2. PERFORMANCE, RITUAIS E PERFORMATIVIDADE
2.7 PERFORMANCE É “COMPORTAMENTO RESTAURADO”
Diretor de teatro e um dos fundadores do Departamento de Estudos da Performance da Universidade de Nova Iorque, Schechner amplia o termo performance para atividades que vão desde os rituais, as brincadeiras, jogos, esportes às ações da vida cotidiana. Enquanto conceito, a performance se refere a eventos delimitados que possuem a marca da convenção, da tradição e do contexto, pois não existe nenhum aspecto inerente na ação humana que possa qualificá-la ou descaracterizá-la como performance (SCHECHNER, 2003, p. 25). A definição de uma atividade enquanto performance é sempre elaborada no contexto histórico e sobre as convenções e tradições relacionadas (Ibid., p. 37).
Richard Schechner (2012) centraliza sua definição em qualidades reconhecidas do teatro e define performance como ritualização e estilização do comportamento (Ibid., p. 49), tais como cenas familiares e sociais, demonstrações, exercício da profissão, cerimônias, apresentações artísticas e outras. Neste sentido, a performance não se limita ao teatro e pode ser estendida a qualquer atividade humana.
Dentre as suas influências teóricas, Schechner (2010) cita Erving Goffman, Victor Turner, Claude Lévi-Strauss, Jacques Derrida e Bertold Brecht. A ideia de que os indivíduos atuam a todo instante é compartilhada por esses teóricos (SCHECHNER, 2010, p. 29). Entretanto, é no campo da autoconsciência que se insere a performance.
Talvez seja o tornar-se autoconsciente das normas regulatórias – que constituem os sujeitos e que eles não cessam de performar – um elemento crucial de performances subversivas tanto na vida cotidiana quanto no campo artístico. Assim, o grau de autoconsciência do sujeito em relação às suas performances na vida social permite a manutenção das normas e/ou a subversão das mesmas num trânsito “continuum” relacional e conflitivo dos sujeitos e os diversos regimes de poder que os atravessam.
De acordo com esse autor, no século XXI, os indivíduos vivem, diferentemente dos séculos passados, por meio de performances. Eles utilizam as técnicas performáticas para se dirigir aos diversos públicos com o objetivo de reproduzir ou modificar as ordenações sociais vigentes. Além disso, pelas performances, identidades são afirmadas e subvertidas e corpos são (re) materializados (SCHECHNER, 2012, p. 77).
Schechner esteia a ideia de que toda ação ou comportamento pode ser analisado ‘como se fosse’ performance, entendendo o “fazer performance” como um ser, um fazer, um mostrar fazer e um explicar as ações feitas. O ato de performar é diferente de um fazer simples, por ser sublinhado, exibido, ou seja, um “mostrar-se fazendo” (SCHECHNER, 2003, p. 26). Explicar esses fazeres destacados seria o objeto dos Estudos da Performance, onde Schechner é reconhecido como o maior expoente teórico.
As performances podem ocorrer em oito situações que, embora sejam diferentes entre si, geralmente se apresentam sobrepostas. Faz-se performance: na vida diária; nos esportes e entretenimentos em geral; nas artes; nos negócios e na tecnologia; no sexo; nos rituais e nas brincadeiras. O autor enfatiza que essa distinção tem como objetivo indicar o terreno alargado em que a performance pode ser estudada e exercida (SCHECHNER, 2003). Entretanto, ele sugere critérios para distinguir essas situações: “na função, na circunstância do evento inserido na sociedade, no espaço que o abriga e no comportamento esperado de performers e espectadores” (Ibid., p. 32).
Assim, a performance de um corpo, nas festas eletrônicas sobralenses, pode ser delimitada. Pela função – demonstrar interesse amoroso por alguém. Pela circunstância45 do evento e o espaço – a festa é considerada pelos colaboradores como espaço de paquera, além de curtição e reencontro de amigos ou conhecidos, e pelo comportamento esperado – todos relataram que, em algum momento, a paquera vai acontecer nas festas, ou seja, não existe festa sem ter ocorrido paquera.
A paquera – ao ser considerada uma performance do cotidiano – pode ser classificada geralmente por seus espectadores como “performances que fazem crenças” cujo objetivo é fazer o público – os coparticipantes das festas – aceitar as performances realizadas como reais; diferentemente das performances de “fazer-crer” onde está clara a distinção entre “o que é real e o que é fazer-de-conta” (SCHECHNER, 2003, p. 42). No Facebook, os colaboradores utilizavam os rituais de esquadrinhamento também com a intenção de analisar os perfis em sua veracidade, pois, nesse contexto “online”, partia-se da premissa de que a possibilidade de “performances de fazer-crer” eram mais frequentes porque o corpo virtual era materializado de diferentes formas.
Nas vivências, esses limites eram constantemente subvertidos. E essa distinção, utilizando as considerações de Schechner, é circunstancial, funcional, espacial e depende de quem está avaliando a performance e que comportamentos este avaliador espera. Em alguns momentos, os participantes utilizavam a performance de paquera/ “pegação” como ‘faz-de- conta’ para testar seus poderes de sedução ou, até, como maneira de “causar”46 ou “fechar”.
“O mostrar-se fazendo” objetivava um “fazer crença”: ou seja, o caráter de entretenimento deveria ser performado para que o “fazer de conta” obtivesse as intenções engendradas pelo ato performático. Felipe exemplifica performances ‘faz-de-conta’ durante a festa porque a paquera hegemônica se efetiva entre másculo para másculo ou afeminado para másculo:
Na festa também. Mas a gente também não entende que às vezes pode ser uma brincadeira. Bom, se você for afeminado e fica com um amigo meu. Que pode acontecer, eu ficar com um amigo meu assim... E ele ser afeminado também, a gente fica mesmo, por ficar mesmo. E pelo menos, pode ser mesmo para causar mesmo assim. Pode acontecer isso (Felipe, 2016).
45 Circunstâncias nos processos de paquera nos contextos culturais poderiam ser definidas pelo conjunto de
eventos ou situações que potencializariam a “vibe” para algum indivíduo iniciar ou retribuir rituais de paquera em que foi envolvido. “Vibe”, nos termos dos colaboradores, significa a energia positiva que impulsiona a realização de determinada ação e/ou performance.
46 Termo êmico utilizado para designar performances que objetivam deixar os outros surpresos, perplexos ou
A performance, em Schechner, está ‘entre’ a ação, relação e a interação (SCHECHNER, 2003, p. 28) e exerce, basicamente, sete funções: mostrar o belo, entreter, fomentar uma comunidade, ensinar ou convencer, mudar identidades, relacionar com o sagrado ou profano ou curar (Ibid., p. 45). De forma geral, a performance não exerce todas essas funções, mas, pelo menos, mais de uma delas é enfatizada.
Schechner (2003) sugere uma maneira de ordenar os gêneros da performance tomando como referencia essas funções difíceis de serem encontradas no ato performático. Esse ato pode ser organizado como um “continuum” entre dois polos que se inter-relacionam – o ritual e a brincadeira (Ibid., p. 49): a performance-ritual e de entretenimento. Dois polos que fazem parte de uma ação contínua – dependendo do contexto e da função. A performance é ritual quando se vincular à eficácia ou buscar resultados. E é entretenimento quando o objetivo for dar prazer, ser mostrada ou passar o tempo. Entretanto, nesse jogo binário – eficácia e entretenimento – os polos não são opostos e, sim, continuamente interdependentes. Não há eficácia ou entretenimento puro. As performances se originam das tensões criativas desse jogo binário e suas várias finalidades (SCHECHNER, 2012, p. 81).
O “comportamento restaurado” é o conceito fundante da performance em Schechner, isto é, de sua definição de uma atividade humana como performance. É um comportamento duplamente exercido – repetido, treinado, ensaiado – que está relacionado com os contextos culturais e intervalos temporais específicos (SCHCHNER, 2003, p. 28). Esse tipo de comportamento é a matéria-prima de toda performance – ritual, cotidiana ou artística. Inclusive, o autor estende a presença desses comportamentos às ações da vida cotidiana, pois tais ações envolvem aprendizado e treinamento na repetição de “pedaços de comportamentos” que são rearticulados para produzir determinados efeitos (Ibid., p. 27). Em outros termos, o cotidiano é ritualmente organizado por repetições de comportamentos que são apreendidos socialmente e produzem certos efeitos.
Esse tipo de comportamento atua como um modelo de instrução para o performer no desempenho de papéis sociais, nas suas ações e comportamentos. Além de esforço físico e intelectual, o “comportamento restaurado” aciona a memória e as experiências dos sujeitos.
Toda performance – constituída por “pedaços de comportamentos restaurados” – é diferente e específica em relação às outras. A performance nunca é feita primariamente (SCHECHNER, 2003). A recombinação desses pedaços pode ser infinitamente variada e, por isso, nenhum evento é uma cópia do outro. Isso se deve ao fato de que todo evento é particular por causa de sua interatividade (Ibid., p. 28).
De forma geral, todo comportamento humano é um “comportamento restaurado” – destacado e marcado – e recombina “pedaços de comportamento” que foram exercidos previamente. Esses comportamentos tanto podem ser guardados e resgatados quanto usados para divertimento ou transformação, por exemplo (SCHECHNER, 2003, p. 35).
O conceito de performance desse autor – semelhante à performatividade de Judith Butler – não pressupõe um original ou um comportamento que anteriormente foi exercido e constituiria a referência para o “mostrar-se fazendo” copiar ou repetir. A performance é um efeito do ato que se faz e não um resultado simples e direto de roteiros pré-estabelecidos socialmente. Aqui, Butler e Schechner se distanciam de Goffman. Se, em Butler, o gênero é uma paródia – uma cópia da cópia –, em Schechner, a inexistência do comportamento primeiro e a incontrolabilidade do contexto no tocante à interatividade e à relacionalidade torna a performance um ato sempre diferente do comportamento que restaura, mesmo quando ela é acusada de ser apenas uma cópia de algo considerado como original ou natural.
As fontes do comportamento social podem estar perdidas ou serem desconhecidas e ignoradas. Assim, parece que Schechner, ao pontuar a emergência do novo ou original, talvez esteja defendendo que tal operação é somente possibilitada no terreno da citacionalidade e iterabilidade – elucidadas por Derrida como predicados essenciais da linguagem:
É quase sempre uma recombinação de comportamentos conhecidos, ou o deslocamento de um comportamento do lugar onde ele é aceitável ou esperado, para um espaço em que este seja inaceitável ou inesperado (SCHECHNER, 2003, p.32- 33).
A singularidade do ato performático denunciado por Schechner complementaria a defesa da subversão apontada por Butler, principalmente quando ela cita a performance da “drag queen” como lugar de deslocamento. Se é possível somente subverter durante a performatividade – a repetição estilizada da norma –, então é a performance o locus privilegiado de tal agência subversiva por ser tipicamente em todo ato uma singularidade que se constrói na interação, relação e no contexto. Em outros termos, a recombinação dos “comportamentos restaurados” – pensados como normas que precisam ser citadas na repetição – é o lugar em que podem ser instaurados os processos de transformação social. Nesse sentido, articulando Butler e Schechner, podemos pensar a performance não como uma encenação repetitiva de um mesmo, mas como potencialmente subversiva em suas (re) encenações (re) arranjadas de um considerado mesmo.
A correlação possível dos “comportamentos restaurados” como normas no sentido que Butler discute sua performatividade de gênero reside no fato de que, para Schechner, esses comportamentos são constituídos por rotinas, hábitos e rituais que independem do sistema causal que os levou a existir. Esses “pedaços de comportamentos” que podem ser reconstruídos pelos sujeitos têm vida própria ou existem como algo separado do sujeito (SCHECHNER, 2003). A norma é anterior ao sujeito e o constitui, por isso Butler não defende uma agência antes ou para além da norma, e, sim, dentro e por meio da norma.
Pensar a performatividade subversiva a partir das concepções de performance de Goffman pode resultar numa incompreensão ou impossibilidade do ato performático para além da repetição, imitação ou ajuste do sujeito às normas ou às estruturas sociais que atravessam os diversos contextos em que ele transita.
Na investigação dos eventos performáticos, Schechner focaliza, também, a interação entre espectadores e performer. Ele distingue ‘públicos integrais’ e ‘públicos ‘acidentais’. Os primeiros são caracterizados por possuir “algum tipo de afinidade eletiva com o(s) performer(s) e/ou compartilham da mesma rede de relação social” (SILVA, 2005, p. 59). Esse público tem conhecimento do tipo de performance encenada uma vez que está familiarizado com os códigos de sociabilidade de determinado contexto cultural. Em outros termos, esse ‘público integral’ pode ser denominado de “estabelecidos”: são, por exemplo, os amigos, amigos de amigos e “conhecidos de vista” que o performer tem numa festa eletrônica.
O público ‘acidental’ nem possui afinidade com o performer e nem se interessa em criar laços sociais (SILVA, 2005). Podem ser aqueles participantes que não correspondem ou não se interessam pelas investidas de paquera de alguém; ou podem ser os considerados “carne nova no pedaço” de uma festa que, inicialmente, não se interessam em corresponder paquerações ou investidas.
A teoria da performance de Schechner assemelha-se com a performatividade de Butler, mas se distancia no pressuposto que estrutura o performativo butleriano – a noção de sujeito. Entretanto, em Schechner, o sujeito não é voluntarista ou livre das normas e nem totalmente constituído por elas. A agência performática dos sujeitos – nesse autor – parece apontar para uma alternativa na subversão ou transformação social em comparação à teorização de Butler, não porque se afasta da norma – pois o “comportamento restaurado” pode ser pensado como norma que é citada repetidamente no ato –, mas porque toda reiteração performática – constituída pelos “pedaços de comportamento” – ocorre distintivamente em razão do contexto de interação e da relacionalidade. Nenhuma performance é a mesma. E o mecanismo performático é sempre locus de atos que escapam às
configurações que são consideradas originais ou essenciais porque é tributário da recombinação ou rearranjo dos sujeitos em performance. Talvez Butler, lendo Schechner, poderia conferir um maior potencial subversivo ao ato performático defendido por ela, embora ambos compartilhem da ideia de que não existe interação social humana independente das regras culturais específicas. Em termos políticos, o sujeito de Schechner é mais poderoso performaticamente do que o de Butler.