3. A PERFORMANCE PAQUERA
3.1 EM BUSCA DO CONCEITO DE PAQUERA
Em seu livro O negócio do michê, Perlongher (1987) define a paquera ou a deriva como uma maneira de circular característico de indivíduos do meio47 homossexual. Na sua análise da prostituição viril de rua48, o autor destaca que “a ‘paquera’ (drague, cruising, yiro, etc.) consiste numa perambulação, mais ou menos prolongada, pelas áreas da cidade tendentes a serem transitadas por homens dispostos ao prazer e às diversões” (Ibid., p. 157). Assim, paquerar é uma busca por parceiro sexual adaptada à marginalização e à clandestinidade histórica dos contatos homossexuais (Op. Cit).
47 Esse termo evoca bares, saunas, boates e regiões de prostituição de orientação homoerótica masculina
conforme Richard Miskolci (2009). Poderíamos acrescentar, também, festas e páginas nas redes sociais, sites de relacionamento ou aplicativos de paquera e “pegação”, pois o “meio” migrou para a internet – nos termos desse autor.
48 Perlongher analisa as relações entre os “michê-macho” e sua clientela no centro da cidade de São Paulo entre
Perlongher (1987) considera a paquera como um trânsito de homens nas ruas em busca de relações sexuais, ou seja, a paquera é “cruising”49 ou “pegação”.50 Na paquera, desejo e cálculo caminham juntos (Ibid., p.106). Neste tipo de paquera de rua, as possibilidades de contato homossexual são correlatas a uma paradoxal necessidade de salvaguardar o segredo da paquera, pois é homossexual e, ao mesmo tempo, a necessidade de demonstrar indícios de interesse e desejo entre homens. Além disso, paquerar também se constitui num processo ritual caracterizado por códigos linguísticos e corporais que permitem assegurar tanto o anonimato, de certa maneira, em relação aos outros, e confirmar o interesse de ambos para uma pretensa “pegação”.
A “pegação” sexual não pode ser considerada o único objetivo de quem paquera: outras finalidades constituem essa deriva. Para cada cenário cultural, e, dependendo da interação social da paquera, a “pegação” sexual pode ou não ser negociada e almejada. Em carnavais ou micaretas – carnavais fora de época –, segundo os colaboradores da pesquisa, a finalidade das pessoas é colecionar “ficas”.51 Os rituais de paquera engendrados nesse contexto não objetivam, a princípio, a relação sexual e nem um relacionamento amoroso durável. Já, nas festas eletrônicas de Sobral, muitos indivíduos paqueravam e correspondiam às paqueradas dos outros e, no entanto, não “ficavam” com ninguém. Numa das vivências, ouvindo comentários dos “estabelecidos”, a razão dessa conduta veio à tona: “tem uns que vêm só se exibir e não ficam com ninguém” (Cláudio, 2013). Em outras palavras, paquerar, talvez, possa ser uma estratégia ritual narcísica. Olavo relata ocasiões em que jovens negam a intenção de paquera após corresponderem olhadelas, sorrirem e, às vezes, iniciarem interações de face. Os rituais podem ser acionados para produzir a “glamourização” dos corpos alvos de paquerações. Corresponder a olhares – um dos rituais comum da paquera –, por exemplo, satisfaz o desejo de ser desejado.
A paquera é atravessada por um princípio tácito de disciplinamento e controle corporal. Estar na paquera é uma exigência social que encerra um pedido de autorização para o outro corpo poder se aproximar, cortejar e, possivelmente, iniciar um flerte. A paquera encerra uma regra de ouro com relação aos investimentos eróticos ao elencar o objeto do desejo. Talvez, possa ser considerado um comportamento universal apropriado e esperado
49 Termo que se refere à busca de parceiros para relações sexuais em praças, locais desertos, parques ou espaços
públicos os quais se tornam pontos de encontro ou de busca entre os sujeitos masculinos. As práticas de “cruising” se caracterizavam pelo mapeamento urbano a partir da sexualidade que, consequentemente, desenvolvia, entre os sujeitos gays, maneiras de se comunicar e se deslocar (GADELHA, 2015, p. 65).
50 É um dos termos êmicos utilizados no Brasil para denominar as práticas de “cruising” (GADELHA, 2015, p.
66).
pelos seres humanos quando o assunto é a busca por satisfação erótica ou sexual entre si. Até nas “pegações” em locais públicos específicos entre homens ocorre paquera, talvez menos ritualizada do que a paquera cuja intenção é o “fica” ou o início de uma relação amorosa. Em outros termos, paquerar é um ritual interpessoal amoroso e/ou sexual de busca e negociação dos desejos vinculados.
No escopo dessa investigação social, a paquera foi definida como um conjunto de ações que objetivam mostrar interesse amoroso e/ou sexual por alguém: “o conjunto de ações que um determinado indivíduo demonstra estar interessado em outro” (Aurélio, 2016). “Eu acho que paquera é quando você demonstra é, de alguma forma, que você está interessado em alguma pessoa. Tipo: é, eu estou numa festa, uma pessoa interessante que achei bonita, achei interessante e tudo, aí eu vou paquerar ela” (Alysson, 2016).
A maioria dos jovens entrevistados se referia à pegação como o “fica” ou a etapa final da paquera, cujo processo se instaurava através das trocas de olhares. Durante as análises, o termo “pegação” – com aspas – foi utilizado como sinônimo de ato sexual que se consegue através da paquera com intencionalidade sexual especificada – a “catação”, nos termos de alguns colaboradores. E o mesmo termo – sem aspas – identificou a fase final da paquera ou o “fica” – que pode ou não se direcionar para uma “pegação”. O colaborador Sócrates fez a seguinte diferenciação entre paquera e pegação:
Então a pegação já é o resultado de uma boa paquera né! Tipo, a paquera é mais aquele negócio da conversa boa, do descobrir como é a pessoa... E se a paquera deu certo, aí tem como resultado, a pegação. A pegação é a consequência da paquera (Sócrates, 2016).
Os colaboradores afirmaram que o termo paquera vem sendo substituído por “crush”. Essa substituição não se concretizou de forma majoritária entre os colaboradores porque esse termo carrega vários significados e interpretações. O “crush” tanto pode ser o processo de paquera em si, quanto o sujeito paquerado, um “fica” atual ou alguém que se paquera sem o outro ter consciência de ser paquerado: “Têm vários significados, tipo, uma paixonite por alguém não correspondido [...] aí a pessoa se refere como meu “crush”, quedinha, interesse, está a fim, paquera, ficante, namorado, etc. [...]” (Neto, 2015).
Têm vários significados. As pessoas interpretam de maneiras diferentes. Eu já vi gente dizer, chamar de “crush” alguém que elas estavam interessadas, somente elas estavam interessadas. Já vi outras pessoas falando que “crush” era alguém que elas estavam ficando... aí, depende muito do entendimento de cada pessoa (Aurélio, 2016).
Parece que o termo “crush” está relacionado à paquera na cibercultura. Quando os colaboradores relatavam seus processos de busca no Facebook e, às vezes, nos aplicativos, o termo “crush” era sempre acionado. De maneira geral, nos relatos, o termo paquera se relacionava ao processo no “offline” e “crush” no “online”, embora esses termos se referissem ao mesmo processo ou alvo da busca.
Acho que paquera é mais uma coisa presencial no momento: eu estou num local, achei a pessoa interessante, eu vou paquerar ela! Talvez ela seja o meu “crush”, quem sabe! Quem sabe é o meu “crush” do Facebook. Eu encontro pessoalmente [...], quem sabe eu tenho coragem de paquerar entendeu? Aí pode ser um paquera, mas não necessariamente. Se for, você já, o cara já... – cara ou então a mina – já é o seu “crush’ no Facebook. Aí você vê pessoalmente. Aí você paquera, se torna um paquera, eu penso assim (Alysson, 2016).
No relato de Alysson, o “crush” passa a ser considerado “um paquera” quando ele toma consciência de que é paquerado. Assim, “crush” se relacionava àqueles amigos do Facebook cujas interações virtuais ainda não tinham se definido como uma situação de paquera.
Os principais significados acionados para esse termo – quedinha, “fica”, lance – podem estar vinculados ao afastamento da ideia de duração, ritualização demorada e romantismo a que o termo paquera remete. Jorge ratificou que o “crush” era uma modernização do termo paquera e estava relacionado ao “ficar”.
Talvez “crush” esteja relacionado às características do amor líquido elucidadas por Bauman (2004): efemeridade, velocidade, descarte e desapego constante. Assim, a paquera é “crush” – rapidez, mais direta e menos ritualizada – quando objetiva o “ficar” ou a “pegação” efêmera. Nestes termos, talvez, a paquera-“pegação” tenha sido, desde sempre, “crush”: não é que na paquera existia mais rituais; é que, no “crush”, os rituais da paquera “à antiga” são geralmente aligeirados, saltados ou antecipados para aumentar a eficácia na pegada ou “fica” e evitar, de certa forma, a ocorrência do “toco”52ou “fora”.
O ato de paquerar encerra uma atividade de busca que objetiva alguma finalidade através de rituais específicos de tentativa de aproximação e interação com seus alvos correspondentes. Este ato é um ritual cerimonial, ou seja, reafirma valores sociais (GOFFMAN, 2009) e guia os indivíduos em seus comportamentos por regras de conduta (Id., 2011) exigidas dependendo do contexto cultural. A existência da ritualização na paquera e na “pegação” entre homens pode ser justificada por Tiago:
52 Termo êmico utilizado como sinônimo de “dar um fora” em alguém: “É um tipo de fora na pessoa. É, tipo
assim, dá o toco, é quando a pessoa, por exemplo, tu vens e pedes para ficar comigo, aí eu te dou um fora. Aí é um toco que eu tou, que eu não quero, tipo isso” (Fábio, 2016).
Mas geralmente, assim, para um homossexual é muito difícil: eu olhar para ti e saber se tu gostas ou não gosta de homem. Então a gente vai lá conversa e tudo, sabe da vida da pessoa. Com o passar do tempo a gente já pergunta, ‘aí tu curtes o que? ’, geralmente né o pessoal pergunta: ‘tu curtes o que? ’. Como assim... ‘curte homem ou mulher? ’. A pessoa vai lá e responde: homem ou mulher. Aí então, dependendo do que ela responder a gente continua né. Se responde que curte ficar com homem também, a gente vai lá e continua conversando. E tudo aí, se a conversa seguir, a gente marca de ir se conhecer (Tiago, 2016).
Tiago sublinhou a importância que os rituais nas paqueras entre homens possuem na definição de uma situação de mútuo interesse amoroso e/ou sexual, pois a homossexualidade não pode ser decretada apenas pela troca de olhares. A pergunta sobre a curtição por homens realizada por grande parte dos colaboradores objetivava iniciar uma paqueração masculina onde um dos envolvidos no processo do flerte resguardava sua homossexualidade no armário ou se considerava heterossexual que curtia outros homens. A discussão sobre a curtição será detalhada no quinto capítulo.
Paquerar é uma cerimônia, principalmente se os indivíduos estiverem sozinhos, sem a segurança e a proteção grupal. Nessa situação, são dois “estranhos” num jogo corpóreo onde imagens, identificações, avaliações, recusas e aceitações são articuladas e negociadas num curto período de tempo para um rápido processo decisório. É justamente pela rapidez e o pouco tempo disponível para decidir, que os indivíduos selecionam ou se envolvem com as imagens de fachada e porte observados no outro – objeto da paquera.
O emprego dos rituais de paquera tem função diferenciada tanto na paquera de rua – onde o acaso, o novo, o inesperado, a aventura (PERLONGHER, 1987) e a diversidade de interesses e preferências são características – quanto em festas eletrônicas e no Facebook, ou em contextos que pertencem ao “meio” homossexual – onde essa diversidade também se apresenta.
Nas festas eletrônicas gays sobralenses, os rituais não objetivavam salvaguardar o anonimato dos interesses amorosos entre os corpos masculinos, pois os colaboradores afirmavam que os participantes dessas festas eram considerados homossexuais ou que potencialmente “curtiam”, ou seja, quem frequentava essas festas já tinha o seu interesse por contatos homossexuais presumido com antecedência pelos participantes desses eventos. Os rituais asseguravam – além de um processo de seleção cuidadoso, principalmente no início das festas ou na cibercultura – a valorização ou “glamourização” dos corpos, a estigmatização
ou inferiorização frente aos outros: “queima o filme ficar com esses viadinhos pão com ovo53 [...]” (Roberto, 2013).
Roberto avaliava ser extremamente negativo ficar com os indivíduos afeminados e que não “tem cultura”. Para ele, ficar se “rasgando”, ou seja, dançando em frente ao telão significava não possuir cultura. Outros colaboradores compartilhavam da mesma opinião de Roberto: “ficar com bicha rasgada54 é o fim”. Por esse motivo, diziam ser muito cautelosos ao
selecionarem seus “ficas”. Neste sentido, a ritualização buscava evitar os “ficas” com os “rasgados” ou “afeminados” como, também, manter ou demonstrar maior status corporal na situação em que alguns se consideravam “glamourizados” e julgavam outros corpos como inferiores.
O colaborador Roberto não se considera afeminado e se autoidentifica como um homem másculo. Essa visão preconceituosa e quase abjeta em relação aos “rasgados” foi compartilhada por um número considerável de entrevistados. Em contrapartida, Alex se considera afeminado e se “rasga” nas festas. Em determinada edição, ao deixar o espaço da suíte em que havia uma exibição de clipes e os participantes ficavam dançando, Alex comenta que a partir daquele momento se deslocaria para o dance principal com a intenção de paquerar. Entretanto, para ser reconhecido como alvo de paquerações, ele deveria “dar uma de boy”, ou seja, encenar uma performance máscula, pois de acordo com seus relatos, másculo somente paquerava másculo. Assim, como Alex, Luís e Jorge se consideravam afeminados que se “rasgavam” na festa e estigmatizavam os participantes afeminados e/ou “rasgados” quando se envolviam em processos de paquera com eles.
O ato de se “rasgar” nas festas eletrônicas estava relacionado, geralmente, às performances de dança, ou, mais precisamente, a determinado estilo de dançar. As danças que se assemelhavam às coreografias dos/as bailarinos/as das “divas do pop”55 e que se
distanciavam de passos de dança considerados masculinos foram apontados como critérios para avaliação de uma dança como “rasgada”: “[...]. Aí nessas olhadas a gente lógico que olha
53 A expressão êmica “viadinho pão com ovo” é citada, também, como “bicha pão com ovo” – termo
depreciativo utilizado pelos próprios homossexuais “para designar rapazes mais pobres que moram nos bairros mais distantes e dependem de transporte público ...”. E o termo “bicha quá-quá” para classificar “rapazes mais afeminados e espalhafatosos” (SIMÕES; FRANÇA; MACEDO, 2010, p. 52). Entretanto, o “viadinho pão com ovo” de Sobral aglutina a “bicha pão com ovo” e a “bicha quá-quá”, pois se refere aos afeminados e, em certo sentido, aos participantes por sua expressiva “rasgação” ou efeminamento dançante publicizados e sua condição financeira e escolar: “bichas pobres e sem perspectiva de vida, mal têm o ensino médio...” (Roberto, 2013).
54 Termo êmico que se referia aos homens muito afeminados ou trejeitados e que não se preocupavam em
esconder publicamente seus trejeitos e até utilizava a sua condição “rasgada” para se divertir entre conhecidos ou amigos em dado contexto social, por exemplo.
já para quem é homem. Eu, no meu caso, eu olho para quem é homem, que eu detesto ver aquelas bichas todas rasgadas nesses ambientes [ risos]” (Neto, 2015).
A fala preconceituosa de Neto reiterou a preocupação hegemônica durante os processos rituais de paquera no “online” e “offline” de evitar paquerar ou se relacionar com os “rasgados”. Se nas festas, a identificação desses corpos era facilitada pelos trejeitos e pela performance dançante, no “online”, a análise das fotos e dos amigos em comum funcionavam como rituais de identificação desses sujeitos estigmatizados como alvos de paquera.
Primeiro eu vou ver nas fotos. Nas fotos, sempre tem um daqueles amigos que é mais afeminado, que vai dar pinta e você vai cair a ficha. Por exemplo, ele está numa foto. Tem várias meninas. Tem ele e tens uns amigos que são gays, gays declarados. Tem um deles que sempre é mais pintoso e você percebe de cara (Luis, 2015).
As danças consideradas “rasgadas” eram caracterizadas também por “acompanhar o conteúdo das letras com gestos de mãos que expressem alguns versos” (SIMÕES, FRANÇA, MACEDO, 2010, p.57). E as másculas se assemelhavam aos gestos e movimentos que destacassem a musculatura bem definida pelos esforços da malhação. Ao invés das posturas das “divas do pop” (Neto, 2015), o modelo performático viril eram os “gogoboys” ou “gogodancers” que, geralmente, trabalham em grandes boates. Tais movimentos dos corpos viris e malhados eram antagônicos aos movimentos dos corpos estigmatizados, “rasgados” ou “fechosos”. Nestes últimos, o sistema de referência para avaliação de suas performances de dança eram as performances das “divas” pop, as de “drag queens” e transformistas em suas apresentações artísticas. Os pontos fortes dessas danças “rasgadas” eram: o “bate cabelo” – giros rápidos e violentos ou pausados e delicados com a cabeça ao ponto de desenhar no ar círculos com o cabelo ou com a peruca –; as rabisacas; as dublagens das músicas; as simulações de desfile numa passarela com salto alto; os giros, os movimentos circulares e alongados dos braços e mãos; e as paradas com uma ou duas mãos na cintura para finalizar a performance. Através da dança, os corpos poderiam iniciar, desenvolver ou finalizar rituais de paquera:
E depois do olhar, tem que rolar talvez uma dança, uma dança mais sensual de uma das partes, porque talvez, quando você está a fim de alguém, você, na festa, você olha para pessoa, e aí você não está com tanta coragem de abordar lá a pessoa. Aí o que é que você faz, começa a dançar, nem sempre isso acontece... Pessoas tímidas não vão dançar. Mas já vi pessoas que usam desse artifício da dança, para chamar atenção. Não é, o meu caso não. O meu caso é partir para conversa. Eu vou lá e parto para conversa. E aí, eu vejo se o diálogo é interessante... (Ricardo, 2016).
Geralmente, os corpos não vinculados a esses dois padrões estéticos e performáticos, dançavam mais livremente e de forma diversificada. Eles tinham pouco destaque na pista de dança e no espaço da festa como um todo. Eles transitavam em suas paquerações através de performances alternativas a esses dois polos. Além de serem pouco visualizados, esses “normais” são comumente denominados de “come quieto” (Perseu, 2014).
A “rasgação” era um comportamento típico de homens “morta de mulher”, ou seja, “bem afeminados, que tem trejeitos, que dança mesmo na festa, dá pinta56 de gay” (Ricardo,
2016). Tanto em determinados momentos das festas quanto na vida cotidiana, a “rasgação” se assemelhava à“fechação” – gíria homossexual – que “se refere a um comportamento caricato, desmunhecado e escandaloso” (MacRAE, 2011, p. 28). Os afeminados cuja “rasgação” e/ou “fechação” era considerada possível a qualquer momento eram descartados como alvos da paquera hegemônica. De início, essas falas transmitem a ideia de que os “rasgados” não paqueravam e apenas participavam das festas através de performances-entretenimento.
Os trejeitos femininos e determinados estilos de dança funcionavam como estigmas57 que inferiorizavam os corpos masculinos na economia da paquera. Esses estigmas ratificavam a homossexualidade desses participantes.
Eu acredito que as pessoas têm vergonha de estarem com eles. De, enfim, eu vou usar aqui umas expressões, uns termos que até, é, meio vulgares, mas [...] É assim: quando a pessoa é, quando se eu ando, se eu falo, é, convivo, me interesso por alguém, com trejeitos femininos – um rapaz com trejeitos femininos – é, as pessoas dizem assim, vão logo, taxar, né, embora pra mim eu não tenha esse problema, porque, eu tenho amigos transexuais e travestis e ando sem vergonha nenhuma, por qualquer lugar que eu vou. Mas aí para algumas pessoas, os afeminados são muito vulgares, são muito, é, bichonas, muito menininhas, certo! E, é isso, assim, pensam, fazem isso, falam até, assim ‘como é que dá certo duas bichas juntas’, né, ‘dois viados juntos!’ Porque para eles, viado é um, é um viado afeminado, né. Acham que bicha, é uma bicha afeminada. Eu acho que é isso [...] (Hugo, 2016).
Hugo salientou o caráter flutuante da estigmatização dos corpos “rasgados” e/ou afeminados. Eles poderiam ser estigmatizados durante os processos de paquera, mas poderiam ser reconhecidos como sujeitos para investir em laços de amizade. Este colaborador sublinhou o preconceito e a discriminação impostos a esses corpos não apenas nas paquerações, mas também na vida cotidiana. Os termos “bichona”, “meninazinhas” e “bicha afeminada” reforçam o binarismo heteronormativo e expressam o repúdio aos corpos masculinos que performam um estilo feminino.
56“Dar pinta” é uma expressão acionada pelos colaboradores para identificar performances que materializavam o
efeminamento ou a “bichice”.
57 Estigma é um sinal corporal – que materializa uma desvantagem, fraqueza ou defeito – utilizado para justificar
A performance “rasgada” estigmatizava os corpos na economia da paquera e para além dos espaços festivos. A dança “rasgada” materializava o excesso de “afeminamento” e a consequente exposição pública da passividade dos corpos masculinos no tocante à prática sexual. Para os colaboradores, toda bicha que se “rasgava” na festa, era “rasgada” na vida cotidiana e preferiria ser “passiva” no ato sexual.
Tenho certeza que sim, né. Porque, por exemplo, se eu sou uma pessoa, só passiva,