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As narrativas como representação, seus processos e participantes

Representação de atores: papéis e identidades

4.1 As narrativas como representação, seus processos e participantes

É como representação que devemos entender o enfoque analítico das narrativas neste momento, razão pela qual proponho de início algumas noções conceptuais sobre o tema, seguidas de elementos teóricos que amparam o trabalho analítico com ferramentas mais específicas do campo da lingüística. Em seguida, explico como à luz da lingüística funcional concebem-se as representações por meio de processos discursivos e gramaticais, o que significa enfocar questões sobre função ideacional, significado representacional e transitividade na linguagem. Na seqüência, esclareço o conceito sociológico de ator social, contrapondo-o a conceitos lingüísticos como os de ator/participante. Por fim, apresento distinções entre papéis e identidades de atores sociais que se destacam nas análises das narrativas.

4.1.1 Campos de estudo da representação

Ao buscar compreender o conceito de representação, foi importante identificá-lo em determinados campos do saber, dos quais busquei apoio prévio para este trabalho. Nesse sentido, menciono Moscovici (1978), que, na Psicologia Social, desenvolve a Teoria das Representações Sociais. Nos Estudos Culturais, Stuart Hall (1999), coloca as representações na base imediata das identidades culturais e políticas. Na Análise de Discurso, Michel Foucault (2005) defende o papel central do discurso nas representações, enfatizando, porém, a forte relação destas com questões de poder. E, dentro do debate pós-moderno, Bourdieu (1998) indica as práticas sociais e as instituições como palco de materialização das representações, sem que estas últimas, no entanto, possuam autonomia com relação às primeiras.

Todos esses autores vinculam o conceito de representação à dimensão coletiva da criação do conhecimento com uma dimensão individual e grupal de reinterpretação ativa desse mesmo conhecimento, rejeitando a lógica da mera reprodução social. Nesse processo, Woodward (2005) enfatiza o papel da linguagem, de outras práticas de significação e sistemas simbólicos, por meio dos quais os significados são produzidos. Aí, reside a importância da lingüística na compreensão de questões relacionadas.

4.1.2 A representação como processo discursivo

Nesta pesquisa, de orientação funcionalista, a representação é um processo no qual eventos, ações, sensações, pensamentos, comportamentos e outras atividades humanas se materializam por meio de uma relação simbólica que envolve muitas escolhas gramaticais e complexos oracionais. Essa representação da experiência, através

de encadeamentos gramático-discursivos, ou aspecto experiencial da linguagem, tem sido tratada na Lingüística Sistêmica Funcional e na Teoria Social do Discurso, dentro das considerações teóricas sobre função ideacional da linguagem (Halliday, 1985) e

significado representacional (Fairclough, 2003). É a partir desses campos teóricos que

busco acesso às representações dos migrantes.

Os estudos funcionalistas, por estabelecerem princípios gerais sobre o sistema interno das línguas naturais e as funções sociais, consideram a relação entre as funções da linguagem e a organização dos sistemas lingüísticos com um traço geral da linguagem humana, pois tais sistemas são abertos à vida social. Nesse sentido, Halliday (1985) identifica três macrofunções que atuam simultaneamente na linguagem verbal:

função ideacional (representa a realidade e a experiência); função interpessoal

(expressa as relações sociais) e função textual (organiza as estruturas textuais). Abaixo represento de forma esquemática a visão tripartite das funções da linguagem, segundo Halliday (1985):

Gráfico 2: Funções da linguagem ,

Para Halliday (1985), a possibilidade de representar o mundo lingüisticamente situa-se na função ideacional, na qual se realiza ou materializa o sistema semiótico de um determinado contexto sócio-cultural, por um rol de escolhas lingüísticas envolvidas em um texto. Os significados originários de nosso contexto sócio-cultural são

LÍNGUA

Metafunções

transformados em significado semântico e, seqüencialmente, transformados em realizações lingüísticas no estrato léxico-gramatical, materializando as representações de nossas experiências.

Em sintonia com a teoria de Halliday (1985), Fairclough (2003) propõe uma articulação entre as funções ideacional, interpessoal e textual e os conceitos de gênero,

discurso e estilo. Para isso, toma como ponto de partida dessa reformulação teórica

modificações anteriores (Fairclough, 2001), em que propôs os conceitos de função

relacional, ideacional e identitária. Nessa perspectiva, no lugar das “funções da

linguagem”, o autor apresenta três tipos de “significados da linguagem”: o significado

acional (o texto como modo de ação e interação em eventos sociais), o significado representacional (texto com representação de aspectos do mundo físico, mental e

social) e o significado identificacional (texto como construção e negociação de identidades no discurso).

Embora Fairclough (2003) conceba o processo de representação da experiência em termos de significado representacional, tanto em sua abordagem como na de Halliday (1985) é importante a noção de contexto na determinação das escolhas léxico- gramaticais. Nesse sentido, Halliday e Hasan (1993) exploram termos como “contexto de cultura” e “contexto de situação”. Para os autores, todo texto se realiza na instância de um gênero particular, sob as condições do contexto de cultura no qual se insere. Do mesmo modo, o contexto de situação alicerça os discursos com base nos tipos de atividades, participantes e circunstâncias, determinando por que certos textos são ditos ou escritos em ocasiões particulares em que outros não se aplicam.

A noção de representação que utilizo nesta pesquisa advém desses campos descritos e o construto teórico que dará acesso ao sistema gramatical onde tais representações se realizam, dentro da função ideacional e do significado

representacional, é denominado de transitividade (Halliday e Matthiessen, 2004), termo que caracterizo a seguir.

4.1.3 Representação nos processos de transitividade

Compreender os mecanismos lingüísticos das representações é essencial para os propósitos desta etapa da pesquisa, em que o mundo do migrante será acessado pelas vias de sua construção gramático-discursiva em processos de transitividade. Sob o ponto de vista da gramática tradicional, a transitividade tem sido tratada como um fenômeno que se inicia no verbo e que termina no complemento disposto à direita. Porém, diferentemente da abordagem tradicional, na LSF, o verbo é um centro dinâmico na frase, caracterizado como um processo que especifica os papéis de outros componentes frásicos, codificando a experiência do mundo, dentro da função ideacional.

Conforme propõem Halliday e Matthiessen (2004), as figuras da realidade ocorrem na oração, construindo a representação de idéias e experiências em processos

de transitividade que expõem: “quem faz o que para quem em que circunstâncias”.

Nesse sentido, os processos de transitividade apresentam três componentes básicos: o próprio processo (realizado pelo verbo principal da oração); os participantes do processo (realizados pelos substantivos e grupos nominais) e as circunstâncias associadas ao processo (realizadas por frases preposicionadas, grupos adverbiais, e alguns grupos nominais).

Segundo Halliday e Matthiessen (2004), os processos têm um padrão universal nas línguas humanas, compondo basicamente três tipos principais: os materiais, que constroem eventos pelo uso da energia (ir, vir, trabalhar, morar...); os mentais,

relacionados com o mundo da nossa consciência, dividem-se em cognitivos (pensar, refletir, entender, acreditar), perceptivos (ver, ouvir, cheirar) e afetivos (gostar, odiar); os relacionais, representando categorias de atribuição e identificação (ser, parecer, tornar-se, ficar, ter, possuir, pertencer). Além desse grupo principal, os autores ainda acrescentam subtipos que compartilham características desses primeiros. Seriam os processos verbais, que pertencem ao “dizer” (falar, dizer, conversar, culpar, criticar, pedir, explicar, questionar); os comportamentais, tipicamente humanos, fisiológicos e psicológicos (respirar, tossir, sorrir, rir, chorar, cantar, sonhar) assim como, os

existenciais, expressos pelos verbos haver e existir. A seguir, apresento um diagrama

representativo dos tipos de processos que compõem a gramática da experiência, adaptado de Halliday e Mathiessen (2004):

Gráfico 3: Gramática da experiência

SER