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4.3 A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES POBRES NA IGREJA DE GOIÁS

4.3.2 As Comunidades Eclesiais de Base

4.3.2.4 As CEBs e a transformação da sociedade

4.3.2.4.1 CEBs, movimentos sociais/populares e as mulheres

Segundo Lebauspin (1999, p. 86) as lutas das CEBs geralmente são primeiramente e majoritariamente ações para resolver um problema de âmbito local. As CEBs contribuíram para a criação de diversos movimentos sociais/populares (LÖWY, 2000, p. 84). Da ação local e emergencial, as CEBs também se inserem na luta para obter direitos para o conjunto da população:

A dinâmica interna da comunidade de base a leva a ações externas, a mobilizações sociais. Ela contribui para unir, organizar, por em movimento os setores das classes populares que ela atinge. Quer se parta do estudo de comunidades, quer se parta do estudo dos movimentos populares dos anos 70, encontramos quase sempre a presença de membros das CEBs nos movimentos (LESBAUPIN, 1999, p. 1999, p. 86).

Na preparação da 10ª Assembléia Diocesana (10-15 de setembro de 1978) foi realizado um estudo sobre as diversas organizações sociais e populares existentes na

Diocese. O estudo tinha o objetivo de ajudar a Igreja de Goiás a definir os rumos que ela teria que tomar diante do quadro das ações populares, onde muitos dos animadores das comunidades eram líderes. Qual era o papel da Igreja diante desses movimentos? Perguntavam-se. O estudo apresentou a seguinte conclusão (apud CAPPONI, 1999, p. 64):

a) Ferramentas que a Igreja ajuda: 1) Grupos de saúde; 2) Escola; 3) Movimentos de jovens; de mulheres, de casais. b) Ferramentas que a Igreja apóia: 1) Mov. dos trabalhadores; 2) sindicatos; 3) associações de categorias (de artesãos, de lavadeiras, de pedreiros); 4) Custo de vida; 5) Política (eleições).

No município de Itapuranga, por exemplo, o apoio da Igreja às organizações populares, sindicais e até partidária (no caso o Partido dos Trabalhadores) foi identificado pela sociedade como ações da própria Igreja. Isso ocorria porque a grande maioria dos líderes e participantes destas organizações atuavam nas atividades religiosas católicas, principalmente nas CEBs. Testemunha P.M.C.G. (Anexo T): “[...] aqui tinha até a sigla: o PT da Igreja, o Sindicato da Igreja, [...]”.

Em muitas cidades da Diocese surgiram movimentos reivindicando infra- estrutura. Eles tiveram muita participação popular, sobretudo das mulheres. A liderança das mulheres nesses movimentos, também é explicada pelo fato de serem as primeiras atingidas pelos problemas (por exemplo, a falta de moradia digna, falta de espaço, falta de privacidade, de água para os afazeres domésticos, de energia elétrica, etc.), justamente por estarem mais em casa do que os maridos. Diante desta realidade, elas se perguntavam: o que fazer? Essas perguntas eram freqüentes nas CEBs. Diante do problema imediato eram as mulheres pobres quem primeiro questionava e agia. Portanto, em muitos movimentos populares as mulheres das comunidades de base

participaram energicamente na liderança dessas lutas. Dona J.A.S. (Anexo P) conta da luta por água no seu bairro:

Nesse tempo, que Alzira morava aqui, Alzira, a Nilza era viva, tinha mais umas três ou quatro mulher aqui do bairro. Nós fizemos um movimento pra pôr água, aqui. Porque tinha água só em alguma casa. Tinha ali naquela rua [apontando para a rua], abaixo da rua 20, aqui no bairro Goiás, que não tinha água. Era um sofrimento desse povo. E nós fumos no prefeito. Nesse tempo era o doutor Manoel. Nós fumos lá umas cinco ou seis vez. E ele pôs a água lá. [...] Mas nós é que ficamos de cima, esse grupo de mulher, era do Ninho, que fez esse trabalho. E conseguimos. Veio o dia, dia de domingo, quando foi a tarde tinha dois chafariz funcionando (J.A.S, Anexo P).

Outro movimento que também teve uma grande adesão das mulheres foi o movimento de saúde. Assim como a água, a saúde era algo ligado à vida doméstica, à vida da mãe que precisava estar atenta a todo momento, zelando pela vida da família, especialmente pela saúde dos filhos.

No interior, nas cidadezinhas da Diocese de Goiás, o clamor por atendimento médico era geral. Havia hospitais nas cidades maiores, mas eram quase todos particulares. Muitos desses hospitais eram conveniados com o INPS e outros convênios públicos. No entanto, o atendimento à população mais pobre era cobrado e feito com descaso. Essa situação é denunciada pelo movimento de saúde em seu “Relatório do Encontro de Saúde – Região Rio Vermelho” (p. 2), nos dias 21 a 23 de outubro de 1988:

SANTA FÉ – Tem só um posto de saúde, mas não tem médicos e nem remédios.

ITAPIRAPUÃ – Tem um hospital conveniado com o INPS. Quem tem dinheiro é atendido, quem não tem morre na porta.

- Sindicato – com fichas limitadas e atende só a tarde. Não há um trabalho integrado.

- Posto de Saúde – atende só de manhã com fichas limitadas. Problema de filas e ir de madrugada.

JUSSARA – Um hospital particular, conveniado. Atendimento a base de dinheiro... Mesmo que tem INPS, cobram Crz 4.000,00 a consulta e não dão recibo.

- Há hospital conveniado com as AIS com atendimento péssimo; - há médicos que não atendem (foi lembrado a morte de pessoas); - falta de enfermeiras capacitadas.

- Posto de Saúde – dizem que é para ter atendimento nos 2 períodos, mas isto não acontece. Quase nunca tem remédios.

- Sindicato – É do mesmo jeito em relação ao atendimento. O sindicato devia entrar mais na questão alternativa, um trabalho preventivo com o povo e lutar para melhorar a conscientização dos direitos do povo.

Em Itapuranga o movimento de saúde teve uma forte presença, tanto na cobrança dos poderes públicos quanto na organização de uma Associação Popular de Saúde. Essa associação fundou um hospital popular chamado “hospital do povo”. Isso se deu porque os hospitais existentes no município de Itapuranga eram todos particulares. Sobre esse movimento popular de saúde fala uma das participantes (P.M.C.G. Anexo T):

E a luta da saúde, ela começou dentro do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, o Hospital do Funrural, mais tarde a Associação Popular de Saúde. Quando era o Funrural, a gente apoiava, ajudava a dar os rumos. Depois como Associação Popular de Saúde eu participei da primeira direção, da fundação, da criação do Estatuto da Associação. E participamos de uma luta que teve a participação da sociedade como um todo e de muitas mulheres (P.M.C.G. Anexo T).

Dentre as várias mulheres que participaram da criação da Associação Popular de Saúde e do hospital do povo, destaca-se a figura de Ângela Mares. Sobre essa mulher comenta P.M.C.G (Anexo T):

É, a Ângela Mares, a gente tem que lembrar o seguinte, porque ela nasceu, a nível de consciência, das comunidades de base. Ela participou da primeira comunidade de base, ou seja, Grupo de Evangelho, depois comunidade, comunidade da Gogó, aonde eu morava. [...] Ela nasceu dali. Eu me lembro como hoje, dela amamentando as suas filhas nas reuniões, carregando pra lá, pra cá, criando os filhos e participando. E depois então, ela foi crescendo, em

todo o trabalho e veio a participar da Associação Popular de Saúde. Quando ela faleceu ela tava na direção (P.M.C.G. Anexo T).

No dia 16 de outubro de 1987 foi realizada uma grande manifestação pela saúde, nas ruas da cidade de Itapuranga. Os manifestantes ocuparam a Prefeitura e nela permaneceram por três dias. A manifestação exigia da primeira dama - que era a presidente do CIMS (Comissão municipal de Saúde) e tinha a função de gerenciar o SUDS – a manutenção e o funcionamento do hospital popular e a liberação de recursos para o atendimento ao povo mais pobre. Por esta razão muitas pessoas foram intimadas pela polícia civil e tiveram que comparecer na delegacia para prestar depoimento. Entre elas estavam algumas mulheres - Ângela Mares Rodrigues de Oliveira, Maria da Silva Pires, Perpétua Maria de Camargos Gontijo, Maria Helena Skovronski, Maria Teixeira de Borba, Adelina Rocha Teixeira, Isabel Batistela Ferreira e Maria Ferreira Bonani (ALBUQUERQUE, 2003).

Todas essas mulheres que foram à delegacia, “prestar esclarecimentos” às autoridades, participavam das comunidades de base e de outras atividades paroquiais e diocesanas da Igreja de Goiás.