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A REESTRUTURAÇÃO DO SISTEMA ECONÔMICO MUNDIAL

1.3 A REESTRUTURAÇÃO RECENTE DO SISTEMA ECONÔMICO MUNDIAL 1 ANTECEDENTES: O FORDISMO-KEYNESIANO

1.3.3 A REORGANIZAÇÃO ESPACIAL DA DIVISÃO DO TRABALHO

A mudança do paradigma de desenvolvimento econômico causou uma série de conseqüências (algumas delas já mencionadas na seção anterior) nos países do mundo em diversos aspectos estabelecidos, tais como político-econômicos, produtivos, socioculturais e físico-espaciais (quadro 1.1 na página 40). Essa seção analisará os três primeiros, sendo que o quarto será analisado nos próximos capítulos.

Conforme já mencionado, o primeiro impacto da reestruturação econômica foi a alteração das vantagens comparativas produtivas, estabelecendo uma NDIT, onde as antigas potências industriais transfeririam parte da produção industrial mundial para alguns países periféricos.

Apesar de a internacionalização do capital produtivo existir desde o começo do século, através da ação dos trustes americanos e dos cartéis europeus e da expansão dos empréstimos internacionais, o fenômeno que começou a ocorrer a partir de 1960 ocasionou uma mudança, pois a transferência da produção industrial para a periferia tinha como finalidade suprir o comércio mundial e não mais o local, como pode ser visto nas palavras de Kucinski:

"O alcance da Nova Divisão Internacional do Trabalho pode ser medido pelo fato de que, em 1960, praticamente não havia produção industrial na periferia destinada aos países industrializados do centro. Dez anos depois, haviam fábricas em 39 países, produzindo para países do centro." (Kucisnki, 1996, pág. 87)

Países como Brasil, Coréia, Espanha, Filipinas, Hong Kong, Malaísia, México, Portugal, Cingapura, Taiwan, que até então baseavam a maior parte da sua produção na exploração de matéria-prima e produtos agrícolas, adotaram um "fordismo periférico"28, apresentando um grande desenvolvimento industrial e constituindo o grupo que hoje é denominado de Países Recém Industrializados ou PRIs (Lipietz, 1988; Soja, 1993).

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A validade da utilização dessa expressão, "fordismo periférico", será analisada com maior profundidade no Capítulo III, pois a semana de 8 horas por 5 dólares nunca foi implantada na periferia. Contudo, não se pode ignorar que as multinacionais exportaram as idéias advogadas por Ford, tais como a produção em escala para reduzir os custos e a organização do trabalho fordista-taylorista da linha de produção.

Do ponto de vista de caracterização geográfica, isso veio a criar uma nova dinâmica de relações, muito mais complexas, tanto nacionais como regionais e locais, invertendo a lógica anteriormente estabelecida. A decadência industrial dos países centrais e a rápida industrialização de alguns países periféricos acabou por ocasionar uma “inversão do papel das regiões” (Soja, 1993, pág. 208), desafiando o dualismo simplista da compartimentalização Norte/Sul.

Friedmann e Wolff (1982) tentaram compreender esses novos papéis se utilizando do modelo teórico de Wallerstein (conforme seção 1.2.1), propondo a inclusão dos países de capitalismo avançado (antigas potências industriais) no bloco dos países centrais, responsáveis pela coordenação do sistema em nível global, já os PRIs ficariam no blocos de países semiperiféricos, responsáveis pela organização e expansão do sistema para o bloco dos países periféricos, constituído dos demais países fornecedores de matéria-prima e de participação reduzida.

Contudo, conforme Lipietz (1988), a relação centro/periferia é uma relação de processos e de regimes de acumulação mais ou menos autônomos, em vez de ser uma simples relação de estados-nações como propuseram Friedmann e Wolff. Ainda assim, pode-se constatar que os PRIs realmente passaram a assumir uma nova posição dentro do sistema econômico mundial a partir da década de 70, em função do grande crescimento econômico resultante de IEDs e empréstimos internacionais, aumentando a sua produção e exportação de produtos manufaturados (tabela 1.1).

Evolução da participação de produtos manufaturados no PIB e exportações de PRIs selecionados (%). PIB Exportações 1960 1970 1980 1988 1960 1970 1980 1988 Brasil 21,6 29,4 36,4 30,9 - 14,2 38,7 47,8 Coréia 9,9 15,7 29,7 35,8 - 76,8 89,9 93,1 Malaísia 8,8 11,9 20,6 - - 7,4 19,0 45,2 México 22,6 26,3 22,1 29,6 - 32,5 14,6 55,8 Cingapura 9,2 20,0 29,1 32,4 - 30,5 54,4 74,3

Tabela 1.1: Evolução da participação de produtos manufaturados no PIB e exportações de PRIs selecionados. Fonte: World Bank, 1976; 1991.

Enquanto a indústria aumentava a sua participação nos PRIs, o declínio de sua importância nos países centrais foi compensado pelo grande aumento no setor de serviços (Harvey, 1989). Em vários países centrais29 a porcentagem de empregos no setor de serviços aumentou consideravelmente, passando de 40% para 60% do total de empregos entre 1960 a 1981, com casos extremos de grandes perdas de empregos industriais 30 (gráfico 1.1).

Gráfico 1.1: Evolução dos empregos por setor em países- membros da OECD. Fonte: Harvey, 1989.

Isso ocorre em função da reestruturação de investimentos das grandes corporações: para manter a acumulação capitalista numa sociedade pós-industrial e de acumulação flexível, as grandes corporações estão investindo menos na produção industrial e mais na diversificação produtiva (Soja, 1993).

Assim sendo, as grandes corporações deixam de basear a sua produção em um único segmento produtivo e atuam em diversos setores, tais como finanças, imóveis, entretenimento, turismo, lazer, educação etc.

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No caso: Austrália, Canadá, França, ex-Alemanha Ocidental, Itália, Japão, Espanha, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos (Harvey, op. cit.). Os dados foram fornecidos pela OECD – Organization for

Economic Cooperation and Development, organização criada para fomentar o comércio e a cooperação

econômica entre os países-membros, na sua maioria grande potências econômicas.

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Principalmente Austrália e Reino Unido, que perderam em torno de 10% (Ibid.)

1960 1973 1981 Agricultura Indústria Serviços 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60%

Outro motivo para o crescimento de setor de serviços é a crescente terceirização que vem ocorrendo. Fruto da especialização flexível, a produção industrial deixa de ser centralizada em grandes complexos industriais e passa a ser dispersa numa constelação de subsidiárias e subempreiteiras (ibid.).

Por fim, a reestruturação econômica e a adoção de novos paradigmas político- econômico e tecnológico trouxeram também outras conseqüências de cunho social e cultural que, embora não sejam tema específico desse trabalho, merecem algum destaque.

Do ponto de vista cultural, o uso extensivo dos novos meios de comunicação, presentes no novo paradigma tecnológico, acabou por modificar a forma com que o indivíduo percebe, age e se relaciona com a realidade, tempo e espaço, ao que Harvey denominou de “Condição Pós Moderna” (Harvey, op. cit.).

A diminuição da percepção da divisão entre realidade e imaginário ocasionada pelo uso extensivo da mídia e da telemática e as possibilidades de se criar realidades virtuais advindas dessa nova tecnologia acabou por mudar a forma de ação das pessoas sobre a realidade.

A formação de uma rede internacional de telecomunicações – que do lado econômico possibilitou a globalização financeira – tem possibilitado a formação da síndrome da “aldeia global” do lado sociocultural, onde a conexão em tempo real, a sobrecarga de informações e imagens acabaram por criar um novo imaginário coletivo em nível global (Reeve, 1994).

Possibilitadas por esse bombardeamento constante de informações, comunidades dispersas pelo mundo acabaram por criar identidades culturais plurais e trans- nacionais, fragmentando o conceitos de identidade e cultura nacionais. O surgimento dos movimentos civis, tais como os raciais, ecológicos etc. nada mais é do que a criação dessas novas identidades, independente das distâncias que separam os grupos.

Como conseqüência da diminuição do senso de nacionalidade, do aumento das identidades culturais distintas (principalmente étnicas) e das várias migrações ocorridas, ocorreu uma reação de grupos étnicos conservadores com a formação de correntes ideológicas ultranacionalistas.

Na arquitetura e no urbanismo, as reestruturações culturais resultaram no Movimento Pós-Moderno, onde as construções e as cidades passaram a ter uma aparência cenográfica remetendo o indivíduo a algum lugar, mesmo que esse lugar nunca tenha existido.

O domínio da imagem e a cópia de estilos passados resultou na perda do significado do espaço onde a virtualidade começou a se impor sobre lugar real e onde incoerências espaciais, sociais e estéticas tornaram-se normais. Contudo, os impactos da reestruturação econômica sobre a estruturação do território e suas implicações espaciais serão analisados com mais profundidade nos próximos capítulos.

Características Regime de Acumulação Fordista-Keynesiano

Regime de Acumulação Flexível

Político-Econômica Estado do bem-estar social Regulamentação Poder estatal Keynesianismo Nacionalismo Industrialismo Sindicalização Estado neoliberal Desregulamentação Poder corporativo Monetarismo Etnicismo Pós-industrialismo Negociação

Produção Fordismo taylorista

Capital produtivo Industrialização Grande complexos Industriais Produção em massa Concentrada Rígida Padronizada Base material Especialização flexível Capital financeiro Terciarização Pequenas unidades Produtivas Produção just-in-time Dispersa Flexível Diversificada Base “informacional” Cultura Modernismo Monoculturalismo Paradigmática Ordem Necessidade Função Realidade Pós-Modernismo Pluralismo Eclética Anarquia Desejo Significado Virtualidade Efeitos e Implicações Espaciais Concentração Centralização Planejamento urbano Suburbanização Funções urbanas Comunidade Dispersão Periferização Desenho urbano Renovação urbana Paisagens urbanas Localidade

Quadro 1.1: Implicações da mudança dos paradigmas de desenvolvimento. Baseado em Harvey, 1989; Soja, 1993 e Reeve, 1994.

CAPÍTULO 2