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CAPÍTULO 3 – TEORIA GERAL DA PROVA

3.1. A PROVA E A VERDADE

3.1.5. A NOSSA IDÉIA DE VERDADE

3.1.5.7. Limites da verdade processual

Fixadas as premissas de que o significado da verdade processual, tomado de acordo com a concepção semântica da verdade tarskiana, é a correspondência com a realidade, de modo relativo e aproximativo do valor-limite, que é a verdade absoluta, passaremos a tratar dos limites epistemológicos e jurídicos para o seu estabelecimento.

421 Ibidem, p. 51.

3.1.5.7.1. A verdade processual não pode ser afirmada por proposições diretas

A verdade processual é um tipo particular de verdade histórica, cujas proposições se referem a fatos passados, não acessíveis diretamente à experiência. O que o aplicador do Direito experimenta são as provas e não os fatos. De acordo com CLARENCE I.

LEWIS, citado por FERRAJOLI, a verdade das proposições históricas pode ser enunciada somente pelos efeitos produzidos pelos fatos passados, pelos sinais do passado422. A verdade processual fática não é predicável em referencia direta ao fato julgado, mas é resultado de uma ilação dos fatos comprovados do passado a partir dos fatos probatórios do presente.

Assim, a atividade de apuração da verdade fática no processo dá-se por uma inferência indutiva, que tem por premissa a descrição do fato que se tem de explicar e as provas praticadas, e, como conclusão a enunciação do fato que se aceita como provado em função das premissas, e que equivale a uma hipótese de explicação423. A conclusão obtida tem o valor de uma hipótese de probabilidade, na ordem da conexão causal entre o fato aceito como provado e o conjunto dos fatos adotados como probatórios. A verdade da conclusão não é logicamente deduzida das premissas, mas somente é comprovada como logicamente provável ou razoavelmente plausível de acordo com um ou vários princípios de indução. As controvérsias fáticas no processo são, portanto, disputas entre hipóteses explicativas contraditórias. A tarefa da investigação é eliminar o dilema em favor da hipótese mais simples, dotada de maior capacidade explicativa e compatível com o maior número de provas e conhecimentos adquiridos com anterioridade424.

3.1.5.7.2. A verdade processual jurídica é resultado da subsunção.

A verdade processual jurídica decorre da subsunção. A operação é uma operação lógica, na qual se procede à classificação da hipótese normativa aplicável ao caso concreto. Verifica-se a partir de uma proposição condicional, em que figura no antecedente a conjunção de uma definição legal e da tese fática que descreve o fato provado, e, no conseqüente, a classificação do fato provado dentro da categoria dos fatos definidos pelo

422 Ibidem, p. 55.

423 Em sentido contrário, FABIANA DEL PADRE TOMÉ sustenta que a atividade probatória se utiliza de dedução e não de indução. Na indução parte-se de situações particulares para se concluir sobre algo geral. Na dedução, ao contrário, parte-se do geral para o particular. – A prova..., op.

cit., p. 133.

424 FERRAJOLI, Direito..., op. cit., p. 55-56.

conceito jurídico classificatório425. Para que a subsunção seja válida é necessário que o critério classificatório seja preciso, ou seja, que a hipótese normativa seja clara e específica, obedecendo ao princípio da estrita legalidade no que se refere à tipicidade. Os tipos legais devem ser objetivos e identificáveis. Alem disso, as proposições fáticas devem ser formuladas em termos jurídicos. O conceito do fato deve subsumir-se ao conceito da norma, como ensina ENGISH426.

3.1.5.7.3. A subjetividade inerente à atividade investigadora e julgadora

O aplicador do direito no processo é humano, o que impede, empiricamente, a impessoalidade absoluta no desenvolvimento das suas atividades. Muito embora seja princípio de direito administrativo a impessoalidade, que impõe a aplicação objetiva da legalidade, deve-se considerar que, na prática, existem circunstâncias ambientais em que o sujeito está inserido, bem como sentimentos, inclinações, emoções, valores éticos etc, que interferem na sua subjetividade. Desse modo, por mais que a atividade da Administração Pública seja juridicamente guiada pelo principio da impessoalidade, não se pode ignorar as circunstâncias empíricas em que a atividade interpretativa da lei e dos fatos se desenvolve. O preconceito é próprio a todas as formas de conhecimento empírico e toda construção histórica é necessariamente seletiva e orientada por pontos de vista, interesses historiográficos e hipóteses interpretativas427.

3.1.5.7.4. Os métodos legais de comprovação dos fatos no processo

As provas realizadas no processo – civil, penal, administrativo, tributário etc – são, em maior ou menor medida, reguladas normativamente. As normas jurídicas relacionadas às provas conferem validez às verdades adquiridas no curso do processo, bem como firmam o caráter autoritativo e convencional da verdade processual, afastando-a da

425 Ibidem, p. 56-57. É importante lembrar a tese mais recente de PAULO DE BARROS CARVALHO, para quem a subsunção dá-se entre o fato e a norma, pois ambos são linguagens. Isso porque, para ele, o fato jurídico é o evento, o acontecimento do mundo social, vertido na linguagem das provas. Por isso, a subsunção somente pode ocorrer, em tal teoria, após o relato do evento na linguagem das provas, o que o promoveria a fato, passível de subsunção com as normas jurídicas – Direito tributário, p. 7-12 e 84 e ss.

426 “...a subsunção dum caso a um conceito jurídico representa uma relação em conceitos, pois que de outra forma – como facto – não é conhecido, ao passo que os conceitos jurídicos, como o seu nome o diz, são sempre pensados na forma conceitual. São, portanto, subsumidos conceitos de fatos a conceitos jurídicos”. – Introdução..., op. cit., p. 95.

427 FERRAJOLI, Direito..., op. cit., p. 58-61.

correspondência objetiva com a realidade empírica. Ainda que em um específico ordenamento jurídico incida o princípio da livre apreciação das provas, alguma regulação jurídica sempre existe e por isso, a verdade processual é sempre relativa. A existência de limites normativos à verdade não significa um desvalor para o processo, visto que em muitos casos, as regras limitadoras são garantias a direitos fundamentais das pessoas, visando prevenir o arbítrio e o abuso dos órgãos julgadores428.

Os limites à verdade podem ser normas que excluem a possibilidade do uso de determinados tipos de prova, normas que prescrevem procedimentos específicos de aquisição de prova no processo, normas relacionadas à valoração das provas e normas preclusivas, que impõem a finalização da fase probatória e do processo.