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4. INTERSECCIONALIDADES DA PAQUERA MASCULINA

4.4 A “PERFORMANCE GRUPAL”

No ritual de esquadrinhamento – tanto durante as festas eletrônicas quanto nos perfis do Facebook –, os corpos eram enquadrados também de acordo com a performance de classe ou de grupo social que expressava e materializava os seus pertencimentos sociais e/ou identitários. Além das vestimentas, dos grupos de amigos com quem se relacionava determinado participante e dos produtos consumidos durante a festa, a classe social de um frequentador era avaliada também a partir de rápidas investigações entre os “estabelecidos” da festa. Essas informações se agrupavam às observações da performance encenada durante o evento e permitiam a identificação da classe social dos frequentadores de acordo com os colaboradores.

No surgimento dessas festas – iniciadas nos motéis fora do perímetro urbano – a seleção dos frequentadores era realizada pelos organizadores e raramente os “gays de bairro” participavam. O “gay de bairro” representava a classe social menos favorecida, e, que, geralmente, era detectado por seus círculos de amizade e sua performance durante a festa. Esse sujeito também era esquadrinhado via análise dos perfis – fotos e publicações em geral.

Os afeminados, os “rasgados”, os discordantes do padrão “fitness” e os “gays de bairro”74 eram os corpos estigmatizados no campo da paquera analisado. Durante a festa, “gay

de bairro fica com gay de bairro, entendeu? Tipo isso”. O “gay de bairro” “até paquera, mas é do tipo da coisa, entendeu? É, fica na mesma classe social” (Sócrates, 2016). Esses sujeitos eram diferenciados pela articulação reducionista entre pobreza financeira e cultural, a “fechação” e, às vezes, a promiscuidade: “as marcas de gênero são as que mais se evidenciam

na corporificação desses estigmas de pobreza, ausência de refinamento cultural e certa propensão à promiscuidade” (SIMÕES, FRANÇA, MACEDO, 2010, p. 53).

Concluir que a paquera masculina era marcada e ocorria no campo da classe social, ou seja, que os sujeitos apenas paqueravam outros da mesma classe cuja definição era realizada via esquadrinhamento da performance, seria reduzir a marcação da paquera. A classe social era um dos eixos que diferenciava os corpos na economia da paquera, mas outros elementos diferenciadores se entrecruzavam com a classe quando a paquera ocorria nas festas e no Facebook. Os participantes quase sempre frequentavam essas festas em grupos de amigos e/ou conhecidos.

Os grupos de amigos e/ou conhecidos atuavam como cupidos e/ou fonte de informações em relação aos pretensos alvos de paquera. Cada grupo parecia se constituir num pequeno sistema social, nos termos de Goffman (2010), cujos integrantes se divertiam, bebiam, paqueravam e disputavam reconhecimento de desejabilidade balizados por determinada “performance de grupo” padronizada que, de certa maneira, os diferenciavam em relação aos outros grupos e os identificavam enquanto grupo social distinto. Nas festas, os jovens transitavam por diferentes grupos e “ajuntamentos”, 75 mas, normalmente se fixavam em algum deles. Os colaboradores relataram que se formavam “ajuntamentos” de conhecidos ou recém-conhecidos especificamente nos dias de festa através do Facebook e do whatsapp. Ricardo assevera que existiam pessoas que somente se encontravam nas festas e que depois o contato permanecia apenas virtualmente.

Ao contrário desses ajuntamentos que se formavam esporadicamente antes ou durante as festas, os grupos sociais poderiam ser definidos pelo compartilhamento de estilos de vida: modos de se vestir, comportar-se, de consumir determinados produtos ou marcas, valores e moralidades. Poderíamos acrescentar, nessa definição, o compartilhamento de gostos musicais, roteiros de viagens, grau de escolaridade, lugares sociais frequentados e performances específicas mais ou menos padronizadas acionadas por seus integrantes nos contextos sociais como um todo. Cada grupo social, reunido em dada ocasião social,76 possuía determinada performance social que funcionava tanto como eixo identitário aglutinador entre os seus sujeitos integrantes quanto eixo diferenciador em relação aos outros grupos sociais copresentes.

75 É uma unidade básica de interação formada por dois ou mais indivíduos que se encontram na copresença.

Essas interações – de durabilibilidade inconstante – possuem níveis diferenciados de engajamentos e podem se transformar num pequeno grupo social (GOFFMAN, 2011).

76 É uma unidade sociopsicológica mais ampla, que serve de referência para ocorrência dos ajuntamentos e

Os sujeitos que pertenciam a uma mesma classe social integravam grupos sociais diferenciados. Nas festas, os grupos de amigos geralmente se diferenciavam pelo consumo de determinadas bebidas, assuntos e brincadeiras compartilhadas, performances de dança e posturas com relação aos processos de paquera. Em contextos de paquera, talvez determinados grupos lutassem pela distinção e intensificação de certa “glamourização” em relação aos outros grupos. As performances sociais de grupo que os identificavam e os diferenciavam funcionavam como dispositivos de materialização do status de seus integrantes como valorizados parceiros amorosos. Durante as festas, determinados grupos nutriam sentimentos de repulsa e ojeriza em relação a outros grupos que expressavam superioridade. Geralmente, esses grupos de amigos eram chamados de “bicudos”, “finos”, “bestas” ou “patotinhas”.

Uma pessoa muito besta é uma pessoa que só quer andar em lugarzinho, em lugar bom. Que liga para esse status entendeu? De andar em lugar bom de só se vestir com roupa de marca, de andar com pessoas influentes, mas tipo, tem pessoas que são assim, mas são humildes. E essas pessoas mesmos não são humildes, pessoas que não tem humildade (Sócrates, 2016).

A “performance bicuda” dos grupos era definida principalmente pelo consumo: bebidas, roupas e lugares frequentados que pertenciam a determinadas pessoas com razoável poder aquisitivo. Na atribuição dessa performance, os marcadores de gênero e sexualidade também eram acionados. O termo “finos” designava os grupos de másculos. E o termo “patotinhas” se referia aos afeminados e/ou “rasgados”.

Parece que a paquera entre integrantes dos grupos de amigos dependia da avaliação interseccional tanto da performance individual sustentada por determinado integrante quanto pela performance grupal que o mesmo compartilhava e expressava de alguma maneira. Luís relatou que frequentava essas festas geralmente com o mesmo grupo. Ao todo eram quatro amigos que, no início da noite, jantavam em algum estabelecimento e, depois, se encaminhavam para o local de realização do evento por volta da meia noite. No espaço festivo, eles bebiam, conversavam e dançavam juntos por algum tempo. A partir de determinado momento, eles se separavam para paquerar. E depois, aos poucos, se agrupavam para organizarem as retiradas para suas residências. Esses percursos rituais do grupo de Luís exemplificariam o que se convencionou chamar de “performance grupal”.

Essas performances também se constituíam por valores, convenções e rituais relacionados aos processos de paquera. No grupo social de Luís, os integrantes se aproximavam de seus alvos de paquera somente quando um de seus amigos “puxava a ficha”

de determinado frequentador. Nessas investigações realizadas, os participantes eram esquadrinhados como auxílio dos eixos de diferenciação – classe social, local de residência, grau de escolaridade e de “rasgação” social, por exemplo. O investigado era posicionado numa performance grupal que expressava os hábitos, costumes, valores e intencionalidades compartilhados por todos os integrantes relacionados.

Um grupo de indivíduos se utilizava de interações específicas para tornar eficaz a performance individual de seus integrantes. O termo ‘equipe de representação’ (GOFFMAN, 2009) foi necessário na compreensão das performances grupais. Tais grupos, às vezes, atuavam assegurando entre si as impressões que representavam e cooperando na manutenção de performances de algum participante da equipe ou grupo social através de “práticas defensivas” e/ou “protetoras” para manter as projeções de determinado amigo ou conhecido.

No pequeno sistema social que se formava pelas interações entre os membros de um grupo, existia uma espécie de “região de fundo ou dos bastidores” (GOFFMAN, 2009) e, nela, frequentemente os indivíduos abandonavam temporariamente suas fachadas ou as performances hegemônicas representadas durante a noite. Luís relatou que, durante os processos de paquera, não podia “rasgar”, mas, entre amigos, estava liberado. Muitos colaboradores confirmaram que um dos critérios para selecionarem os seus “crushs” era avaliá-los durante as interações com os amigos, talvez para detectar suas fachadas de bastidores.

Nos bastidores se utiliza uma linguagem informal onde pode ocorrer “observações de ordem sexual, fumos, desleixo nas posturas, uso de dialetos, resmungos, gritos, caçoadas, assobios, arrotos, flatulência” (GOFFMAN, 2009, p. 120). Além disso, o comportar-se nos bastidores – ou entre amigos mais próximos – era caracterizado pela intimidade e brincadeiras que poderiam emitir alguma informação que determinado integrante não quisesse publicizar. Nas situações sociais onde é representada a performance existe uma linguagem mais formal e determinada preocupação com a fachada – de acordo com Goffman (2009).

Durante a etnografia nas festas – em algumas situações –, determinados grupos de amigos não cooperavam para sustentar a performance de determinado participante. Pelo contrário, atuavam como público ou plateia inimiga e crítica de seus coparticipantes: observando, avaliando e identificando a quem interessasse os “defeitos” e os segredos de seus amigos talvez para inviabilizá-los como alvo de futuras paquerações.

A “performance grupal” era definida através de caracteres comuns de seus atores em contraposição aos grupos de adolescentes de acordo com os relatos: a independência financeira, nível superior de escolaridade, mobilidade para viajar – principalmente para as

capitais e frequentar grandes festas nas cidades vizinhas – cuidado com a saúde e o corpo e “não dão bandeira” (Valdo, 2013). Estes sujeitos também eram enquadrados na performance máscula e evitavam participar das festas consideradas de “viadinhos”, tais como a Estilo e a Paraíso. Perseu relatou, de maneira efeminofóbica, que ser visto muitas vezes nessas festas é “queimação de filme”. Para este colaborador a “queimadura” deixava marcas nos corpos dos frequentadores dessas festas que promoviam a identificação social da homossexualidade desses indivíduos para além dos eventos festivos. Este discurso também era compartilhado pelos entrevistados Roberto, Neto e Jorge, os quais defendiam uma maior seletividade [ou exclusão] dos “viadinhos” na organização das festas Tropical e Instinto. Em outros termos, esses indivíduos buscavam uma segregação dentro do “gueto” homossexual sobralense formado principalmente pela realização das festas eletrônicas.

A definição da performance grupal também era realizada pela análise dos perfis no Facebook: “os amigos que ele sai frequentemente, isso é notório nas fotos. O grupo de amigos que tem, que ele aceita. Você vai observar que a maioria são, se pode perceber também que são gays. Você acaba pegando essas informações” (Luís, 2015). A homossexualidade ou a curtição por homens nos usuários do “Face” era examinada através do “círculo de amizades” (Luís, 2015) expresso pelas postagens de fotos principalmente. A sexualidade dos “outsiders” ou desconhecidos no “online” para determinado paquerador constituía-se pela associação direta com a sexualidade de seus amigos ou conhecidos visualizados na rede social.

Os grupos de amigos sugeriam paqueras ou dificultavam certos processos de flerte em defesa de seu status grupal ou de seus integrantes. Geralmente, as paquerações dificultadas pelos grupos eram aquelas direcionadas aos sujeitos “galinha” ou “vassouras”. Entretanto, no grupo de amigos de Luís, “ficar” com muitos homens fazia parte da “performance grupal” que compartilhava e o termo “vassoura”, perde a potência de insulto e torna-se brincadeira:

Eles não se importam porque naquele momento é um momento de descontração. É um momento de linguajar quando as bichas estão juntas! Não se sentem ofendidos. Eles acabam se achando que estão no patamar, porque estão pegando todas, estão pegando geral... é destruidora de lares [...] (Luís, 2015).

O termo “bichas” para o colaborador Luís designava os homossexuais afeminados e “rasgados”. Estes participantes não se importavam em serem rotulados com a “performance galinha”. Pelo contrário, numa ambiência de paquera efeminofóbica, “pegar geral” significava que seus corpos eram paqueráveis e desejados.

Os grupos também marcavam paqueras ou “ficas” para algum de seus integrantes antes da realização das festas:

‘Ei tenho uma pessoa para te apresentar, não sei o que, não sei o que...’. Pode acontecer isso. Outra vez você já sabe que é para aquela pessoa x. está entendendo? Vixe vou ficar com pessoa x, já aconteceu. Colegas já ficaram com colegas... com pessoa x, já digamos, encomendadas, entre aspas (Jorge, 2016).

A paquera masculina poderia ocorrer no campo de interações entre os grupos de amigos ou conhecidos onde os integrantes atuariam, de maneira decisiva, no desenrolar do processo:

Às vezes, tem troca de olhares né, quando a gente chega no ambiente aí o cara começa a olhar e aí a gente começa a olhar aí rola aquele interesse. Tem um papinho de amigo. Ele está com uma turminha lá de amigos dele que eu conheço o amigo dele, eu tou com minha turminha e ele conhece meu amigo. E aí quando no momento de instinto, um pedi para passar o toque para o outro e tal e tal e tal. E aí rola aquele contato através dos amigos (Neto, 2015).

O relato de Neto exemplificou um dos códigos sociais do “online” e “off-line” da paquera sobralense: a utilização de um indivíduo para intermediar as paquerações. Tais códigos serão discutidos na próxima seção.