2.1 O Eco Macaense
2.1.1 A publicação e seus objectivos
O Eco Macaense publicou-se, em Macau, nos anos de 1893 (Julho) a 1899 (Setembro), com uma interrupção de 6 de Novembro de 1895 a 2 de Fevereiro de 1896 . Foi seu responsável e proprietário Francisco Hermenegildo Fernandes68, (com excepção do período compreendido entre 26 de Abril de 1896 a 11 de Abril de 1897, em que o seu lugar foi ocupado por Pedro Nolasco da Silva). A sede administrativa, inicial, localizava-se na Rua da Casa Forte, nº 3.Era impresso na Tipografia Mercantil.
O periódico apresentava como subtítulo Semanário Luso-Chinês69, contendo uma secção escrita em língua chinesa. “Ao incluir uma página escrita na língua chinesa o Echo Macaense foi, desde a sua fundação, o primeiro semanário luso-chinês do território, que mais tarde passou a suplemento e que serviu a Sun Yat Sen, que viria a ser o primeiro presidente da República da China, para veicular as suas doutrinas revolucionárias”70.
Posteriormente, no jornal de 21 de Fevereiro de 1894 aparecia uma notícia intitulada “Expediente”71 com a informação de que ia haver uma separação entre a secção portuguesa e chinesa e era anunciada a intenção de transformar a folha chinesa num jornal. O que veio a acontecer em finais de 1893, sendo fundado o Jing Hai Hong Bao (“Jornal Espelho do Mar”), tendo por redactor principal Sun Yat Sen. Este jornal chinês passou a ser impresso na Tipografia Mercantil, da família Fernandes. As páginas desse jornal iam ser um instrumento de difusão e propaganda de ideias reformistas de cariz republicano. Sun Yat Sen defendia a reforma constitucional da China e a necessidade de ocidentalização do país, “sendo as matérias mais importantes traduzidas para português nas páginas do «Echo Macaense», ampliando-lhes os efeitos”72. Subentende-se, pois, que o jornal de Francisco H. Fernandes apadrinhava e apregoava estas ideias.
68 “[F]ilho de Nicolau Tolentino Fernandes, dono da quase monopolista Tipografia Mercantil (onde se imprimia, por exemplo, o Boletim oficial. Francisco Fernandes fora intérprete judicial em Hong Kong e colaborador da imprensa portuguesa local, antes de regressar a Macau para dirigir a oficina tipográfica da família” (MESQUITA, 2000: 578).
69 Ver anexo 3. 70 PATRÃO, 2004: 15. 71 Ver anexo 4. 72 GUEDES, 1991, 73.
Ao fim de um ano de publicação, o subtítulo do periódico em análise era alterado para Jornal Político, Literário e Noticioso73.
A 6 de Novembro de 1895 o Eco Macaense era suspenso, através de uma circular74, por um período de 30 dias, devido à “guerra declarada” entre este jornal e A Voz do Crente75.
O jornal reencetou publicação a 2 de Fevereiro de 1896, mantendo-se Francisco Hermenegildo Fernandes como editor e responsável. No entanto, a 26 de Abril de 1896, era afastado deste jornal por uma lei de imprensa76. Um dos requisitos para o cargo de editor de um periódico era “alem de cidadão portuguez no goso dos seus direitos civis e políticos, elegivel para cargos municipaes, requisito que o sr. Fernandes não possuía, pois que nem estava recenseado, como não estavam as principaes auctoridades de Macau, taes como o governador, o juiz, o bispo, o director das obras publicas, e outras pessoas de alto cothurno”77. Assim, Pedro Nolasco da Silva passava a ser o editor e redactor principal, sendo director e administrador Constâncio José da Silva. A redacção, a administração e a tipografia transitaram para a Rua de S. Paulo, nº 35. O jornal sofria nova alteração no seu subtítulo, passando a designar-se Jornal Político, Noticioso e Literário78.
Com a epígrafe “Nova Phase”79 anunciava-se o regresso de Francisco Hermenegildo Fernandes, em 11 de Abril de 1897, e com ele o espírito que caracterizava o programa redactorial do Eco Macaense, o de ser “o orgão imparcial de opinião publica (...) ha de elogiar, censurar ou criticar todos os actos dos poderes públicos, sem considerações pessoaes; abster-se-ha de se bandear com qualquer partido politico para não se sujeitar a compromissos”80. Anunciavam-se novos colaboradores que se tinham alistado na redacção do hebdomadário, sem contudo os identificar. Aceitavam-se artigos, que fossem ”escriptos convenientemente e conhecidos os seus auctores” 81, embora não se
73 Ver anexo 5. 74 Ver anexo 6.
75 Semanário Católico.
76 Lei de imprensa para o Ultramar (decreto de 27 de Dezembro de 1895, artigo 2º) referida no Echo Macaense, de 26 de Abril de 1896, p. 1. Ver anexo 7.
77 EM 26.04.1896, p. 1 78 Ver anexo 8. 79 Ver anexo 9. 80 EM 11.04.1897, p. 1 81 EM 11.04.1897, p. 1
publicassem os seus nomes, excepto quando se tratava de artigos publicados nas secções recreativas e lúdicas – “Secção Amena” e “Passatempos”82.
Apesar da intenção de escrever sempre “com luva branca”83 as publicações não deixaram de constituir incómodo para o novo governador Eduardo Augusto Galhardo (cargo ocupado de 12 de Maio de 1897 a Agosto de 1900), altura em que o Echo Macaense assumiu a atitude de “oposição”84, o que perspectivou o fim do jornal, cujo último número sairia a 17 de Setembro de 1899, ainda que inesperado, para a equipa jornalística, já que pelas palavras referidas no final da 1ª página – “no proximo numero diremos o resto, por nos escassearem agora tempo e espaço” – deixava subentender a continuidade da sua publicação.
A extinção do periódico apareceu ligada a uma notícia em que o jornal denunciava a falsidade de passaportes passados pelas autoridades competentes de Macau a emigrantes chineses (estudantes e comerciantes) e os abusos e irregularidades cometidos pelas entidades locais. Os responsáveis pelo periódico vão ser acusados de ter cometido o crime de difamação e vão ser alvo de perseguição por parte do agente do Ministério Público, chegando o caso a julgamento. A 3 de Setembro de 1899 era referido no jornal o seguinte: “[S]e por ventura, viermos a ser condemnados não será esta a primeira vez que soffre quem diz a verdade com desassombro”85. Só que desta vez o desfecho conduziu ao encerramento de um semanário que contava já 6 anos de publicação.
Não se pode deixar de relativizar a importância atribuída à publicação da notícia sobre o envolvimento das autoridades locais em actos ilícitos para o encerramento do jornal. Com efeito, terá contribuído e acelerado o processo de extinção do Eco Macaense toda a estratégia de afastamento dos familiares dos seus redactores e colaboradores, usada pela governador Galhardo para silenciar este periódico.
Sobre este mesmo assunto escrevem os redactores:
82 Ver anexo 10. 83 EM 11.04.1897, p. 1 84 MESQUITA, 2000: 579. 85 EM 03.09.1899, p. 1
“S. exa. sacrificou-nos conveniências de família, e que mais nos póde fazer? A ferida cura-se, mas a cicatriz fica, não para nos imprimir a ideia de vingança, que alberga em peitos vis, mas para intensificar a nossa resolução de dizer sempre a verdade, e de apreciar os actos da actual administração pelo criterio dos verdadeiros interesses da colonia sem olhar a conveniencias de especie alguma”86.
Apesar destas palavras de auto-incentivo à continuação dos seus propósitos – dizer a verdade e pugnar pelos interesses de Macau – a realidade era que a “franqueza e oposição” do jornal estavam a ter sequelas pessoais e familiares difíceis de ultrapassar. Como nos é dado a perceber pelas notícias do Eco Macaense :
- A 23 de Abril de 1899 é publicada a intenção (do governador) de se extinguir o lugar de professor de educação física na Escola Central do sexo masculino e da escola Príncipe Carlos, destinada ao ensino de português para alunos chineses. Ambos os cargos eram desempenhados por Artur da Silva Basto, filho do redactor principal deste jornal, António Joaquim Basto.
- A 11 de Junho de 1899 é publicada a notícia com o título Bota-fora referindo-se à partida, para Lisboa, de Alfredo Pinto Lello e sua esposa Áurea Basto Lello, filha do redactor deste semanário. Os filhos do casal ficaram em Macau, o último dos quais recém-nascido. Dez dias foi o prazo que este indivíduo teve para deixar Macau. Segundo o Eco Macaense esta retirada foi solicitada pelo governador.
- A 30 de Julho de 1899 é noticiada a partida, para a metrópole, de António José Gonçalves Pereira, médico naval, afecto ao quadro de saúde de Macau e Timor, seus filhos e esposa, Edith Nolasco, filha de Pedro Nolasco da Silva, ex-redactor deste jornal, amigo e, possível, colaborador do corpo redactorial do Eco Macaense.
Assim, se acrescenta que a dor da “expulsão” e do afastamento de familiares tivessem sido razões incontornáveis ao desaparecimento deste hebdomadário e com ele o propósito de “defender os interesses dos
macaenses, (...) na história da Imprensa local como algo de «sui-generis»”87. Com efeito os objectivos de fundação do Echo Macaense eram perceptíveis, no número do primeiro aniversário – 18/07/1894 – (devido à impossibilidade de acesso ao primeiro número do jornal):
“Este nosso semanário (...) nunca se affastou do seu proposito de pugnar pelos legitimos interesses do paiz, pela verdade e pela justiça. (...) Inspirando-se nos interesses permanentes de Macau, zele sempre pelo fiel cumprimento das leis, que é a mais segura garantia dos direitos populares; que exponha com desassombro as aspirações, as ideias e os sentimentos dos que teem de aqui permanecer toda a vida, e por isso não se deixam facilmente arrastar por quaesquer vantagens ephemeras e fugitivas que prejudiquem o futuro da colonia; que sirva, senão de dique, ao menos de protesto contra qualquer denegação de justiça, contra medidas nocivas ao paiz, e principalmente contra tudo o que possa cavar a ruina do commercio e da industria, que dão vida a esta cidade; que emfim defenda com prudencia e circumspecção todos os interesses legitimos de Macau e dos macaenses.
Estes eram os intuitos que nos moveram a fundar o jornal, e continuarão a ser norma do nosso procedimento futuro”88.
Regista-se que a intenção dos seus redactores foi, desde o início, a do discurso da verdade e da justiça. O Eco Macaense estaria ao serviço dos que viviam permanentemente em Macau. A indústria e o comércio apareciam como os sustentáculos da economia macaense, assim, todo e qualquer indivíduo que, através de um acto ou decisão, pusesse em perigo o pleno desenvolvimento de Macau, teria no periódico um enérgico opositor. O cumprimento da lei surgia como garante dos direitos dos macaenses.
87 GUEDES, 1987: 14. 88 EM 18.07.1894, p. 1