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A prevalência da estabilidade centro-periferia

No documento MERCADO E INSTITUIÇÕES (páginas 47-50)

Duas observações finais sobre a análise de estabilidade do modelo. Os seus dois pontos críticos do sistema, de ruptura e sustentação, são decisivos para determinar quais das três forças em ação (mercado doméstico: encadeamen-tos para trás; índice de preços: encadeamenencadeamen-tos para frente; cusencadeamen-tos de trans-porte: atrito espacial pró-dispersão) predominam na dinâmica locacional, dados os parâmetros de elasticidade e diferenciação de produto. A primeira observação é que a prática usual para encontrar esses pontos de ruptura e quebra do modelo, usa os testes de estabilidade informal introduzidos por Krugman (1991b) em seu modelo original. Para o equilíbrio simétrico, o teste empírico implementado analisa o efeito de uma pequena migração para uma das regiões (p. ex., a migração de um único trabalhador indus-trial da região 2 para a região 1) sobre a variação do hiato de salário real. Se o choque de migração leva a uma variação negativa do hiato, o equilíbrio simétrico é estável. Supõe-se que o migrante não permaneça na região des-tino e volte para sua região de origem. Se o choque tem um efeito positivo, o equilíbrio simétrico é instável, pois o aumento do hiato salarial resultante atrai mais migrantes para a região de maior salário real. Para os resultados de equilíbrio assimétrico centro-periferia, são checados os níveis dos salários reais do hiato. O teste é se os salários reais potenciais dos trabalhadores de uma eventual indústria na periferia seriam maiores do que os salários reais da indústria estabelecida no centro. Se o salário real virtual da periferia for maior, o equilíbrio centro-periferia é instável; se não, esse equilíbrio é está-vel. Para nossos propósitos, é suficiente afirmar que tais testes informais são consistentes com os testes formais matemáticos de estabilidade.

A segunda observação é que a análise de estabilidade subjacente aos testes dos modelos centro-periferia é uma análise local, isto é, referente estritamente à condição de longo prazo de estado estacionário. Nada diz sobre a estabi-lidade entre equilíbrios de longo prazo; simplesmente é como se houvesse um salto mortal entre a condição inicial de equilíbrio e a condição final de estacionaridade. O estudo das propriedades da estabilidade global, a chamada

mauroborgeslemos, lívioandradewanderleyehamiltondemouraferreirajunior

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análise global de estabilidade, é em geral feito de forma heurística. É tomado como dado que o sistema aproxima do equilíbrio estável mais próximo que não requer atravessar um equilíbrio instável. Baldwin e demais autores (2003, p. 52-53) apresentam uma análise global matematicamente rigorosa do modelo centro-periferia, baseada em equações diferenciais. Reportamos aqui as con-clusões para a situação mais interessante atinente aos cinco equilíbrios para custos de transporte intermediários, dos quais três são estáveis (1 simétrico e 2 centro-periferia) e dois instáveis: 1. o sistema é globalmente estável uma vez que sempre converge para um dos estados estacionários independente das condições iniciais; 2. o sistema aproxima do estado estacionário mais próximo sem passar por um equilíbrio instável; 3. no caso mais complexo, no intervalo entre os dois pontos interiores de equilíbrio instável, o equilí-brio simétrico é um “polo de tração”: à sua direita na vizinhança do ponto de instabilidade é crescentemente positivo para a taxa salarial real da região 2 até o seu mínimo e daí crescentemente positivo para a taxa salarial real da região 1 até o ponto simétrico, sendo em toda a trajetória crescente em 

; e à sua esquerda na vizinhança do outro ponto de instabilidade ocorre o oposto para a região 1 e região 2, respectivamente, sempre crescente em  até convergir para o ponto simétrico, em ambos os casos sem passar pelos dois equilíbrios instáveis nos extremos desse intervalo; 4. finalmente, nos dois casos mais simples de solução centro-periferia, os polos de atração são inevitavelmente soluções de canto, em que o hiato salarial é crescente para a região 1 ou para a região 2.

Algumas extensões do modelo básico FKV estão incorporadas no tra-balho de referência, e outras têm aparecido na literatura recente. A versão

“economia internacional” de modelos possui a característica comum de suposição da imobilidade do fator trabalho: 1. o modelo de bens interme-diários assume efeitos verticais de encadeamentos de insumo-produto entre a indústria mundial de insumos e seus usuários nacionais da indústria de produtos diferenciados, ambos operando sob a suposição usual de retor-nos crescentes interretor-nos à firma e concorrência monopolística; 2. o modelo de capital volátil, por sua vez, supõe mobilidade do fator capital sem custos irrecuperáveis e com repatriação dos lucros para o país de origem dos pro-prietários, que gastam seus rendimentos externos no país doméstico. Outra versão bem mais interessante de modelos é a versão do “sistema urbano”,

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que busca resgatar a economia monocêntrica de Von Thünen (1966) para estabelecer um sistema urbano policêntrico hierárquico, à la Walter Chris-taller (1966), em que a categoria renda fundiária é integrada a um modelo aglomerativo policêntrico.

À guisa de conclusão, parece-nos claro que a agenda de pesquisa inaugurada pela NGE trouxe mais luz do que escuridão para o pensamento econômico contemporâneo. Ainda que limitada pela camisa de força do equilíbrio geral, abriu efetivamente uma agenda nova para o pensamento dominante que a aproxima de sua principal fonte de inspiração, o pensamento econômico hete-rodoxo baseado no princípio da demanda efetiva e na posição central do pro-gresso técnico no desenvolvimento econômico desigual das regiões e nações.

Ainda que as soluções de convergência espacial da renda sejam mate-maticamente possíveis para a estabilidade do equilíbrio simétrico, as solu-ções de divergência espacial da renda, com equilíbrio assimétrico estável, são economicamente as mais prováveis e empiricamente observáveis. Das três forças em ação, a dinâmica do crescimento econômico moderno desde a Revolução Industrial tem sido historicamente impulsionada pelo pro-gresso tecnológico, o qual deflagra os dois efeitos de divergência favoráveis à reprodução da dinâmica centro-periferia: o efeito mercado doméstico, gerador de encadeamentos para trás; e o efeito índice de preços, gerador de encadeamentos para frente. Por sua vez, o efeito de convergência do custo de transporte tem sido crescentemente atenuado pela própria difusão de tecnologias redutoras do atrito espacial pró-dispersão, especialmente a das tecnologias da informação. Se os aspectos institucionais e regulatórios for-temente ancorados nas políticas públicas não agirem para contrabalançar as forças de divergência, a lógica de aglomeração do mercado tende a repro-duzir a concentração geográfica da produção-renda mundial, e o mundo continuará dividido entre um centro econômico geograficamente restrito e uma extensa periferia empobrecida.

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A DINÂMICA DA

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