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3. A PERFORMANCE PAQUERA

3.6 O “FICA” E O “FORA”

O “fica” ou pegação era a etapa final de um processo de paquera cuja fase de interação focada foi bem-sucedida, ou seja, que tenha ocorrido o mútuo envolvimento de ambos os indivíduos. O grau de envolvimento dos indivíduos talvez não seja semelhante e a permanência do nível principal de envolvimento esteja sempre sujeita às rupturas e às distrações que, às vezes, poderiam ser consideradas como sinal de desinteresse de um dos envolvidos.

Nem toda paquera focada era uma interação face a face de mútuo envolvimento e correspondência de expectativas e interesses. E até quando supostamente se aparentava ocorrer essa mutualidade, na aproximação e nos primeiros contatos, o risco de “corte” do encontro era possível.

A intenção de “ficar” com alguém e a possibilidade de namorar ou se relacionar após o beijo permeava todo o processo de paquera – de acordo com os entrevistados. Comumente, essas intenções eram decididas na fase preparatória e poderiam ser modificadas durante a festa, o bate-papo do “Face” ou nas interações de paquera de que os frequentadores participavam. De acordo com a “vibe”, os sujeitos, antes ou durante a festa ou no “Messenger”, decidiam: paquerar, “ficar”, apenas se divertir ou beber com amigos, por exemplo. O desejo, o interesse ou a atração por alguém durante os processos de paquera

masculina, bem como as intencionalidades dos sujeitos, poderia ser resultado de uma boa “vibe”.

“Vibe” é o momento, é a sensação de cada situação, é, como eu posso dizer, é, você, está numa festa e aí você está, no momento, é, você está no momento... eu vou colocar “vibe” numa situação que eu possa, te demonstrar melhor porque aí fica mais fácil de tu compreender, porque é uma palavra inglês, que é meio complicado de definir [risos], mas, é assim, é situação, é, momento... pronto é, acho que eu encontrei uma definição. Os teus amigos te chamam para sair, para uma festa, mas você não está na “vibe” de ir para festa, deu para entender? (Ricardo, 2016).

Emanuel reitera que “vibe” também era utilizada pelas pessoas com o sentido de energia ou vibração tanto de uma festa qualquer quanto de todo espaço social onde se encontrava um grupo de pessoas reunidas. Além disso, a “vibe” era sempre contingente e se referia tanto ao estado de emoções e sensações de um indivíduo como, também, à energia positiva ou negativa de determinado ambiente na compreensão de alguém ou de um grupo. Ele relatou que um bar pode, no início da noite, ter uma “vibe” positiva e, no final, ter uma “vibe” negativa.

Através do esquadrinhamento performático – especialmente durante a interação focada – os colaboradores selecionavam seus alvos de paquera entre as pessoas que eram consideradas “pra ficar”67 ou “pra namorar”. A “vibe” de determinado encontro de paquera tanto poderia estar alinhada ou diferente entre os envolvidos no flerte. Para o colaborador Ricardo, o encaixe dos indivíduos nesses dois rótulos era complexo e relativo, entretanto:

Você pode conhecer pessoas que são pra, somente ficar e também pessoas que são, para se relacionar. E também tem muito a questão da vibe né. Tem pessoas que vai para a festa que está somente com a intenção de ficar mesmo. São pessoas que, tipo, estão para namorar, mas está ali na festa, mas está na vibe só de ficar mesmo, ‘ah, eu vou para festa, mas hoje eu vou só com a intenção de ficar, não quero me apegar a ninguém [...]’. Isso acontece. É muito relativo, são muitas questões, [...] (Ricardo, 2016).

Ricardo acentuou que os homens “rodados” ou “galinhas”, ou seja, que “ficam” com muitos outros durante a festa e aqueles “que não se valorizam, de certa forma, que falam muitos palavrões, que não se respeita [...]” são apenas “pra ficar”. Ser “rodado” ou “galinha” eram estigmas acionados para inferiorizar determinados corpos durante as festas eletrônicas e nas interações virtuais. Estes corpos eram considerados “pra ficar”, porque no mercado da paquera, eles poderiam ser usados e descartados ao contrário dos corpos “pra namorar” que

67Em vez de ‘para’, optei por continuar utilizando o ‘pra’ na pretensão de sublinhar a expressão êmica “pra

poderiam ser utilizados para outros fins tais como um relacionamento amoroso.

A identificação das “performances-galinhas” não era realizada apenas durante as festas eletrônicas, mas também através da ajuda de amigos e conhecidos para obter informações e selecionar esses sujeitos. Se os “vassouras” não fossem identificados pela publicidade de seus “ficas” em determinado evento festivo, a sua “fama” (Neto, 2015) era divulgada nas páginas das festas ou com auxílio de relatos – nas redes sociais ou nos grupos de whatsapp – sobre sua “galinhagem” em eventos passados ou na vida social como um todo.

O “fora” é uma espécie de “corte”, ou seja, uma negativa brusca de abertura de encontro (GOFFMAN, 2010, p. 128). Ser “cortado” era o principal marcador da estigmatização para determinado corpo. O “fora”, quando reiterado publicamente, parecia significar a não importância da materialidade daquele corpo no tocante ao seu status de alvo desejável ou considerável de paquera. Para todos colaboradores da pesquisa, o medo de “levar um fora” era o maior obstáculo para investir em um engajamento de face. Talvez esse medo fosse intensificado e, ao mesmo tempo, confundido pela presença das “performances bicudas” ou de indivíduos que “se passavam” ao serem engajados nos rituais de apresentação da fase focada. Neste sentido, os rituais de paquera eram acionados para definir uma situação mútua de interesse amoroso e/ou sexual e, com isso, diminuir a probabilidade do “corte”. Destarte, o “fora” poderia ser praticado também durante a fase desfocada da paquera. Desvio do olhar e indiferença aos gestos que acompanhavam as olhadelas mútuas constituíam os exemplos de atos que “cortavam” a paquera.

Os rituais de paquera nos contextos “online” e “offline”, ao consolidar uma situação de paquera entre homens, também objetivavam evitar o “corte” ou o “fora’ – ações que produziam o constrangimento. Quase todos os colaboradores também tinham receio de iniciar o encontro conversacional ou “se chegar” por temer o “não” que impossibilitaria a realização do desejo:

Ah, eu acho que, porque, sei lá, se eu estou interessado em alguém, para mim aquele alguém me chamou atenção. Estou morrendo, estou com vontade, ah chegar na pessoa e ela me disser um não, é claro que eu não vou gostar, porque eu estava, eu estou com desejo, eu estou com vontade, desejando, e eu não vou poder realizar porque a pessoa me deu um não! Acho que é por isso que ninguém gosta de levar não, porque se você quer uma coisa, é claro que você quer ouvir um sim. E você ouvindo um não você não pode realizar o seu desejo (Alysson, 2016).

No caso da paquera entre homens, parece que o “fora” estava relacionado, também, ao sentimento de inferioridade que ele impunha aos corpos. Para evitar esses sentimentos, os colaboradores da pesquisa afirmavam preferir esperar alguém tomar iniciativa do que investir

num engajamento onde a possibilidade do “fora” era ainda latente. O “fora” poderia suscitar questionamentos sobre o status social dos paqueradores e o trato com essas questões poderia ser amenizado com a ação do cupido:

Porque você pode dizer assim, ‘olha o que está errado comigo’. Isso acaba que meio frustrando as pessoas. E você com o cupido não, ele simplesmente vai dizer ‘oh dá, vai dar certo’, ‘oh não vai dar certo’, entendeu? Aí pronto, aí já fica bem claro que nunca mais você quer ver a cara daquela pessoa e pronto (Marcos, 2016).

O “fora” era exercido através dos rituais de evitação. Os colaboradores enfatizaram que, durante a conversa, não falavam aos aproximadores literalmente que não queriam. Eles utilizavam atos formais e padronizados reconhecíveis entre eles para “cortar” alguém. Na fase desfocada, por exemplo, não correspondiam às olhadelas. E, na paquera focada, as ações de não responder às perguntas ou respondê-las com um sim ou não, expressavam consensualmente tentativas de “corte”. No Facebook, o “fora” era interpretado geralmente pela demora em responder perguntas ou saudações no bate-papo, como também, não corresponder curtidas em fotos ou aceitar solicitações de amizade.

O comportamento na paquera – uma situação social – guiava-se por normas e valores sociais desde as olhadelas até o envolvimento de face. As formas de paquerar, as maneiras de iniciar a aproximação e de manter o encontro estavam articuladas pelos códigos de sociabilidade e pelas normas sociais em geral. Os participantes avaliavam e eram avaliados pelas informações que emitiam e recebiam de si e dos outros. Essas avaliações eram balizadas por eixos sociais de classificação dos corpos em desejáveis ou não. As fases rituais da paquera – identificadas acima – eram atravessadas por marcadores sociais dos corpos e por normas e códigos sociais que tanto diferenciavam os sujeitos nos contextos culturais em que transitavam como também avaliavam as performances que eles sustentavam.