CAPÍTULO 3 – TEORIA GERAL DA PROVA
3.1. A PROVA E A VERDADE
3.1.3. A I RRELEVÂNCIA DA VERDADE NO PROCESSO
Há correntes que não discutem se a verdade é ou não viável teoricamente, se é desejável ou não, ou se é ou não possível: simplesmente sustentam ser a verdade irrelevante para os escopos do processo353. A diferença entre as teorias que negam a possibilidade da verdade e as teorias que consideram irrelevante a verdade no processo é tênue. Neste último caso, a questão da verdade não é um fator de indagação relevante, pois, sendo ou não encontrada no processo, ela não faz a menor diferença, pois o processo é discurso, e como tal, encontra sua fundamentação dentro do próprio discurso e não fora dele.
3.1.3.1. A interpretação retórica do processo
A primeira variante das doutrinas que consideram irrelevante o estabelecimento da verdade no processo é a que se funda sobre uma interpretação retórica do processo. Entende-se, por esse pensamento, que o processo é um jogo persuasivo, que se esgota no âmbito da argumentação jurídica. CHAIM PERELMAN diz que o problema do juízo dos fatos se resolve na narração – “stories” – dos fatos apresentados pelo advogado, que
353 TARUFFO, La prova..., op. cit., p. 27.
devem assumir uma forma clara, coerente e completa, de acordo com o senso comum354. A finalidade da narração é a persuasão do juiz e o que importa são as táticas utilizadas pelo advogado para vencer a contenda. A retórica visa ganhar o consenso sobre uma tese qualquer, conforme critérios de conveniência e eficácia. Seu valor está na persuasão de qualquer um sobre qualquer coisa. Por isso, a verdade é indiferente, ou pode ser definida como a versão dos fatos mais persuasiva. É a visão do ceticismo advocatício. Não existem fenômenos de conhecimento dos fatos, só de persuasão355.
3.1.3.2. Aplicação de métodos e modelos semióticos ao problema jurídico
A segunda variante foca-se nas correntes que privilegiam o aspecto lingüístico do Direito, utilizando-se de métodos semióticos de interpretação. Sob tal perspectiva, assim como na interpretação retórica, considera-se o processo um lugar no qual se desenvolvem diálogos, em que são elaboradas propostas de narração. Analisa-se o Direito sob o ponto de vista das estruturas lingüísticas e semióticas.
A análise semiótica pressupõe uma concepção não-referencial ou autoreferencial da linguagem. A linguagem fala sobre si mesma: não se refere a alguma realidade, mas somente a entidades lingüísticas. Não há correspondência entre expressões lingüísticas e dados empíricos extralingüísticos. Cada expressão somente se refere a uma outra expressão lingüística e somente pode ser traduzida em expressão lingüística. A determinação do significado aparece somente no interior da linguagem, sem nenhuma relação com a realidade empírica, cuja existência é posta em dúvida. Sob tal ângulo, sendo somente relevante a dimensão semiótica do discurso, a definição da verdade no processo assume função irrelevante. Fala-se em uma “pretensão de verdade”, que não é mais do que uma parte do discurso, um elemento de mensagem do narrador, mas que nada diz sobre a verdade dos fatos. A verdade da narração de um fato encontra-se rigorosamente no interior da dimensão lingüística da narração e não se preocupa com a relação entre a narração e a realidade narrada.
354 Apud ibidem, p. 28-29.
355 Ibidem, p. 29-30. No mesmo sentido, entendem MARINONI E ARENHART que “...a prova não tem por objeto a reconstrução dos fatos, que servirão de supedâneo para a incidência da regra jurídica abstrata que deverá (em concretizando-se na sentença) reger o caso concreto”, mas que sua função é “...prestar-se como peça de argumentação, no diálogo judicial, elemento de convencimento do Estado-Jurisdição sobre qual das partes deverá ser beneficiada com a proteção jurídica do órgão estatal” – Comentários..., t. 1, op. cit., p. 63.
Há uma preocupação com a plausibilidade e coerência dos elementos lingüísticos estruturais356.
Na doutrina brasileira, recentes estudos na área do Direito Tributário têm seguido os modelos semióticos e as teorias da linguagem para explicar a constituição dos fatos jurídicos, dando especial relevo à teoria da prova. Expoente desse pensamento é FABIANA DEL PADRE TOMÉ, que, ao tratar da prova no Direito Tributário, fixou suas premissas acerca da verdade nos termos dos modelos semióticos e da filosofia da linguagem357. Segundo essa autora – que segue o pensamento de PAULO DE BARROS CARVALHO acerca da valorização da linguagem no direito – , a compreensão das coisas dá-se pela preexistência de uma linguagem, que é capaz de criar tanto o dá-ser cognoscente como a realidade. O conhecimento é relação entre linguagens358. Considerando-se que o conhecimento e seu objeto são construções intelectuais, sua existência dá-se pela linguagem:
metalinguagem o primeiro e linguagem-objeto o segundo. Só há realidade onde atua a linguagem, assim como somente é possível conhecer o real mediante enunciados lingüísticos.
O que ficar de fora da linguagem permanece no campo das sensações, e, se não forem objetivadas, no âmbito das interações sociais, dissolver-se-ão no fluxo temporal da consciência, não caracterizando o conhecimento em sua forma plena359.
Temos para nós que o sentido de um significado não se confunde com o referente, considerada a coisa em si mesma: seu significado nada mais é que outro significante.
Pensamos não existir correspondência entre as palavras e os objetos. A linguagem não reflete as coisas tais como são (filosofia do ser) ou tais como desinteressadamente percebe uma consciência, sem qualquer influencia cultural (filosofia da consciência).
A significação de um vocábulo não depende da relação com a coisa, mas do vínculo que estabelece com outras palavras. Nessa concepção, a palavra precede os objetos, criando-os, constituindo-os para o ser cognoscente (grifos nossos)360.
Seu conceito de verdade é coerente com a linha teórica que segue:
A verdade não se descobre: inventa-se, cria-se, constrói-se. Não há uma verdade objetiva, isto é, uma verdade que possa reclamar verdade universal. A verdade é sempre relativa, configurando, como assevera Richard Rorty, ‘o êxito de um discurso no mercado de idéias’361.
356 TARUFFO, La prova..., op. cit., p. 31-33.
357 A prova..., op. cit, passim.
358 Ibidem, p. 1.
359 Ibidem, p. 3.
360 Ibidem, p. 4-5.
361 Ibidem, p. 16.
Com efeito, o conceito de verdade adotado pela jurista paulista está plenamente de acordo com as premissas a que se filia.
Se para os seguidores dos modelos semióticos, a verdade não encontra referencial fora do discurso, mas somente dentro dele, resta claro que a verdade, para tais concepções, não é relevante.
3.1.3.3. Críticas aos modelos retóricos e semióticos de interpretação do direito
Entendemos que os modelos semióticos e retóricos de interpretação do direito incorrem em uma simplificação unilateral e absoluta do problema da verdade no processo. De fato, é possível concordar com a idéia de que o processo é discurso, de que a persuasão é um componente importante no jogo processual, e de que os fatos emergem essencialmente na forma de narração sobre fatos. Também se reconhece a utilidade dos instrumentos semióticos e de análise da linguagem no processo, especialmente em relação à prova, que é a linguagem dos fatos no processo. Ainda, não se duvida de que no problema do juízo de fato, exista uma relevante dimensão semiótico-linguística. No entanto, o problema da verdade não se pode reduzir apenas ao âmbito do discurso e da linguagem. RICHARD KIRKHAM, ao tratar de teorias da verdade afirma que “...a análise lingüística é um instrumento importante da filosofia, mas ela dificilmente resolve uma questão metafísica (ou evita seu aparecimento)”362. Sendo a verdade uma questão metafísica, uma teoria da linguagem não possui o instrumental para resolvê-la. Desse modo, parece-nos que nem a análise semiótica do Direito nem os modelos retóricos dão conta de todo o problema da verdade363. Pensamos que, talvez, essa nem seja a principal preocupação dessas teorias, o que explicaria a redução do conceito de verdade à idéia de persuasão ou de coerência entre os diversos níveis da linguagem.
362 Teorias..., op. cit., p. 106.
363 TARUFFO, La prova..., op. cit, p. 34-35.