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CAPÍTULO 4 – A PROVA NO LANÇAMENTO E NO PROCESSO

4.1.3.1. A verdade material

Expusemos, no terceiro capítulo, que a verdade é um valor que deve ser perseguido no processo. Por um lado, aderimos à idéia de que a verdade absoluta jamais é atingida na sua plenitude através do conhecimento humano, porque este é limitado por diversos fatores. Por outro, afirmamos que a busca pela verdade é um vetor que deve guiar a atividade processual, de modo que a determinação dos fatos que fundamentam a decisão tenda a se aproximar o máximo possível da verdade. Finalmente, sustentamos que a verdade no processo é sempre relativa, e nem por isso deixa de ser considerada verdade.

Após fixadas, e lembradas, as premissas acerca da verdade, no processo, podemos tratar, novamente, do princípio da verdade material, porém, mais bem aparelhados a fundamentar nosso ponto de vista.

O princípio da verdade material é considerado, pela grande maioria dos doutrinadores e até mesmo pelo Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda e pela Câmara Superior de Recursos Fiscais, como um dos princípios fundamentais do processo administrativo tributário585.

584 Ibidem, p. 248-250.

585 “BUSCA DA VERDADE MATERIAL - No processo administrativo, predomina o princípio da verdade material, no sentido de que aí se busca descobrir se realmente ocorreu ou não o fato gerador, pois o que está em jogo é a legalidade da tributação. O importante é saber se o fato gerador ocorreu e se a obrigação teve seu nascimento. (...) Recurso provido” – Acórdão n. 102-47972, 1º Conselho de Contribuintes - Relator Alexandre Andrade Lima da Fonte Filho, julgado em 18/10/2006. Disponível em www.conselhos.fazenda.gov.br. Acesso em 10.07.2008.

“PROCESSO ADMINISTRATIVO TRIBUTÁRIO – PROVA MATERIAL APRESENTADA EM SEGUNDA INSTÂNCIA DE JULGAMENTO – PRINCÍPIO DA INSTRUMENTALIDADE PROCESSUAL E A BUSCA DA VERDADE MATERIAL - A não apreciação de provas trazidas aos autos depois da impugnação e já na fase recursal, antes da decisão final administrativa, fere o princípio da instrumentalidade processual prevista no CPC e a busca da verdade material, que norteia o contencioso administrativo tributário. "No processo administrativo predomina o princípio da verdade material no sentido de que aí se busca descobrir se realmente ocorreu ou não o fato gerador, pois o que está em jogo é a legalidade da tributação. O importante é saber se o fato gerador ocorreu e se a obrigação teve seu nascimento". (Ac. 103-18789 – 3ª. Câmara - 1º. CC.)”

Acórdão n. 03-04.371, Câmara Superior de Recursos Fiscais, Relator Paulo Roberto Cucco Antunes, julgado em 16/05/2005., extraído de www.conselhos.fazenda.gov.br. Acesso em 10.07.2008.

Uma das idéias principais que balizam esse entendimento é a indisponibilidade da relação jurídica tributária. Contudo, a relação jurídica tributária não é absolutamente indisponível, pois o contribuinte pode optar por não impugnar o lançamento ou, ainda, desistir da impugnação a qualquer tempo. Outrossim, tendo em conta a visão do processo como um instrumento público, destinado a promover a pacificação social e a promoção da justiça, a busca pela verdade material tem sido prestigiada até mesmo nos processos em que se discutem direitos disponíveis. Assim sendo, entendemos que o critério disponibilidade-indisponibilidade da relação jurídica de direito material não é o melhor para qualificar o processo, em função da verdade material. Isso porque, mesmo nos processos em que se busca a verdade material, admite-se um certo grau de disposição dos direitos em questão, e, por outro lado, a verdade material tem sido prestigiada também em processos que tratam de direitos disponíveis.

Outrossim, também a dicotomia verdade material-verdade formal não é de grande valor teórico, pois, como já vimos, a verdade é sempre relativa. A busca pela verdade absoluta é apenas o vetor que deve guiar o processo, com vistas a uma decisão embasada em uma determinação verdadeira dos fatos, que é uma das condições necessárias para uma decisão justa. O que varia – e nesse ponto reside a diferença entre “verdade formal”

e “verdade material” – são as regras sobre prova e as regras de julgamento, relacionadas ao ônus da prova. Existem processos cuja estrutura prevê mais limites relacionados à atividade probatória das partes e do julgador, abrindo-se mão de uma busca mais aprofundada da verdade dos fatos, em prol de maior celeridade ou segurança jurídica. Por outro lado, há processos estruturados sobre regras que permitem maior busca da verdade dos fatos, atribuindo vastos poderes instrutórios à autoridade julgadora, com menos regras de preclusão processual, com maior flexibilização do direito de as partes produzirem provas e formularem alegações que entenderem pertinentes antes da tomada da decisão. Varia, portanto, o prestígio aos instrumentos de busca da verdade, no processo, de acordo com os valores que se asseguram através do processo.

De fato, a natureza pública das relações jurídicas tributárias e os princípios que regem a atividade tributária determinam que a busca da verdade dos fatos seja cautelosa, precisa e exaustiva. Não se admite que o tributo nasça da vontade das partes. A obrigação tributária decorre da lei e nasce com o fato jurídico tributário. Por isso, as autoridades fiscais que promovem o lançamento e o julgamento da impugnação não se podem contentar com a

“verdade formal”, ou seja, com aquela que decorre tão somente da alegação das partes e que pode, por interesse delas, não corresponder à realidade fática. No Direito Tributário, é

imprescindível que a aplicação da norma corresponda à sua incidência, sob pena de invalidade do lançamento tributário.

No processo administrativo tributário, é necessária a busca por uma verdade que efetivamente aponte para a “verdade material”, ou seja, por uma verdade que, semanticamente, signifique a correspondência com a realidade. Assim, a verdade deve ser perseguida através de critérios de coerência e aceitabilidade justificada, que permitam que se aceite a determinação dos fatos no processo como verdadeira.

Em um processo em que se pretenda alcançar uma decisão justa e adequada à “verdade material”, ou seja, uma decisão que se fundamente em uma determinação de fatos o mais próxima possível da realidade, o meio adequado de se atingir essa finalidade é a atividade probatória. Quanto maior for a liberdade das partes e do julgador no desenvolvimento dessa atividade, maiores são as chances de atingir a verdade dos fatos, que, apesar de relativa, ainda assim pode ser considerada uma verdade. Por isso, nos processos em que se prega a incidência do princípio da verdade material, como é o caso do processo administrativo tributário, requer-se que a atividade probatória seja a mais ampla possível, tendo como limites os direitos e garantias fundamentais das partes, com a vedação de provas obtidas por meios ilícitos.

De acordo com MARY ELBE QUEIROZ, o princípio da verdade material relaciona-se com a liberdade na colheita das provas necessárias à demonstração da ocorrência ou inocorrência do fato jurídico tributário, pela autoridade lançadora e pela autoridade julgadora586:

A síntese da verdade material manifesta-se em que não deve a Administração se satisfazer, dentro do processo tributário, apenas com as provas e versões fornecidas pelas partes, tendo o dever de trazer para o processo todo e qualquer elemento, dados, documentos ou informações, desde que obtidos por meios lícitos (consoante o artigo 5º, LVI, da Constituição), a fim de obter a verdade real da ocorrência, ou não, da obrigação tributária, seja pró ou contra o Fisco, seja pró ou contra o contribuinte. 587

Em sentido semelhante, LEONARDO SPERB DE PAOLA afirma que o princípio da verdade material não significa atingir “...um estado de certeza absoluta a respeito da configuração do fato jurídico tributário”. No entanto, “...implica um certo esgotamento de possibilidades, ou seja, um esforço efetivo para a caracterização da riqueza tributável”588.

586 Do lançamento..., op. cit., p. 107.

587 Ibidem, p. 111-112.

588 Presunções..., op. cit., p. 206.

A atividade probatória no processo administrativo tributário deve produzir um estado de certeza subjetiva no espírito do aplicador da lei. A autoridade administrativa, seja no procedimento de fiscalização tendente ao lançamento, seja no julgamento do processo administrativo, deve analisar as provas produzidas pelas partes e determinar as diligências probatórias complementares, de modo a sanar todas as suas dúvidas existentes. A atividade probatória não deve ser necessariamente encerrada de imediato, após a apresentação das provas pelas partes, se o julgador não se convencer, racionalmente, acerca da existência ou inexistência do fato jurídico tributário. Ele deve, ao contrário, determinar a produção de todas as provas que reputar necessárias e pertinentes para formar seu convencimento e demonstrar a existência ou inexistência do fato jurídico tributário.

O esgotamento das providências probatórias não implica, de modo necessário, que todas as dúvidas acerca dos fatos serão eliminadas. No caso da persistência de dúvidas e da impossibilidade de produção de novas provas, entram em cena as regras de julgamento relacionadas ao ônus da prova, as quais permitem ao julgador atribuir conseqüências desfavoráveis à parte que não se conseguiu desincumbir de provar as suas alegações.