CAPÍTULO 3 – TEORIA GERAL DA PROVA
3.1. A PROVA E A VERDADE
3.1.4. T EORIAS ACERCA DA POSSIBILIDADE DA VERDADE
3.1.4.1. A possibilidade teórica
As teorias da verdade por correspondência são as mais difundidas entre os juristas e até mesmo entre os filósofos e, de modo bastante geral, pregam que a verdade é a correspondência entre “portadores de verdade”, que são tipos de coisas que podem ter o valor de verdade ou falsidade, e a realidade empírica364. A verdade material seria a correspondência absoluta entre o fato e as provas365.
A mais difusa e genérica teoria da verdade por correspondência pressupõe a existência de uma realidade empírica e da capacidade do intelecto humano de conhecer verdadeiramente a realidade. Com freqüência, os juristas que sustentam ser objeto do processo a busca pela verdade material defendem essa teoria, sem qualquer aprofundamento teórico e com base no senso comum.
Críticas não faltam à teoria “ingênua” da verdade como correspondência366. LUIGI FERRAJOLI assevera que “...o modelo iluminista da perfeita ‘correspondência’entre
364 De acordo com KIRKHAM, consideram-se portadores de verdade: ocorrências de sentença, que são entidades físicas que veiculam grafemas e fonemas que formam as sentenças; tipos de sentença, correspondentes ao conjunto de ocorrências de sentença, cada qual desempenhando o mesmo papel, possuem o mesmo significado; proposição, que é uma entidade abstrata, o conteúdo informacional de uma sentença completa, no modo declarativo; declaração, que é a ação de criar uma ocorrência de sentença; asserção, tipo de declaração que cria ocorrência de sentença declarativa, com o propósito de comunicar informações; crenças, que são entidades mentais acerca de proposições, sentenças etc. A escolha do portador de verdade varia de teoria para teoria. Em nosso caso, admitiremos que portadores de verdade são afirmações, que podem ser consideradas as ocorrências de sentenças, os tipos de sentenças ou as asserções. Todas elas veiculam proposições, que consistem no conteúdo das afirmações. Para aprofundamento acerca dos portadores de verdade, consultar RICHARD KIRKHAM, Teorias..., op. cit., p. 85-101.
365 Verdade material, verdade absoluta, verdade objetiva, verdade pura, verdade tout court: todas essas expressões são utilizadas, aqui, como sinônimas
366 “Um desses modos, que parece ser o mais difundido entre os juristas, mas não é isento de manifestações entre os filósofos, consiste, simplesmente, em considerar por certa a possibilidade de que no processo se determine a verdade dos fatos. De modo isolado, este argumento relaciona-se com algumas formas mais ou menos consciente de ‘realismo ingênuo’, ou seja, da pressuposição da existência da realidade empírica e da capacidade do intelecto humano de obter conhecimentos verdadeiros sobre tal realidade; não faltam outras versões, muito genéricas, da teoria da corrspondencia, nas quais se afirma que o conhecimento ‘corresponde’ à relidade, sendo, justamente, por tal razão, verdadeira”. O original em italiano vem assim disposto: “Uno di questi modi, che sembra essere più diffuso tra i giuristi ma non è privo di manifestazioni tra i filosofi, consiste semplicemente nel dare per scontata la possibilità che nel processo si accerti la verità dei fatti. Solitamente questo attegiamento muove da qualche forma più o meno consapevole di ‘realismo ingenuo’, ossia dalla presupposizione dell’esistenza della realtà empirica e della capacità dell’intelletto umano di avere conoscenze veritiere intorno a tale realtà; non mancano d’altronde versioni anche assai generiche della ‘teoria della corrispondenza’ nelle quali si dá per scontato que la conoscenza ‘corrisponda’ alla realtà, essendo appunto per questa ragione veritiera” –TARUFFO, La prova..., op. cit., p. 35-36.
previsões legais e fatos concretos e do juízo como aplicação mecânica da lei é uma ingenuidade filosófica viciada pelo realismo metafísico”367. Segundo o jurista italiano, o descrédito científico que acompanha a noção ingênua de verdade como correspondência tem gerado na cultura jurídica, “...na falta de alternativas epistemológicas adequadas, uma difusa desconfiança em face do mesmo conceito de ‘verdade’ no processo, alimentando atitudes cépticas e tentações decisionistas”368.
Contra a teoria da verdade por correspondência, FABIANA DEL PADRE TOMÉ afirma que o primeiro problema dessa corrente é “...ignorar o fato de que o mundo da experiência não pode ser integralmente descrito pela linguagem e, portanto, de que a proposição não o espelha de forma completa.” O sujeito que conhece o objeto somente o percebe de modo parcial, pois “...o real é infinito e irrepetível, possuindo cada objeto, um número indeterminado de determinações”369. O segundo problema detectado pela autora, assente com os modelos semióticos de interpretação do Direito, consiste no entendimento de que as coisas só existem para o ser humano a partir do instante em que se tornam inteligíveis para ele, dependendo da sua constituição em linguagem. “Disso decorre que a proposição cuja veracidade se examina não se refere ao objeto-em-si, mas ao enunciado lingüístico que a compõe, inexistindo aquela suposta correspondência entre a linguagem e algo exterior a ela”370.
No mesmo sentido, MARIA RITA FERRAGUT critica a teoria da verdade como correspondência por entender que seu problema “...é ignorar o fato de que o objeto do conhecimento não pode ser integralmente descrito pela linguagem e, portanto, a proposição não tem como espelhar o objeto de forma completa”371.
A ingenuidade da teoria da verdade por correspondência genericamente difundida na filosofia e no direito não significa que não se possa admitir qualquer outra forma de realismo, de modo a resgatar um conceito de verdade apropriado para o processo. O realismo crítico foge das concepções superficiais do realismo acrítico, ingênuo, e alberga pelo menos uma teoria da verdade como correspondência aceitável e sensata, que é a
“concepção semântica de verdade”, formulada por ALFRED TARSKI372. A concepção semântica da verdade veicula uma teoria que não desprega totalmente a linguagem da
367 Direito e razão: teoria do garantismo penal, p. 49.
368 Ibidem, p. 50.
369 A prova..., op. cit, p. 11.
370 Ibidem, p. 12.
371 Presunções..., op. cit, p. 74.
372 A concepção semântica da verdade.
realidade empírica e que não se reduz à coerência interna do discurso. A exigência de coerência sintática do discurso, com efeito, não contradiz a teoria semântica da verdade como correspondência, uma vez que essa teoria se propõe a fornecer o significado de verdade, e não critérios para se aferir uma afirmação é verdadeira ou falsa. Somente nesse sentido se pode falar racionalmente em realidade, em termos de verdade das asserções sobre os fatos373. A esse tema retornaremos, ao tratar da nossa visão sobre a verdade.
3.1.4.2. A oportunidade ideológica
Além de ser teoricamente possível, a verdade é um valor que deve ser perseguido no processo: a verdade é possível, necessária e oportuna. Toma-se como premissa que o escopo do processo é solucionar conflitos mediante a produção de decisões justas.
Existem diversas teorias sobre os critérios sob os quais deveriam ser produzidas decisões justas, sua definição e valoração no caso concreto374. O fato é que, independentemente do critério de justiça da decisão, pode-se dizer que ela nunca será justa se estiver fundada sobre um critério errôneo ou inatendível de determinação dos fatos. A veracidade do juízo sobre os fatos é uma condição necessária – mas não suficiente – para que se possa dizer que uma decisão é justa. Uma parte da margem de injustiça nas decisões corresponde ao eventual desvio entre os fatos concretos e a sua descrição na decisão375.
Considerar-se que a verdade seja necessária e desejável no processo não é incompatível com as teorias que sustentam ser a solução de conflitos a finalidade do processo.
Em não se aceitando que a finalidade do processo seja a produção de qualquer decisão que solucione um conflito, independentemente do seu conteúdo, podemos utilizar como critério de decisão justa, com vistas a solucionar um conflito no processo, a determinação verdadeira dos fatos. Com efeito, não se pode considerar justa uma decisão que se fundamente em fatos falsos.
O “princípio” da verdade no processo relaciona-se com a estrutura das normas jurídicas, conforme exposto no capítulo anterior. A ocorrência concreta de um
373 TARUFFO, La prova..., op. cit., p. 38.
374 Como exemplo, cita-se “Uma teoria de justiça”, de JOHN RAWLS, que é uma teoria procedimental, que prega que a justiça do procedimento é capaz, por si só, de produzir decisões justas.
375 TARUFFO, La prova..., op. cit., p. 43.
acontecimento fático correspondente ao descrito na hipótese da norma jurídica instaura, imediatamente, a relação jurídica prevista no conseqüente normativo, prescrevendo condutas.
Assim, é evidente que nenhuma norma pode ser corretamente aplicada se não quando se verificam os fatos correspondentes ao descrito na hipótese normativa. A aplicação da norma deve corresponder à sua incidência, o que pode ser traduzido em uma exigência de apuração verdadeira dos fatos para que a norma seja aplicada. Por outro lado, uma norma é injustamente aplicada ou violada se as conseqüências jurídicas que prevê são efetivadas em um caso no qual não ocorreram seus pressupostos fáticos. Em outras palavras, a aplicação é injusta quando não corresponde à incidência.
3.1.4.3. A possibilidade prática
Finalmente, passamos a tratar da possibilidade prática da obtenção da verdade. Com efeito, de tudo o que se já se expôs sobre a verdade, resta claro que a busca pela verdade absoluta não pode ser o fim nem do processo nem de nenhum outro procedimento cognitivo, pois a verdade é sempre limitada pelos instrumentos de conhecimento humano e pelo próprio sujeito que a procura conhecer. Assim sendo, e considerando os limites do sistema jurídico, se existe alguma verdade passível de ser conhecida, somente podemos considerar como hipótese de trabalho uma verdade que seja relativa, pois a verdade absoluta é metafísica376.
Se quisermos adotar uma postura diferente da cética, ou se entendemos que a verdade é um valor que merece ser perseguido tendo em vista que o processo busca produzir decisões justas, racionalmente fundamentadas, ou ainda, se estabelecemos como premissa que o processo visa a eliminação dos conflitos sem que isso exclua a busca pela verdade dos fatos, somos levados a considerar que a verdade pode ser conhecida na prática, através dos
376 “A distinção entre verdade absoluta e verdade relativa, aparece, porém, substancialmente, sem sentido. Na cultura atual, fala-se de verdades absolutas somente no ambito da metafísicas e em algumas religiões integralistas. Nem mesmo a ciência, de fato, fala mais de verdades absolutas, e, na vida quotidiana, somente alguém, irremediavelmente presunçoso, pode afirmar que as suas verdades são absolutas”. Conforme os originais, em italiano: “La distinzione tra verità assoluta e verità relativa appare, però, sostanzialmente priva di senso. Nella cultura attuale si parla di verità assolute soltanto in qualche metafísica e in qualche religione integralista. Neppure la scienza, infatti, parla più di verità assolute, e nella vita quotidiana solo qualuno irremediabilmente ammalato di presunzione può affermare que le sue verità sono assolute” – TARUFFO, Verità e probabilità..., op. cit, p. 212.
instrumentos postos ao nosso alcance pelo processo. Estamos tratando, obviamente, de uma verdade possível, atingível, palpável, e, portanto, relativa377.
Os meios de estabelecimento da verdade dos fatos, no processo, variam conforme o ordenamento jurídico. Primeiramente, a verdade dos fatos no processo é relativa ao contexto em que o processo se desenvolve. A estrutura do processo, seus escopos, os valores que visa realizar, e, principalmente, a disciplina legal das provas e da determinação dos fatos definem o contexto que relativiza a verdade que se busca e se obtém. Pode ocorrer que, em um específico contexto processual, existam regras ou elementos de estrutura que impedem que a verdade seja perseguida, mas também pode haver contextos estruturados para perseguir a verdade com instrumentos idôneos para tanto378.
O ordenamento jurídico-positivo brasileiro é o contexto no qual se desenvolve a prova, no processo administrativo tributário, e é de acordo com esse contexto que verificaremos quais os limites e garantias à sua realização, e, portanto, em que medida a verdade pode ser perseguida e estabelecida no processo. Os limites práticos à verdade no processo, portanto, são estabelecidos pelo sistema de regras jurídicas em que o processo se desenvolve, não se podendo falar em possibilidade prática da verdade senão em um contexto específico.
Em suma, a disciplina legal das provas não é, por si, um obstáculo ao acertamento da verdade dos fatos no processo, pois, se consideramos que a única verdade possível é a verdade relativa, em qualquer esfera do conhecimento, a verdade processual é, inevitavelmente, uma verdade relativa ligada ao contexto em que é estabelecida. Qual o tipo de verdade estabelecida no processo, em que medida é atendível e o quão longe ou perto está da verdade que pode ser estabelecida em outros contextos cognoscitivos, é um problema que somente pode obter solução concreta e específica em função da natureza, amplitude e incidência dos limites que as normas jurídicas de um determinado ordenamento positivo estabelecem sobre a pesquisa de uma versão verdadeira dos fatos379.
377 Idem.
378 TARUFFO, La prova..., op. cit, p. 57.
379 Ibidem, p. 58.