundo Betto (1985, p. 17) e Teixeira, (1988, p. 305-306) uma comunidade eclesial de base é formada pelas seguintes características: agrupamento de pessoas da mesma fé que se reúnem regulamente; geralmente moram próximos; cultivam sentimentos de solidariedade; pertencem à determinada Igreja; seus membros pertencem às camadas sociais subalternas-populares.

Diante dessa caracterização do que seja uma comunidade eclesial de base, pode-se dizer que os grupos de Evangelho da Diocese de Goiás eram legítimas CEBs.

Por que então, na Diocese de Goiás as CEBs foram chamadas de Grupos de Evangelho? É importante perceber que apesar das CEBs terem surgido nos anos de 196023 e se tornado uma das opções decisivas da Conferência Episcopal de Medellín (1968), foi na década de 1970 que elas se multiplicaram e se fortaleceram (TEIXEIRA, 1999, p. 48). A mudança na Igreja de Goiás ocorrerá a partir dos anos de 1970, principalmente a partir de 1972, quando a 5ª Assembléia Diocesana faz a opção preferencial pelos pobres-marginalizados.

Com essa alteração feita na 5ª Assembléia Diocesana a Diocese passa a ser chamada de Igreja do Evangelho (MOURA, 1989, p. 72-74; CAPPONI, 1999, p.38-39). A terminologia deriva da intensa reflexão do Evangelho dentro da Assembléia. O Evangelho para ser anunciado aos marginalizados.

O ponto de partida da nova assessoria foi que as duas tarefas da Escola de Evangelho e Educação popular podiam ser unidas numa só: não havia distinção entre Evangelho e promoção humana. O Evangelho era Boa Notícia,

23 Não há um consenso entre os pesquisadores sobre a localidade exata do nascimento das CEBs.

Segundo Betto (1985) alguns pesquisadores dizem ter surgido em Nísia Floresta - RN, enquanto outros acreditam ter sido em Volta Redonda-RJ. Porém, parece ser consenso sobre o período do nascimento das CEBs no Brasil, que seria na década de 1960 (TEIXEIRA, 1988, p. 308).

trazida por Jesus para libertar os cativos, anunciar um tempo de graça (Lc. 4, 16-20). Baseado nesta certeza, escolheram uma parábola do Evangelho e foram entre os pobres, da roça e da cidade, promovendo reuniões de trabalhadores e trabalhadoras. Na reunião liam a parábola do joio e do trigo (arroz e timbete, como eles diziam para falar de plantas conhecidas do povo) e ouviram o que as pessoas tinham a dizer. Assim iam descobrindo as raízes da miséria e da injustiça. Aos poucos, ia aparecendo com clareza que os cristãos não eram acostumados a ligar o Evangelho com a vida. Na Igreja rezavam a Jesus, mas na vida não praticavam a sua Palavra. As leis do dia a dia eram o egoísmo e a ganância. Precisava então fazer um mutirão para ensinar ao povo a colocar o Evangelho na vida, e não separar as duas coisas: a fé por um lado e a vida por outro (CAPPONI, 1999, p.38-39).

Por isso, as pequenas comunidades de base que surgiram depois da Assembléia se chamariam Grupos de Evangelho. Para Moura (1989, p. 72) os Grupos de Evangelho foram a concretização das transformações ocorridas até 1972.

As alterações na ordem interna e nas linhas da Diocese que aconteceram nos cinco primeiros anos do bispado de D. Tomás, se objetivaram a partir de 1972, na constituição dos Grupos de Evangelho sob a “opção preferencial pelos pobres”.

No que diz respeito à participação das mulheres nos grupos de Evangelho percebe-se que elas eram maioria, tanto na condição de membro quanto de coordenadoras dos grupos. Realidade contrária à as instâncias de decisões diocesanas (assembléias, no período inicial das mudanças na Igreja de Goiás).

Pode-se perceber essa realidade a partir do seguinte depoimento:

[...] foi assim: quando teve essa divisão [mudança] na Igreja, a participação era mais das mulheres. Então, você via que nas coordenação das comunidades, como até hoje, mais são mulheres que anima as comunidades. [...] Mais era mulher que tava na catequese, as mulheres que tava no batismo, em tudo na Igreja sempre foi a mulher que tava. [...] E, ah! uns oitenta por cento era mulher, que tava no conselho da paróquia e muito pouco homem. Hoje tem muitos, mas quem assume o trabalho, continua sendo as mulheres (Anexo D).

É válido dizer, que as comunidades eclesiais de base, então constituídas com o nome de Grupos de Evangelho, segundo Capponi (1999, p. 44) também foram

chamadas de “sementes de comunidade” na 6ª Assembléia. Capponi, que vivenciou o momento inicial dos Grupos de Evangelho, conta como se passou esse processo de implantação e de solidificação dos grupos:

A gente organizava visitas às famílias em regiões da roça, no estilo das missões populares, convidando para um primeiro encontro. A partir daí começava um caminho de descoberta do Evangelho. Quando o grupo se firmava nós sugeríamos de escolher uma coordenação e caminhar de forma mais autônoma. Nossa presença, mas eles já sabiam fazer a reunião também sozinhos. De vez em quando era realizado um treinamento de dois ou três dias, usando dinâmicas para criar formas de organização e ações comunitárias. Não se faziam palestras: tudo era na forma de mutirão.

Os anos áureos das CEBs da Diocese de Goiás foram após a Conferência de Puebla (1979). Sobre esse período Capponi (1999, p. 75) diz: “Tivemos exemplos fabulosos como o de Itapuranga, onde se formaram mais de 50 grupos de base”.

Por fim, os Grupos de Evangelho constituíram o “trampolim” para a emancipação das mulheres pobres da Diocese de Goiás. Eles eram uma experiência formativa e social onde muitas mulheres ensaiavam os próximos passos de suas intervenções na sociedade. De mulheres “rezadeiras” e coordenadoras de Grupos de Evangelhos foi fácil para elas tornarem-se agentes sociais na vida pública.