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4.2 Processo civil estrangeiro e ordem pública processual

4.2.3 Processo Civil Francês

O Direito Processual francês e o próprio Code de Procédure Civile (1974),484 ao longo dos anos, vem chamando a atenção dos doutrinadores brasileiros, em que pese a menção a determinados institutos processuais franceses durante o desenvolvimento dogmático do processo civil brasireiro, inclusive na exposição de motivos do Código de Processo Civil de 1973, não era alvo de grande repercussão no Brasil.485

Atualmente a influência e expansão dos estudos do processo francês também se deve ao momento de unificação europeia,486 inclusive, a sua influência no novo texto processual civil brasileiro (2015) é latente, principalmente em relação à eficiência processual e administração da Justiça (art. 8º, do CPC brasileiro) e dos negócios jurídicos processuais (art. 190, do CPC brasileiro).487

O Code de Procédure Civile é bastante extenso, possuindo seis livros, o primeiro dedicado ao desenvolvimento do procedimento comum das jurisdições (Dispositions communes à toutes les juridictions), o segundo relacionado às questões específicas de cada grau de jurisdição (Dispositions particulières à chaque juridiction), o terceiro ao procedimento sobre matérias específicas do direito civil (Dispositions particulières à certaines matières), o quarto afeto ao procedimento arbitral (L'arbitrage), o quinto especificamente destinado às soluções consensuais de disputas (La résolution amiable des violazione disciplinare, e può essere considerato ai fini della valutazione di professionalità e della nomina o conferma agli uffici direttivi e semidirettivi”.

484 Consultar: <https://www.legifrance.gouv.fr/affichCode.do?cidTexte=LEGITEXT000006070716>

485 BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Notas sobre as recentes reformas do Processo Civil Francês. In

Revista de Processo. Vol. 150/2007. Ago./2007. p, 59.

486 “L’harmonisation des règles procédurales dans l’Union euroéenne. Cette harmonisation est observable aussi

bien en matière civile qu'en matière pénale, bien que celle-ci soit encore plus que celle-là dans la dépendance des souverainetés étatiques. En vérité, avec l'espace judiciaire européen, c'est un nouvel ordre juridique interrétatique qui se construit à partir de l'harmonisation des procédures nationales”. (CADIET, Loïc [et. al.]. Théorie

générale du procès. 2ª édition mise à jour. Paris: Presses Universitaires de France, 2013, p. 282).

487 CADIET, Loïc. Perspectivas sobre o sistema da Justiça Civil Francesa: seis lições brasileiras. trad.

différends), através da médiation e a conciliation (art. 1.530),488 e o sexto destinado aos territórios marinhos e ilhas (Dispositions relatives à l'outre-mer).

Em que pese o Code de Procédure Civile traga expressamente em seu texto a expressão ordem pública (ordre public) em vários momentos, porém todos se referem à ordem pública como forma de tutela do interesse público,489 da soberania, do ordenamento

jurídico e da lei,490 também ligados aos estudos do Direito Internacional Privado, principalmente nos artigos referentes à execução da sentença arbitral, devendo o magistrado defender, no processo, a ordem pública neste aspecto.491

Nesse contexto, cumpre destacar que as nulidades processuais, ainda de ditas de interesse público ou de ordem pública, não poderão ser pronunciadas no caso de a demanda estiver apta para julgamento (art. 121).492

Além disso, assim como no processo civil brasileiro, o processo civil francês tem por fundamento o princípio da sanabilidade dos atos processuais defeituosos (art. 126, 1 e 2).493

Outrossim, as questões quanto à incompetência apesar de serem afetas à cognição de ofício do magistrado (art. 76, 1),494 deve ser arguida pelas partes, sob pena de não apreciação pelo Tribunal, o que nos faz constatar uma hipótese de preclusão (art. 75).495

488 “Article 1530 – La médiation et la conciliation conventionnelles régies par le présent titre s'entendent, en

application des articles 21 et 21-2 de la loi du 8 février 1995 susmentionnée, de tout processus structuré, par lequel deux ou plusieurs parties tentent de parvenir à un accord, en dehors de toute procédure judiciaire en vue de la résolution amiable de leurs différends, avec l'aide d'un tiers choisi par elles qui accomplit sa mission avec impartialité, compétence et diligence”.

489 “Article 423 – En dehors de ces cas, il peut agir pour la défense de l'ordre public à l'occasion des faits qui

portent atteinte à celui-ci.”.

490 “Article 120 – 1. Les exceptions de nullité fondées sur l'inobservation des règles de fond relatives aux actes

de procédure doivent être relevées d'office lorsqu'elles ont un caractère d'ordre public. 2. Le juge peut relever d'office la nullité pour défaut de capacité d'ester en justice”.

491 “Le magistrat judiciaire défenseur de l’ordre public [...] Cette unité du corps ne lasse pas d'étonner, voire de

troubler tous les autres acteurs de l'ordre public, et il peut être utile de voir comment en exerçant des missions différentes (poursuivre ou juge) le magistrat appréhendera différemment la problématique de l'ordre public”. (CHARPENEL, Yves. L’ordre public judiciaire: La laque et le vernis. Collection Ordre Public. Paris: Economica, 2014, p. 73-77).

492 “Article 121 – Dans les cas où elle est susceptible d'être couverte, la nullité ne sera pas prononcée si sa cause

a disparu au moment où le juge statue”.

493 “Article 126 – 1. Dans le cas où la situation donnant lieu à fin de non-recevoir est susceptible d'être

régularisée, l'irrecevabilité sera écartée si sa cause a disparu au moment où le juge statue. 2. Il en est de même lorsque, avant toute forclusion, la personne ayant qualité pour agir devient partie à l'instance”.

494 “Article 76 – 1. L'incompétence peut être prononcée d'office en cas de violation d'une règle de compétence

d'attribution lorsque cette règle est d'ordre public ou lorsque le défendeur ne comparaît pas. Elle ne peut l'être qu'en ces cas”.

495 “Article 75 – S'il est prétendu que la juridiction saisie en première instance ou en appel est incompétente, la

partie qui soulève cette exception doit, à peine d'irrecevabilité, la motiver et faire connaître dans tous les cas devant quelle juridiction elle demande que l'affaire soit portée”.

Ademais, ainda que o magistrado francês possa suscitar questões de ofício, não pode decidir sem antes oportunizar as partes o devido contraditório (art. 16, 3),496 o que também se coaduna com o texto processual brasileiro (art. 10, do CPC brasileiro).

Desta forma, nessa breve abordagem, podemos perceber que o direito processual civil francês, em que pese traga em seu texto expressamente o termo ordre public, ela não é encarada como uma situação absoluta, de insanabiliade ou não afeta à preclusão. Assim, o fenômeno ordem pública no processo civil francês está mais voltada às questões relacionadas a determinado grau de interesse público e às questões do ordenamento jurídico.

Como vimos no primeiro capítulo desta tese, justifica-se a expressão ordem pública nos textos normativos franceses, pois, devem-se a eles a percepção estatal497 da tradução romana do termo e disceminação deste fenômeno tão vago e volátil.