• Nenhum resultado encontrado

2. PERFORMANCE, RITUAIS E PERFORMATIVIDADE

2.4 O PROCESSO RITUAL NA COPRESENÇA

Goffman é o primeiro teórico de referência a utilizar o termo performance em seu livro

A representação do eu na vida cotidiana (SCHECHNER, 2012). A noção de performance de

Goffman se refere a um comportamento ritualizado de atores que desempenham papéis sociais no cotidiano. Esses papéis são pré-definidos socialmente, conforme a expectativa da plateia (SILVA, 2005, p. 42).

A definição de performance de Goffman está ligada a uma atividade individual que ocorre na presença contínua de observadores e que os influencia. Esta definição traz problemas, suposições e preconceitos, conforme Carlson (2009). Ele assevera que este teórico da performance social, por não destacar a produção consciente da performance, enfatiza a possibilidade dos indivíduos se engajarem na performance sem estarem cientes (CARLSON, 2009, p. 49). É esse engajamento não consciente em performances sociais repetidas – performatividade butleriana – que aproxima Goffman e Judith Butler. A preocupação de Goffman está na relação entre performer e audiência e como a performance é reconhecida e funciona na sociedade (Ibid., p. 50).

Para Goffman (2009, 2010, 2011), a performance é constituída por rituais que objetivam sustentar um equilíbrio nas interações sociais. Em qualquer situação social, o comportamento dos indivíduos é guiado por regras e convenções pré-estabelecidas cuja função principal é assegurar que determinado papel social atribuído esteja sendo performado. Em suas considerações teóricas, as improvisações, criações ou subversões dos indivíduos podem ser compreendidas no seu (re) estabelecimento das ordenações sociais.

Os rituais performáticos produzem os indivíduos. Estes praticam as ações sociais como sujeitos voluntaristas que sempre escolhem se ajustar às regras de conduta socialmente determinadas. Em Goffman, os atores sociais encenam os roteiros sociais num mecanismo reiterativo. De forma consciente ou não, a performance é uma atividade acionada pelos indivíduos quando estão na copresença de alteridades tanto para sustentar uma interação quanto para terminá-la. Destaco, a seguir, alguns conceitos de Goffman que foram utilizados para elucidar as performances de paquera entre homens nos contextos culturais analisados.

Em Goffman (2009), a metáfora da cena teatral é utilizada para se referir ao relacionamento social comum. O mundo social é considerado essencialmente um palco. Neste, os indivíduos se diferenciam pela sua capacidade de dar impressão – ou “expressividade” – durante as interações “face a face”, as quais se caracterizam pela influência mútua entre os indivíduos sobre suas ações ao se encontrarem na presença física uns com os outros (Ibid., p. 23).

Os indivíduos, nas suas interações, atuam de maneira a transmitir aos outros uma impressão de seu interesse para regular a conduta e a forma como são tratados pelos outros. Nessa atividade expressiva, eles perseguem a edificação de uma “definição da situação” que é constituída pelas informações que os outros possuem a respeito dele, cujas fontes de obtenção são muitas: aparência e conduta, experiências passadas, semelhança aparente de indivíduos, aplicação de estereótipos e confiança nos discursos e documentos que o indivíduo oferece (GOFFMAN, 2009, p. 11).

Na presença dos outros, o indivíduo procura controlar e manter a impressão que estes recebem da situação; por isso que ele emprega técnicas como as ‘práticas defensivas’ e as ‘protetoras’ ou ‘de diplomacia’ (GOFFMAN, 2009, p. 22). Nas primeiras, o indivíduo emprega estratégias para proteger suas próprias projeções. E, nas últimas, para salvaguardar a projeção definida por outro indivíduo em dada situação (Op. Cit.). O autor acrescenta que tudo o que é transmitido é avaliado pelos outros e, por essa razão, para cultivar uma impressão, é necessário empregar as práticas defensivas (Ibid., p. 16).

Para Goffman (2009), a performance é uma atividade em que o indivíduo permanece na presença de observadores e detém alguma influência sobre eles. Nessa atividade, valores sociais comuns e oficiais são ressaltados. Por essa razão, ela é considerada uma cerimônia – “um rejuvenescimento e reafirmação expressivas dos valores morais da comunidade” (Ibid., p. 41). Vinculado a padrões ideais, o indivíduo, durante a performance, deve abandonar ou esconder ações incompatíveis com as impressões que objetiva expressar: ele deve empregar,

intencional ou de maneira inconsciente, uma fachada, ou seja, um equipamento padronizado de expressão (Ibid., p. 46).

O autor enfatiza dois tipos de fachada: a social e a pessoal. Na segunda, os itens expressivos identificam o ator de modo mais íntimo. São incluídos, aqui, os distintivos da função ou categoria que podem variar – serem móveis ou transitórios – tais como o sexo, idade, vestuário, expressões faciais, padrões de linguagem e gestos corporais (GOFFMAN, 2009, p. 31). A fachada social tende à institucionalização em relação a “expectativas estereotipadas abstratas” e a tornar-se uma ‘representação coletiva’ (Op. Cit.).

Na obra Rituais de interação, Goffman (2011) retoma o conceito de “fachada” relacionando-o com a “linha”. Nessa obra, fachada é definida como a imagem delineada em consonância com “atributos sociais aprovados” (GOFFMAN, 2011, p. 14). A linha é o padrão de comportamento que o indivíduo assumiu conforme a avaliação dos outros e por onde ele está autorizado a se mover. E a fachada é a imagem que o indivíduo preserva através dessa linha. O roteiro assumido ou o valor social positivo reivindicado pelo indivíduo ao se movimentar numa linha constitui a fachada de uma performance (Ibid., p. 13).

Para o autor, a aceitação mútua de linhas – de caráter prático e não ‘real’ – é uma das características estruturais básicas da interação e atua de forma conservadora sobre os encontros ou “engajamentos de face” (GOFFMAN, 2011, p. 19). Esses engajamentos são caracterizados pelo autor como um círculo típico de conversa onde existe um foco único de atenção cognitiva e visual entendido como obrigatório pelos participantes da interação (GOFFMAN, 2010, p. 258).

A fachada é uma manifestação da leitura, interpretação e avaliação feita pelos outros durante o movimentar-se dos indivíduos. “Estar com ou manter a fachada” (GOFFMAN, 2011, p. 14) é quando há correspondência entre a linha e a imagem consistente apresentada e essa correspondência tem apoio e confirmação dos outros indivíduos observadores.

Quando uma informação trazida pelo indivíduo não puder ser integrada com a linha que ele mantém, o indivíduo “está com a fachada errada” (Op. Cit.). Ou, se o indivíduo, no contato com os outros, não possuir uma linha pronta esperada ao participar do contato, ele “está fora de fachada” (GOFFMAN, 2011, p. 14-16). Nas duas situações, o indivíduo pode se sentir envergonhado ou inferior.

Goffman ressalta que cada pessoa, subcultura ou sociedade possui um repertório particular de práticas de salvamento da fachada. Preservar a fachada encerra ações utilizadas pelos indivíduos de construir a correspondência de suas ações à fachada (GOFFMAN, 2011, p. 20). Os mecanismos necessários para manter a fachada fazem parte de uma ordem

expressiva ritual (Ibid., p. 26). A capacidade para realizar isso é comumente denominada por tato, diplomacia ou habilidade social. Entretanto, para iniciar o salvamento, o indivíduo deve se conscientizar das interpretações que os outros têm sobre seus atos e das interpretações que deve colocar sobre os deles (GOFFMAN, 2011, p. 21).

A necessidade da preservação da fachada e seu salvamento devem-se ao fato de que ela é o maior princípio da ordenação ritual das interações (GOFFMAN, 2011, p. 48). O ritual é a forma de mobilizar os indivíduos para se autorregularem nos encontros sociais. Esse fato explicaria uma “natureza humana universal” (Op. Cit.). Assim, um ser social é um ser ritualizado ou é na ritualização da conduta humana que nasce o ser social. É preciso, entretanto, que elementos de comportamento sejam enxertados na pessoa para transformá-la em um participante da interação ou adquira essa “natureza universal” (Ibid., p. 49). Na preservação da fachada, os indivíduos podem se utilizar de dois tipos básicos. O primeiro é o “processo de evitação”, que consiste em evitar contatos em que há previsões que as ameaças ocorram. Num encontro, a pessoa, como medida defensiva, “se mantém longe de tópicos e atividades que levariam à expressão de informações que seriam inconsistentes com a linha que ela está mantendo” (GOFFMAN, 2011, p. 23).

O “processo corretivo” é o segundo tipo de preservação. Ele é acionado quando os participantes não conseguirem evitar a ocorrência de um evento incompatível com os juízos de valor social a serem mantidos e difíceis de serem ignorados. Assim, confirmado uma ameaça à fachada, é necessário tentar corrigir os seus efeitos (GOFFMAN, 2011).

Em Goffman (2011), os engajamentos de face ou encontros sociais são iniciados e mantidos através de um equilíbrio ritual. Os participantes dos encontros se preocupam em preservar ou salvar suas fachadas que estão intrinsecamente relacionados à linha, ou seja, aos padrões de comportamento socialmente aprovados pelos contextos específicos.

Na “copresença”, o pequeno sistema social que se instaura é constituído por convenções, práticas e procedimentos que funcionam como guia de orientação e organização do fluxo de mensagens (GOFFMAN, 2011, p. 39). Na interação falada, é empregado um conjunto de gestos significativos que objetivam: o início de uma comunicação; a legitimação dos participantes em determinado engajamento; a permissão da entrada de novos participantes ou o término do “estado de fala” (Ibid, p. 40). O “estado de fala” é instaurado através da “ratificação recíproca”, isto é, quando as pessoas se mostram propensas a se comunicarem umas com as outras e garantir o fluxo da conversação (Op. Cit.).

No encontro conversacional, o indivíduo pode ficar ou não envolvido. Em Goffman (2010, p. 54), o envolvimento é a capacidade de concentrar sua atenção numa determinada

atividade. Ele pode ser principal ou lateral. No primeiro, o indivíduo disponibiliza a maior parte de sua atenção e interesse numa atividade específica. E o segundo é constituído por ações sem ameaçar ou comprometer a manutenção de um envolvimento principal.

O envolvimento principal espera-se que seja dominante em relação às outras atividades em execução. E o lateral pode ser subordinado (GOFFMAN, 2010). A avaliação sobre o grau de envolvimento – principal ou lateral – durante uma conversa de paquera foi apontada pelos colaboradores como um dos principais indícios para continuar o encontro conversacional ou terminá-lo. O envolvimento lateral foi considerado, muitas vezes, uma forma de “cortar” o encontro de paquera.

A “interação focada” é caracterizada pelo envolvimento principal. Nesse tipo de interação, existe apenas um foco de atenção principal, em que os participantes de um encontro estão preocupados em sustentar (GOFFMAN, 2011, p. 128). Nas festas eletrônicas, por exemplo, os indivíduos podem conversar com seus amigos compartilhando assuntos e brincadeiras em que todos do grupo direcionam seus focos de atenção principal. Entretanto, esses indivíduos que conversam e brincam em grupo, em relação aos outros participantes da festa, podem não compartilhar do mesmo foco de atenção. Assim, essas interações em que os indivíduos não compartilham de um foco de atenção são denominadas de “desfocadas”. Um dos rituais praticados nas interações desfocadas é a coleta de informações sobre determinada pessoa através da “desatenção civil”: um olhar sem demonstrar curiosidade, espanto ou interesse (Ibid., p. 139).

A “desatenção civil” encerra uma espécie de cortesia mínima em que o indivíduo rapidamente avisa pelo olhar que identificou a presença de outro e que, ao retirar o olhar, expressa que não tem nenhuma curiosidade ou objetivo de iniciar uma interação qualquer (GOFFMAN, 2010, p. 96). A infração desse ritual interpessoal pode significar abertura para uma interação, como, por exemplo, uma paquera.

Além da infração desse ritual, para se instaurar um engajamento de face ou encontro social, o indivíduo tem a obrigação de emitir aberturas que sejam reconhecidas pelos outros. Um indivíduo que objetive se engajar com outro precisa reconhecer essa abertura e retorná-la através de algum sinal com olhos, gestos, voz ou posturas quaisquer (GOFFMAN, 2010, p. 104). O autor acrescenta que há lugares reconhecidamente considerados como “regiões abertas” onde as pessoas – conhecidas ou não – podem iniciar engajamentos de face com alguém (Ibid., p. 146).

Uma festa social e um perfil público do Facebook podem ser considerados “regiões abertas” para a paqueração. Diferentemente de outros contextos sociais e que possuem

diferentes códigos de sociabilidade, de antemão, é permitido que os indivíduos busquem aberturas para iniciar um engajamento.

Tem é, como eu disse, quem vai para esse tipo de festa, já tem que ir preparado para tudo, né, como eu disse. Paquerar, ser paquerado, sendo acompanhado ou não, porque o ambiente já é propício a isso: à paquera, até mesmo, as festas, né, pelo ambiente, pelo local... E as pessoas que já vão muito, todas já vão, mas – não vou generalizar – mas a maioria já vai pensando nisso mesmo, né! De ficar mais à vontade, de poder fazer o que não pode fazer num local aberto, né. Aí a diferença é essa: porque o ambiente já é propício, o ambiente, tudo já é propício para aquilo (Olavo, 2016).

Entretanto, o tipo de abertura percebido pelos indivíduos e as condutas relacionadas às aproximações de paquera são dependentes dos rituais estabelecidos para essas atividades e dos códigos de significação atribuídos pelos envolvidos na paquera.

Os seres humanos são formados através da organização ritual dos encontros sociais. Estes são guiados por regras de conduta que impregnam todas as atividades e resultam na padronização do comportamento (GOFFMAN, 2011). Dentre essas regras, o autor se propõe a estudar a cerimônia que guia a conduta humana na comunicação. Esse tipo de regra é diferente da lei, moralidade e da ética, as quais conduzem os seres humanos por questões significativas da existência social (Op. Cit.).

No escopo da pesquisa, os componentes básicos da cerimônia – a “deferência” e o “porte” – foram acionados para analisar os rituais de paquera. A “deferência” – percebida em saudações, elogios e desculpas – é um meio simbólico de comunicar apreciação ou estima para um receptor ou para algo que ele simboliza ou representa (GOFFMAN, 2011, p. 59). De caráter variado, é um ritual interpessoal de proteção e projeção das implicações simbólicas dos atos dos indivíduos em relação a um objeto que possua especial valor para ele (Ibid., p. 60).

A deferência pode assumir a forma de “ritual de evitação” e “ritual de apresentação”. Os “rituais de evitação” são empregados onde a deferência leva o ator a manter distância do receptor através de proscrições, proibições e tabus que objetivam respeitar esse direito do receptor (GOFFMAN, 2011, p. 65).

Os “rituais de apresentação” – segundo tipo de deferência – funcionam para confirmar aos receptores que são estimados em determinada interação e sinalizam para o tratamento que está por vir, ou seja, eles especificam o que deve ser feito (GOFFMAN, 2011, p. 72). O autor considera que, na sociedade, há uma dialética constante entre rituais de apresentação e de evitação (Ibid., p. 78).

O “porte” é o outro elemento básico do comportamento cerimonial individual. Ele serve para expressar aos outros as qualidades desejáveis ou indesejáveis de um indivíduo através da postura, vestuário e aspecto. O “porte” é uma imagem de si para os outros (GOFFMAN, 2011, p. 78-79). Ele é o que fica nos outros da interpretação da performance de um indivíduo qualquer.

O autor destaca que as sociedades e as subculturas diferentes têm formas diferentes de comunicar a deferência e o porte, inclusive para o mesmo ato. Isso pode gerar dificuldade cerimonial (GOFFMAN, 2011, p. 85). A institucionalização das práticas de deferência e de porte é necessária para o indivíduo conseguir projetar um “eu sagrado viável” e permanecer no jogo ritual apropriado. O “eu” é cerimonial, em parte, e precisa ser tratado com esse cuidado ritual ao ser apresentado aos outros (Ibid., p. 94).

Resumidamente, na interação social, os indivíduos, ao representarem seus personagens, buscam transmitir impressões de seu interesse para definir uma situação. Na copresença, os indivíduos procuram controlar a emissão de informações aos outros para preservar suas fachadas – imagens do eu emitidas –, cruciais no equilíbrio dos rituais da sociedade.

Na “copresença”, as interações entre os indivíduos constroem as sociabilidades. E, pela leitura de Goffman (2011), a fachada e sua obrigação de preservá-la pelo indivíduo constituem os elementos cruciais para entender a regulação que o social exerce sobre o indivíduo. São, entre os usos, manipulações e subversões de fachadas – pessoal e social – pelos quais a subjetividade vai se delineando e se refazendo a cada representação ou performance.

Em qualquer encontro social, como a paquera, os indivíduos são mobilizados por rituais que os tornam autorreguladores de suas atividades e os legitimam na participação do encontro por estarem seguindo regras de conduta aceitáveis e compatíveis com a linha que desempenham e a fachada que tentam preservar. Entretanto, o conflito é sempre propenso a existir, pois nem sempre a realidade social pode ser resumida dessa forma estrutural ideal elucidada por Goffman – assim como os indivíduos também estão empenhados tanto na subversão das estruturas quanto na reformulação ou criação de novas.