• Nenhum resultado encontrado

A pesquisa lingüística com os migrantes jaragüenses

1.4 O grupo jaragüense

1.4.3 A pesquisa lingüística com os migrantes jaragüenses

Conforme tenho afirmado, o interesse pelo grupo jaragüense consta de minha pauta de pesquisa desde 2000, à época de meu curso de mestrado, quando desenvolvi um estudo centrado nas relações entre aquisição de inglês como segunda língua, por migrantes jaragüenses em Danbury, e os fatores de identidade que interferiam no processo. Devido a latência do tema identidade que se intensificou ao longo do trabalho, nas entrevistas e observações de campo, este passou a ser um ponto mais central. A busca de teorias que amparassem uma análise sobre questões identitárias, identificadas na linguagem, entrou para a pesquisa por sua adequação aos propósitos de então. A partir daí, procurei provocar nos sujeitos algumas reflexões sobre o que o deslocamento Brasil-USA lhes teria acrescentado como indivíduos, colher suas percepções e reformulações conceituais a partir de seus depoimentos e das observações de suas conversas informais, de certos comentários, enfim, do seu discurso. A série de itens que resultou desse trabalho foi listada a partir de sua evidência no conjunto geral dos depoimentos, ou seja, foram as menções que mais se repetiram na maioria das entrevistas e observações.

O trabalho de van Dijk (2000a), que foca o discurso das elites e do parlamento europeu sobre migrantes, foi o maior referencial para o estudo. Suas considerações sobre as estratégias de representação positiva e negativa, identificadas na polarização entre dêiticos “nós” e “eles”, e sua categorização sobre tópicos discursivos tiveram muita instrumentalidade na pesquisa com os jaragüenses, com a ressalva de que o direcionamento discursivo do grupo em Danbury se articulava sobre uma direção inversa ao do estudo de van Dijk, uma vez que, nesse caso, tratava-se das formulações de um grupo minoritário em relação a uma maioria dominante.

Aplicado, então, o modelo de van Dijk (2000b), uma das principais nuances que identifiquei com relação a traços identitários desses migrantes é que, de certa forma, eles estão se constituindo em diferenciais desse grupo nacional nos EUA em relação ao Brasil. Ficou visível que a constituição de uma comunidade brasileira naquele país aproxima seus membros, numa situação de etnia, de maneira que eles passam a atuar como uma minoria étnica lá dentro. Tal evidência tem seus reflexos imediatos na linguagem e, se no Brasil o português é considerado um dos grandes elos da identidade nacional, no contexto de etnia em que vivem os migrantes nos EUA, a língua vai-se transformando e incorporando marcas lingüísticas advindas do inglês, e passa a se constituir em uma variedade própria, que já está sendo chamada por alguns de portinglês (Espíndola, 2002).

Vê-se, assim, que a identidade cultural assume uma posição central na identificação dos sujeitos. Essa identidade cultural, que explicaria o que é ser um brasileiro nos EUA, não pode ser totalmente depreendida fora do contexto de acentuada alteridade em que vivem os sujeitos dessa pesquisa. Segundo Kramsch (1998), nossa identidade social deriva justamente da nossa participação como membros de uma comunidade na qual nos definimos como os de “dentro” contra os demais, os de “fora”, numa relação em que o contato com “outro” diferente é importante para a definição do “nós” próprios (Sales, 1999).

Com essas orientações em vista, percebe-se que é fundamentalmente em torno do trinômio brasileiro-americano-hispânico que vão ser estruturadas certas afiliações grupais que estabelecem aqueles jogos de posição entre “nós” e “eles” tão fundamentais na configuração de tópicos de discurso de minorias. No entanto, essas configurações serão alteradas por um novo norteamento discursivo, que aqui parte do ponto de vista da própria minoria, os migrantes, na direção de si mesmos, mas, com base na situação de

alteridade que lhes é imposta. Assim, nesse novo posicionamento, “eles” representam mais acentuadamente o grupo dominante, os americanos. Mas, há também configurações em torno de um outro “eles” referente às muitas minorias que se alternam, junto com os sujeitos da pesquisa, na condição de migrantes. Estes pertencem fundamentalmente àquele grupo arbitrariamente denominado de hispânico, ou hispano, termo reduzido na fala coloquial dos sujeitos, que agrupa num só segmento várias nacionalidades latino-americanas.

Ainda seguindo as orientações de van Dijk (2000b), as análises dos depoimentos dos colaboradores e das observações de campo resultam igualmente numa lista de tópicos. Contudo, o deslocamento do Nós-maioria dominante, para o Nós-minoria, causa algumas divergências entre os resultados observados e os de van Dijk (2000b) e a principal discordância reside justamente naquelas formulações positivas e negativas sobre “nós” e “eles”. As formulações positivas não recaem necessariamente sobre “nós”, que representa os migrantes propriamente. Da mesma forma, atributos negativos não são essencialmente os que caracterizam “eles”, os outros. As análises revelaram na realidade uma intrincada trama de atribuições positivas e negativas que povoam tópicos variados.

Além de focar as estratégias de representação identitária do grupo e as questões de poder que nelas se embutem, propus-me também a identificar, no contexto geral das entrevistas e observações, os principais tópicos que eram levantados pelos participantes sobre a mudança para os EUA. Dessa forma, a partir da visão do próprio migrante, listei tópicos que definem sua condição como um dos vários grupos minoritários naquele país. Foram quatorze tópicos ao todo: trabalho, dinheiro, cansaço, desunião, vigilância, aprendizagem, saudade, depressão, malandragem, afetividade, inteligência, beleza, discriminação e polidez. Eles são analisados às vezes em conjunto ou individualmente.

Todos esses tópicos e estratégias já identificadas vão servir como uma base inicial para as análises dos dados desta tese. Munida desse conhecimento prévio, meu propósito aqui é de expandir as categorizações já identificadas e seguir no caminho de uma exploração mais avançada.

Algumas considerações

Este capítulo teve como objetivo básico estabelecer a relação entre os estudos lingüísticos e os estudos sobre migração e apresentar o grupo referencial da pesquisa, sob uma dupla articulação, tanto no contexto regional e local específico, quanto nos contextos transnacionais mais amplos. Tal proposta se articulou em quatro momentos específicos, primeiro, na elucidação do vínculo entre teoria lingüística e teoria social, caracterizado no nível discursivo; segundo, na identificação do campo teórico da lingüística ao qual se afilia este estudo sobre migração, a ADC; terceiro, em uma pequena reconstituição das iniciativas vinculadas ao eixo linguagem e migração, determinando quais são as principais contribuições teóricas para esta pesquisa; por fim, na apresentação do grupo referencial dentro das questões que interessam ao estudo. Concluída essa parte introdutória, seguem, no próximo capítulo, as proposições metodológicas que norteiam o trabalho.

CAPÍTULO II