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2. PERFORMANCE, RITUAIS E PERFORMATIVIDADE

2.6 PERFORMATIVIDADE DE JUDITH BUTLER

A “performatividade de gênero” de Butler, popularizada através da publicação da obra

Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade, tem como principal centro de

interesse desconstruir os essencialismos e questionar as ontologias – especialmente as do gênero, do sexo e da identidade – como territórios demarcados por operações de poder (BUTLER, 2002).

Neste livro, a filósofa critica as essências ou verdades internas das identidades de gênero e da sexualidade e propõe considerar o gênero como performativo, ou seja, como repetição estilizada de atos que produzem e naturalizam performances de gênero inerentes aos corpos humanos. Na defesa dessa proposição, Butler (2010) também definirá a performatividade como performances contínuas que reiteram normas regulatórias como o sexo e o gênero.

Na leitura de Butler, surge o primeiro mal-entendido: entre performance e performatividade (BORBA, 2014, p. 449). Os sujeitos não poderiam trocar voluntariamente de gênero quando quisessem. O gênero é regulado pela heterossexualidade compulsória. Como performance, o gênero, como também o sexo, a sexualidade e o desejo seriam limitados pela performatividade (Ibid., p. 450). Dessa forma, com o objetivo de refletir sobre esse mal- entendido, Borba (2014) inicia sua discussão recuperando os principais teóricos dos estudos linguísticos, como Ferdinand de Saussure, Noam Chomsky, Hymes, Halliday, John Austin e Jacques Derrida, para, então, chegar em Judith Butler.

Os estudos da linguagem se interessaram pela noção de performance pela força que teve em considerar a linguagem como performance na compreensão da relação entre signos linguísticos, corpo e sociedade, pois a linguagem, partindo da mente, se instala nos processos sociais via performance (BORBA, 2014, p. 460).

Este autor cita Austin e sua diferenciação entre atos constativos – descritivos e os performativos – os quais fazem coisas ao dizer. Acrescenta que o entendimento da linguagem, para além de simples meio representativo, como ação e constituinte do real, influenciará as considerações de Butler (Ibid., p. 462). E, além disso, o conceito de gênero como constituído na/pela linguagem seria complementado com a teorização de Derrida e possibilitado a noção de performatividade de Butler (BORBA, 2014; BENTO, 2006; PINTO, 2007; 2013; RODRIGUES, 2012).

Como já foi salientado anteriormente, em Derrida, toda linguagem é performativa e possui dois predicados essenciais – a citacionalidade e a iterabilidade – ou seja, a linguagem pode ser proferida repetidamente em outros contextos sociais e culturais. É nesse trânsito que reside a possibilidade de repetição subversiva, pois “repetir nunca é simplesmente copiar” (BORBA, 2014, p. 465).

Esse autor sugere, em seu artigo, focalizar o papel da linguagem nas estilizações corporais que se repetem e produzem gênero, pois a repetição produtiva dos sujeitos, como também as possibilidades de futuros alternativos, são territórios dessas estilizações (BORBA, 2014, p. 468). O termo ‘estilizações’ suspende a ‘coisa’ e desloca a compreensão para os atos

de corpos falantes que (re) criam e, eventualmente, subvertem as relações de poder (PINTO, 2007, p. 4).

O artigo de Borba (2014), seguido da leitura de Bento (2006) e Pinto (2007), são fundamentais para se entender o percurso que Butler fez da performance à performatividade. Para Joana Pinto (2007, p. 12), a performatividade é interpretada como um ato de fala pleno, sonoro e corporal, que tem a capacidade de constituir o sujeito. Entretanto, no tocante aos “atos corporais” que integram a performatividade, há uma singularidade identificada por Butler (2006): “Sempre existe uma dimensão da vida corporal que não pode ser totalmente representada, ainda que funcione como a condição por excelência e em concreto, como a condição ativadora da linguagem (p. 281 [tradução minha]).

É Butler que sugere uma diferenciação precisa de performance e performatividade. Os atos que fazem o gênero não são totalmente individuais, pois são atos que têm existência anterior aos indivíduos entrarem em cena. O gênero como ato sobrevive para além dos atores que o praticam (BUTLER, 2011, p. 79). Até aqui, a compreensão de Butler se aproxima do conceito de performance de Schechner. Entretanto, o gênero não é nem imposto ou inscrito no indivíduo. O corpo nem é um recipiente passível de inscrição cultural e nem possui existência anterior às convenções culturais as quais lhe atribuem significado (BUTLER, 2011, p. 80).

Os papéis de gênero encenados pelos corpos já estão limitados anteriormente através de regulações culturais (Ibid., p. 81). Neste ínterim, a filósofa se aproxima do conceito de performance de Goffman (2009) para depois se distanciar. A “realidade do gênero” se constitui pela performance, ou melhor, por “performances sociais continuadas” onde o ‘eu’ não é um ator que interpreta um papel ou troca de papéis de acordo com as expectativas sociais – nos termos de Erving Goffiman (Ibid., p. 83). O gênero é uma performance – um fazer – que é performativa. Um ato que se estrutura socialmente para criar a ficção de interioridade e essência dos corpos (Op. Cit.).

A performatividade não é um ‘ato’ singular e deliberado e, sim, “uma prática reiterativa e referencial mediante a qual o discurso produz os efeitos que nomeia” (BUTLER, 2002, p. 18). Gênero e o sexo constituem normas regulatórias que operam de forma performativa para materializar os corpos, ou melhor, o sexo e o gênero como essência dos corpos (Op. Cit.). Reiterando uma norma ou conjunto delas, a performatividade é ato que dissimula as convenções heterossexuais e é diferente do teatro. E a teatralidade da performatividade se deve ao fato de que é produzida aparentemente quando se dissimula a historicidade, ou sua teatralidade se tornar inevitável quando é impossível revelar completamente tal historicidade (Ibid., p. 34). Contudo, em Butler (2002), a performatividade

de gênero se liga à reiteração dos regimes sexuais que regulam as práticas humanas e possibilita que:

Não somente podemos observar como citam as normas que regem a realidade, sim também podemos compreender um dos mecanismos mediante os quais a realidade se reproduz e se altera no discurso da dita reprodução (BUTLER, 2006, p. 308 [tradução minha]).

A performance de Schechner também é repetição de certa maneira: performar é restaurar comportamentos. E semelhante à Butler, essa repetição/restauração não parte de uma essência ou um original, pois, para Schechner, o original já se perdeu no tempo pelas diversas combinações de restauramentos, e, em Butler, o próprio original, ou essência, é produzido na/pela linguagem performativa. Há, no entanto, pelo menos dois pressupostos que distanciam Butler e Schechner: a noção de sujeito e o recurso aos regimes de poder para compreender a performance.

Em Schechner (2012), o sujeito – embora limitado pela restauração do comportamento e que atua sobre ele como imperativo em determinados contextos e processos sociais – tem mais possibilidades de (re) combinar os pedaços de comportamentos de certa forma mais voluntária do que em Butler. Porém, essa pretensa autonomia não vem acompanhada por questionamentos sobre as normas regulatórias que tanto restringem/produzem as performances.

Carla Rodrigues, em suas discussões sobre linguagem, performance e gênero, cita assertivas de Jacques Derrida sobre o sujeito que balizou o pensamento de Butler. Conforme essa autora, Derrida ressalta que a perspectiva da desconstrução não liquida o sujeito, porque ele não é um ser que pré-exista fora da prática (RODRIGUES, 2012). Esse sujeito carrega sempre uma instabilidade que Butler utilizará para questionar o sujeito estável do feminismo – as ‘mulheres’.

A performatividade de Butler está fundamentada numa concepção de sujeito não voluntarista, individualista ou consumista. O sujeito é aquele submetido por um conjunto de regras que o precedem (BUTLER, 2002, p. 170). A capacidade de agência do sujeito não se vincula à sua possibilidade de escolha. O sujeito e sua ação são dependentes das normas regulatórias as quais os produzem e sua realização é produzida e constituída por atos de exclusão e diferenciação a partir da criação de um domínio de não sujeitos, degradados, não possuidores de materialidade – os corpos abjetos (BUTLER, 1998). Entretanto, Butler reitera que essa maneira de pensar o sujeito não significa negá-lo ou destruí-lo, mas, sim, interrogar

sua “construção como premissa fundamentalista ou dada de antemão” (Ibid., p. 19).

O sujeito que performa/atua é limitado pela performatividade. Ele não escolhe as performances livremente para atuar nos contextos culturais, pois ele próprio é constituído pelas normas regulatórias numa reiteração produtiva incessante a fim de minar as possibilidades subversivas. Assim, a performance subversiva não pode ser tributária de um sujeito anterior às normas ou ao gênero e à sexualidade. Tal performance somente é possível, para Butler, no interior dos regimes de poder, mais precisamente durante a performatividade: ou seja, durante as práticas reiterativas dos sujeitos que os constroem sobre as citações normativas.

A combinação de “pedaços de comportamento” – performance para Schechner – se efetiva em contextos regulados socialmente e a escolha dos “pedaços” numa listagem social específica carrega intrinsecamente o poder das normatividades sobre as possibilidades performáticas executadas.

Sobre os teóricos da performance, Carlson (2009) faz uma crítica fundamental. Ironicamente, o desenvolvimento de teorias que centralizam a performance na construção e manutenção do social tem demonstrado dificuldade no questionamento e desafio de engendrar uma prática de performance que subverta as construções sociais (Ibid., p. 196). Há críticas nesse mesmo teor direcionadas à Judith Butler por não deixar margens definidas de como subverter as normas que constituem os sujeitos e regulam as sociabilidades – principalmente num horizonte de exclusão e produção de desigualdade social. Butler não sugere agendas ou roteiros performáticos de subversão. Ela sublinha que é no ato reiterativo que se encontra a potência de mudança ou transformação social.