2. PERFORMANCE, RITUAIS E PERFORMATIVIDADE
2.5 JOHN AUSTIN E JACQUES DERRIDA: BASES TEÓRICAS DA
Para Carlson, os teóricos John Austin e John R. Searle forneceram uma metodologia para se considerar a linguagem como performance. Austin, em 1995, destaca um tipo especial de fala – denominada por ele de performativa. Um ato de fala “performativo” não faz uma afirmação – como Austin rotulava de ‘constativo’ o foco tradicional da análise linguística; ao contrário, o performativo objetiva fazer algo em vez de apenas declarar algo (CARLSON, 2009, p. 73).
A principal contribuição de Austin é a ideia de que a linguagem é uma forma de ação e, não, de representação. O significado de uma sentença e a forma de ação que ela assume são determinadas pelas suas condições de uso: definir o dizer como fazer está relacionado a um dado contexto, finalidade, normas e convenções sociais (SOUZA FILHO, 1990, p. 11). Essa filosofia da linguagem ordinária proposta por Austin coloca a linguagem como forma de atuar e constituir a realidade, e, não, apenas como correspondente do real. Desse modo, a verdade se desloca para o conceito de “eficácia do ato” (Ibid., p. 10).
No livro Quando dizer é fazer: palavras e ação, John Austin expõe uma teoria que objetiva distinguir os proferimentos constatativos dos performativos. Utiliza o neologismo – performativo – tendo como referência o verbo “to perform” para denominar as sentenças que fazem coisas por ser um correlato ao substantivo de ‘ação’ (AUSTIN, 1990, p. 25).
Austin questiona o pressuposto filosófico de que dizer é declarar algo e sugere regras que definam um proferimento performativo bem-sucedido. Ele enfatiza que esse tipo de proferimento deve estar vinculado a determinadas convenções numa adequação de palavras por certas pessoas e em circunstâncias específicas (AUSTIN, 1990, p. 31).
No decorrer do seu livro, este autor chega à conclusão de que não há nenhum critério absoluto para distinguir os constatativos dos performativos, pois uma mesma sentença pode ser usada nas duas formas. Entretanto, ele sugere que o performativo pode, geralmente, ser identificado como feliz ou infeliz e o constatativo como verdadeiro ou falso (Ibid., p. 66).
Por ser um ato, o performativo é constituído por infelicidades: um “mal herdado” de todos os atos convencionais. A felicidade ou não de um performativo deve ser entendida como ocorrência de circunstâncias ordinárias (Ibid., p. 36). Dentre as infelicidades citadas pelo autor – violações ao proferimento – estão os mal-entendidos e os enganos (Ibid., p. 47).
Sem obter sucesso na busca por um critério gramatical para distinguir os constatativos dos performativos, Austin sugere considerar os sentidos em que dizer algo é fazer algo. Assim, ele divide os atos em locucionários, ilocucionários e perlocucionários. Os dois primeiros são apontados como meios para distinguir o ‘dizer’ do ‘fazer’, o constativo do performativo (AUSTIN, 1990, p. 111).
Os atos locucionários se referem ao ato de ‘dizer algo’ num sentido completo: é proferir uma sentença com sentido e referência ou com ‘significado’. Os ilocucionários realizam um ato ao dizer contrário de apenas dizer algo (Ibid., p. 89). Eles são realizados de acordo com uma convenção (Ibid., p. 92). E os perlocucionários objetivam produzir, ao dizer algo, efeitos sobre os pensamentos, sentimentos ou ações dos ouvintes (Ibid., p. 89).
Austin conclui seu livro enfatizando que a distinção entre os atos locucionários e ilocucionários – que precisa de apuração e reformulação – é uma abstração e que “todo ato linguístico genuíno é ambas as coisas de uma só vez” (Ibid., p. 120). Talvez essa ênfase tenha sido crucial para as reformulações de John Searle e Jacques Derrida.
John R. Searle – estudante de Austin – enfatizou o performativo de toda linguagem: até o simples pronunciar de palavras e sentenças são ‘atos de fala’. A performance da intenção particular que a fala possui foi denominada por Searle de ‘ato ilocucionário’. A consequência dessas reformulações é o reconhecimento de que, em geral, a linguagem é performativa (CARLSON, 2009).
Se, em Austin (1990), a ilocução é o termo usado para se referir às convenções de força do ato de dizer relacionadas às circunstâncias da ocasião do proferimento e à perlocução aos efeitos produzidos nos ouvintes, em Searle, a ilocução e a perlocução estiveram sempre envolvidas (CARLSON, 2009, p. 75).
Jacques Derrida (1991) inicia sua comunicação – “Assinatura, acontecimento, contexto” – criticando a acepção corrente de escrita como ‘meio de comunicação’ e o seu caráter representativo: a escrita como imitação ou reprodução de um conteúdo. A relação entre ideia/signo – estrutura representativa – marcará a comunicação em geral e será difícil destruí-la, nos termos do filósofo francês (p. 351-353).
Este filósofo elabora uma crítica da teoria como representação da ideia enfatizando a ausência como traço pertencente a qualquer escrita. A tradição filosófica que sustenta a comunicação como veículo representativo de um sentido – “conteúdo ideal” – é deslocada pela consideração de que a ausência do destinador – ou emissor –, ao abandonar uma marca, “continua a produzir efeitos para além de sua presença e da atualidade presente do seu querer- dizer, mesmo para além da sua própria vida, [...]” (DERRIDA, 1991, p. 354).
Frente ao desaparecimento do destinador, uma ‘comunicação escrita’ somente permanece legível se for repetível – iterável – “de novo”. A iterabilidade é a marca de qualquer escrita e é aquilo que a estrutura enquanto legível. É a possibilidade de repetir, implícita em qualquer código, que o faz transmissível, comunicável e iterável por qualquer participante da interação (Ibid., p. 356). Uma escrita – produtora de marcas – somente torna-
se legível se funcionar na ausência de determinado destinatário. É a sua “estrutura iterativa” que possibilita tal realização (DERRIDA, 1991, p. 357).
Derrida explicita os predicados essenciais – “grafeméticos” – do conceito clássico de escrita que podem ser generalizados para qualquer signo ou linguagem em geral. Primeiro, a marca de um signo escrito pode ser iterável na ausência e “para além da presença do sujeito empiricamente determinado que, num contexto dado, emitiu ou produziu” (Ibid., p. 358). Segundo, o signo escrito pode romper com o contexto – as presenças que organizam a sua inscrição. Tal predicado é possível pela iterabilidade essencial de qualquer escrita: “pode-se sempre isolar um sintagma escrito fora do encadeamente no qual é tomado ou dado, sem fazer-lhe perder qualquer possibilidade de funcionamento, senão qualquer possibilidade ‘comunicação’, precisamente” (DERRIDA, 1991, p. 358). A marca do signo escrito é produzida na ruptura com o contexto.
O rompimento com o contexto ou a possibilidade de engendrar infinitos contextos novos de qualquer signo – falado ou escrito – foi denominado pelo filósofo de “citacionalidade”: duplicação ou duplicidade. Juntas, a iterabilidade e a citacionalidade permitem uma marca qualquer funcionar e ser legitimada (DERRIDA, 1991, p. 362).
Derrida desenvolve essas questões tentando atravessar a problemática do performativo. Ele diz que Austin parece considerar os atos de discurso apenas comunicativos. As noções de ilocução e perlocução austinianas designam “uma operação e a produção de um efeito”, e, não, “o transporte ou a passagem de um conteúdo de sentido”. Se existe um comunicar no performativo, “seria comunicar uma força por impulsão de uma marca” (DERRIDA, 1991, p. 363).
A contribuição de Austin ao defender o performativo como não possuidor de seu referente e produtor de situações parece ter sido a crítica ao conceito de comunicação como puramente simbólico ou linguístico. O performativo não “se limita essencialmente a transportar um conteúdo semântico já construído e vigiado por um objeto de verdade [...]” (DERRIDA, 1991, p. 363). Entretanto, Austin
não tomou conta o que, na estrutura da locução (portanto antes de qualquer determinação ilocutória ou perlocutória), comporta já este sistema de predicados que chamo grafemáticos em geral perturbando com isso todas as oposições posteriores de que Austin em vão procurou fixar a pertinência, a pureza, o rigor (Ibid., p. 364).
O performativo de Austin se liga diretamente à presença consciente e intencional do sujeito que fala. Essa presença exclui a possibilidade do resto que escapa (DERRIDA, 1991).
Embora reconhecendo as infelicidades, Austin delega ao sujeito a intenção de regulação ideal com o objetivo de excluir os riscos (Ibid., p. 366). Para Derrida, esse filósofo não questiona a possibilidade de o risco se constituir uma “possibilidade necessária”.
A convencionalidade necessária ao performativo não é compreendida como algo intrínseco à locução – onde a ritualidade iterável estrutura qualquer marca –, mas, sim, como resultado das circunstâncias do enunciado (Ibid., p. 366). A produtividade do risco para que o dizer-fazer algo se concretize é excluída a favor de uma ritualização considerada como eventual e adequada à concretização dos enunciados performativos.
Derrida reformula o performativo de Austin. Toda enunciação – constativa ou performativa – somente é possível se for “citada” e repetida-iterável (Ibid., p. 368). Ao contrário de Austin, esse filósofo duvida que a fonte da enunciação esteja presente nos enunciados orais e escritos. Nestes últimos, a ligação com a fonte de enunciação é assegurada pela ‘assinatura’ (Ibid., p. 370). Para funcionar, ser legível, ela carrega os mesmos predicados essenciais da linguagem como um todo: “deve ter uma forma repetível, iterável, imitável, deve poder separar-se da interação presente e singular da sua produção. É a sua mesmidade que, ao alterar a sua identidade e a sua singularidade, lhe divide o cunho” (DERRIDA, 1991, p. 371). Assim, o argumento de Derrida “leva o conceito de performance linguística de volta para o campo da atividade repetida (ou restaurada) e contextualizada, que é básico para a teoria da performance” (CARLSON, 2009, p. 80).
A teoria de gênero de Judith Butler é, de certa maneira, uma apropriação das reflexões de Derrida e da teoria dos atos de fala de John Austin (BENTO, 2006, p. 91). O gênero de alguém é um efeito sedimentado de normas que se repetem e são citadas nos diversos contextos culturais. Sem esses predicados da linguagem, os atos de gênero não lograriam de sua presumida naturalidade.