O pedido de suspensão de segurança é um procedimento jurisdicional de natureza cautelar278 que garante ao Poder Público, peticionando ao presidente do tribunal competente, obstaculizar execuções de decisões judiciais (antecipadas e sentenças), que possam gerar, segundo as legislações extravagantes, grave lesão à ordem, à saúde, à segurança pública e à economia pública.279
Ressaltamos, por oportuno, que o referido instituto guarda muita semelhança à avocação de causas, pois os fundamentos para a sua instauração basicamente são os mesmos (grave lesão à ordem, à saúde, à segurança e às finanças públicas – art. 252, caput, do RISTF). O que nos faz questionar se a ideia da avocação de causas teria surgido a partir dos
277 Página 3, In STJ – SEC 15.832/EX, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, CORTE
ESPECIAL, julgado em 07/06/2017, DJe 14/06/2017.
278 “A cautelaridade do instituto, aliás, deriva das próprias características impostas pelo regime legal que o
regula. Inicialmente, cumpre observar-se a existência de grave lesão (ainda que potencial) ao interesse público que se deseja evitar, provocada pela execução da liminar ou da sentença proferida na ação ajuizada contra o Poder Público”. (VENTURI, Elton. Suspensão de liminares e sentenças contrárias ao Poder Público. 2ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010, p. 66).
279 CUNHA, Leonardo Carneiro da. A Fazenda Pública em Juízo. 14ª ed. rev., atual e ampl. Rio de Janeiro:
fundamentos históricos da suspensão de segurança, devido a sua origem está ligada à Lei n.º 196/36 e ao mandado de segurança, previsto na Constituição Federal de 1934,280 normas anteriores ao instituto da avocação.
Contudo, a suspensão de segurança além de possuir uma extensão maior quanto à competência, pois pode ser direcionada ao presidente de qualquer tribunal, não tem o escopo de levar ao tribunal a discussão integral e de fundo da demanda, como no caso da avocatória, mas somente o controle da eficácia do ato decisório, questionado em face do Poder Público. A legislação pátria, 281 além de prever o procedimento cautelar da suspensão de
segurança, também há previsão nos regimentos do Supremo Tribunal Federal (art. 297, do RISTF)282 e do Superior Tribunal de Justiça (art. 271, RISTJ),283 os quais regulam o cabimento e processamento junto à presidência de cada referido órgão, replicando a legislação infraconstitucional.
Nesse contexto, a percepção de lesão à ordem (ordem pública), no âmbito dos Tribunais Superiores, confunde-se com a noção de interesse público que se extrai de uma denominada “ordem administrativa” ou “ordem constitucional”.
280 VENTURI, Elton. Suspensão de liminares e sentenças contrárias ao Poder Público. 2ª ed. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2010, p. 35.
281 Art. 15, da Lei n.º 12.016/2009 (mandado de segurança); Art. 12, §1º, da Lei n.º 7.347/1985 (ação civil
pública); Art. 4ª, da Lei n.º 8.437/1992 (cautelares contra o Poder Público); Art. 1º, da Lei n.º 9.494/1997 (tutela antecipada contra o Poder Público); Art. 1.059, da Lei n.º 13.105/2015 (Código de Processo Civil); Art. 16, da Lei n.º 9.507/1997 (habeas data).
282 Art. 297. Pode o Presidente, a requerimento do Procurador-Geral, ou da pessoa jurídica de direito público
interessada, e para evitar grave lesão à ordem, à saúde, à segurança e à economia pública, suspender, em despacho fundamentado, a execução de liminar, ou da decisão concessiva de mandado de segurança, proferida em única ou última instância, pelos tribunais locais ou federais.
283 Art. 271. Poderá o Presidente do Tribunal, a requerimento da pessoa jurídica de direito público interessada ou
do Procurador-Geral da República, e para evitar grave lesão à ordem, à saúde, à segurança e à economia públicas, suspender, em despacho fundamentado, a execução de liminar ou de decisão concessiva de mandado de segurança, proferida, em única ou última instância, pelos Tribunais Regionais Federais ou pelos Tribunais dos Estados e do Distrito Federal. Igualmente, em caso de manifesto interesse público ou de flagrante ilegitimidade e para evitar grave lesão à ordem, à saúde, à segurança e à economia
públicas, poderá o Presidente do Tribunal suspender, em despacho fundamentado, a requerimento do Ministério Público ou da pessoa jurídica de direito público interessada, a execução da liminar nas ações movidas contra o Poder Público ou seus agentes que for concedida ou mantida pelos Tribunais Regionais Federais ou pelos Tribunais dos Estados e do Distrito Federal, inclusive em tutela antecipada, bem como suspender a execução de sentença proferida em processo de ação cautelar inominada, em processo de ação popular e em ação civil pública, enquanto não transitada em julgado.
3.3.1 Ordem pública, ordem administrativa e ordem jurídica
Nos julgados do Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça, ao apreciarem a lesão à ordem (ordem pública) na suspensão de segurança, constatamos que a expressão se acomoda ao ideal de higidez e regularidade de uma “ordem administrativa” ou “ordem jurídica”,284 volatilizando ainda mais a percepção da ordem pública, pois estaria,
verdadeiramente, a critério do presidente do tribunal complementar retoricamente qualquer situação, no sentido de legitimar a suspensão do ato decisório atacado.285
Logo, os próprios Tribunais Superiores entram em contradição ao volatilizarem a ordem pública, pois confundir a ordem jurídica e até administrativa com a ideia de tutela do interesse público relevante, que a suspensão de segurança se fundamenta, pode levar o órgão julgador questionar os fundamentos da decisão ataca, o que não é cabível em sede desse procedimento acautelatório.286
Nesse sentido, Elton Venturi destaca a importância de não confundir as dimensões da ordem pública e ordem jurídica, ressaltando que “é imprescindível que se adote um conceito jurídico técnico-processual de ordem pública que, apesar de não afastar as naturais
284 “É a partir dessa perspectiva que se passa ao exame da pretensão recursal, que se ampara, preliminarmente,
no alegado descabimento da medida de contracautela por não demonstrada a grave lesão à ordem jurídica, administrativa ou econômica do Maranhão”. (STF – SL 1088 AgR, Relator(a): Min. CÁRMEN LÚCIA (Presidente), Tribunal Pleno, julgado em 02/06/2017, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-134 DIVULG 20-06- 2017 PUBLIC 21-06-2017).; “Espécie em que o acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais causa, a um só tempo, grave lesão à ordem administrativa, à saúde e à segurança públicas, pois tem o potencial de inviabilizar a prestação, por duas secretarias municipais, de serviços essenciais à população do Município de Governador Valadares, tais como o recolhimento do lixo urbano e hospitalar, o planejamento, a execução e a fiscalização de obras de infraestrutura, a organização do transporte coletivo e o gerenciamento do sistema de iluminação pública”. (STJ – AgRg na SLS 2.000/MG, Rel. Ministro FRANCISCO FALCÃO, CORTE ESPECIAL, julgado em 20/05/2015, DJe 12/06/2015).
285 “A flexibilização e a ampliação do conceito de ordem pública ainda afiguram-se perniciosas na medida em
que justificam, aparentemente, uma menor ou relativa mensuração sobre a gravidade da consequência da ordem judicial que se deseja sustar sobre a atividade administrativa estatal. A lei é clara ao exigir, para que se autorize a suspensão de decisões judiciais, a comprovação de grave lesão à ordem pública”. (VENTURI, Elton. Suspensão
de liminares e sentenças contrárias ao Poder Público. 2ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010, p. 141). 286 “O Agravante reitera os argumentos de lesão à ordem pública, devido à possível desestruturação da
organização administrativa da Defensoria Pública causada pela decisão do Tribunal de Justiça da Bahia, seu efeito multiplicador e o deficiente quantitativo de defensores para o atendimento da população. Os fundamentos da decisão agravada não foram afastados. O exame do alcance dos efeitos da decisão liminar na forma
pretendida pelo agravante confunde-se com o mérito da questão, o que é inadequado neste procedimento específico de suspensão de segurança. No entanto, observa-se ter sido a medida liminar deferida em mandado
de segurança individual e não ter o Agravante demonstrado seu efeito multiplicador. A determinação judicial de designação da servidora para o exercício em determinada localidade, por si só, não demonstra grave lesão à ordem pública”. (STF – SS 5132 AgR, Relator(a): Min. CÁRMEN LÚCIA (Presidente), Tribunal Pleno, julgado em 07/04/2017, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-095 DIVULG 05-05-2017 PUBLIC 08-05-2017).; “O incidente suspensivo, por sua estreiteza, é vocacionado a tutelar tão somente a ordem, a economia, a segurança e a saúde públicas, não podendo ser analisado como se fosse sucedâneo recursal, para que se examinem questões relativas ao fundo da causa principal”. (STJ – AgInt no AgInt na SLS 2.240/SP, Rel. Ministra LAURITA VAZ, CORTE ESPECIAL, julgado em 07/06/2017, DJe 20/06/2017).
ilações sociais, políticas e econômicas no uso da expressão, justifique com razoabilidade a suspensão de liminares e sentenças contrárias ao Poder Público”.287 Contudo, o autor não traz
e nem sequer faz menção ao referido possível conceito técnico-processual de ordem pública. Desta forma, dissentimos da conclusão adotada pelo autor, no sentido de se adotar um conceito jurídico técnico de ordem pública para a suspensão de decisões judiciais contrárias ao Poder Público, pois o próprio autor verifica as arbitrariedades e manipulações semânticas para justificar uma proteção administrativa dos entes estatais, o que se mostra uma conclusão incompatível com a proposta de se justificar a razoabilidade defendida pelo doutrinador.
Assim, entendemos o que justificaria de maneira mais clara seria a percepção de lesão à ordem, à saúde, à segurança e à economia públicas, a suspensão de decisões que exprimam conteúdos de possíveis rusgas e instabilidades ao desenvolvimento regular da Administração Pública. Ou seja, o fundamento pelo qual se tutela o interesse público relevante do que se diz de ordem pública estaria relacionado ao senso comum de estabilidade social e não à “discricionariedade política” do magistrado em justificar retoricamente sua fundamentação jurídica, sem especificar o motivo concreto de sua decisão, sob pena de invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra decisão, o que é vedado (art. 489, §1º, III, do CPC).