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1 ABORDAGEM DO PROBLEMA E OBJECTIVOS DO ESTUDO

No documento Sexualidade na Adolescência (páginas 86-89)

A adolescência é um processo, e não apenas um período de tempo, uma idade cronológica. É um processo de maturação em que se adquirem, e afinam, atitudes e competências para uma efectiva participação social, bem como para uma eficaz gestão do bem estar pessoal.

Para compreender a adolescência, teremos que ter em atenção as actuais condições de vida familiar, escolar e social que vão chocar com o normal processo de maturação biopsicossocial e cultural.

Há diversas concepções de compreensão da adolescência, sublinha-se a importância dos factores biológicos e psicossociais relacionados com a fase do ciclo vital em que os adolescentes se encontram. Reconhece-se que há importantes domínios de homogeneidade neste campo, nomeadamente quanto às tarefas psíquicas a cumprir, como por exemplo, o estabelecimento duma identidade, todavia a heterogeneidade decorrente dos tecidos sócio- culturais não pode ser negada.

Os adolescentes influenciam e são influenciados por vários contextos: a família, a rede social, económica e cultural, o ambiente, a educação, o próprio sistema político.

Embora os adolescentes sejam considerados um grupo etário saudável, esta afirmação só é aceite do ponto de vista estritamente físico e não em termos de saúde global. Pois os problemas de saúde, com que se deparam hoje os adolescentes, como já foi referido, não são tanto de ordem física mas de ordem psicossocial.

Nas sociedades ocidentais, nas quais nos inserimos, a adolescência é uma etapa do desenvolvimento que tem proporcionado alguma reflexão. Das ciências da saúde às da educação, da sociologia à política, são raras as áreas do conhecimento que não dediquem uma parte da sua atenção à adolescência.

Existe também, a nível mundial um movimento crescente no sentido de se considerar os adolescentes como grupo vulnerável com necessidades de saúde particulares e, como tal, necessitando de cuidados de saúde específicos e acessíveis.

Há diversos estudos de pesquisa que consignam a associação de vários comportamentos de risco em adolescentes. Analisando as estatísticas, verifíca-se que, neste período as principais causas de morte e incapacidade têm origem em comportamentos de risco.

O comportamento sexual é uma área de potencial risco para os adolescentes, o que deriva essencialmente duma actividade sexual precoce, algumas das vezes até não desejada ou sem efectiva ponderação das consequências possíveis, como, por exemplo, contrair doenças sexualmente transmissíveis ou uma gravidez não desejada. O trauma psicológico duma gravidez indesejada é também uma questão a congregar atenções.

Moore citado por Frasquilho (1996) refere que, na última década a gravidez indesejada nas adolescentes foi de 87% casos, para 79% nos anos 70 a 80. Como se sabe a gravidez precoce representa um perigo particular para as mães adolescentes e seus filhos, pois tanto a mortalidade materna e infantil, como a morbilidade relacionada com a gravidez é superior nas mães entre 15 el9 anos do que em mães mais velhas.

Em Portugal há indícios de que as relações sexuais precoces e o número de abortos têm vindo aumentar sobretudo nas zonas urbanas e suburbanas.

Um estudo efectuado por Navarro (1985), revela que 23,5% dos adolescentes do sexo masculino de 15 anos e 60% do sexo feminino já tiveram relações sexuais. A mesma autora (1985) no seu estudo verificou que, há ausência de conhecimentos sobre doenças sexualmente transmitidas e sobre a não utilização de meios contraceptivos; refere ainda que a opinião sobre a contracepção reflecte a falta de conhecimentos sobre estes assuntos.

Segundo a OMS, a infecção pelo (VIH) Vírus de Imunodeficiência Humana, tem na maior parte dos casos, lugar antes dos vinte anos (20); mais de 50% das pessoas com VIH / SIDA, infectaram-se entre os 15 e os 24 anos. Segundo os dados estatísticos do Centro de Vigilância Epidemiológica das doenças Transmissíveis, desde 1983 até Outubro de 1999, no nosso país foram detectados 6263 casos de SIDA, tendo-se registado 3263 mortes, ou seja aproximadamente 50% do número de casos de SIDA conhecidos. A mesma fonte mostra-nos que esta tendência se repete um pouco por todas as capitais distritais do país.

Ajudar os adolescentes a crescer exige a compreensão não só do que eles pensam mas sobretudo de como é que eles pensam. Os processos cognitivos, ainda bastante focalizados no concreto e no presente, dificultam a incorporação de certas mensagens do tipo "se usares preservativo hoje não terás SIDA amanhã. O futuro é algo pouco distinto e muito longínquo.

Na opinião de Frasquilho (1996), os adolescentes percepcionam a saúde de forma distinta dos adultos. Para eles, ter saúde é igual a ser plenamente activo, ser corajoso, fazer o que se quer. O bom funcionamento físico , a integridade corporal são, nesta fase da vida,

tidos como garantidos; há um forte sentimento de invulnerabilidade derivado do egocentrismo que lhes é próprio. Acreditam na singularidade das suas próprias experiências e estão convencidos que as consequências negativas dos seus comportamentos de risco só acontecem aos outros.

Por outro lado, outros adolescentes fixam-se em atitudes passivas próprias de quem sente não deter o poder de influenciar aquilo que lhes acontece, indo à deriva das circunstâncias ou do desejo da maioria.

Deste modo a adolescência é um período complexo e de considerável risco para a saúde, mas também pode ser um período crítico para intervenções significativas de promoção da saúde e de estilos de vida saudáveis.

Neste sentido, há que saber quais os factores que acentuam a vulnerabilidade e como agir para reforçar a resistência individual tal como a protecção em geral.

É importante reflectir sobre os adolescentes como grupo vivenciador de diferentes experiências e nos seus contextos quotidianos, porque, quotidianamente, e no curso das suas interacções é que os jovens constróem formas sociais de compreensão, de relação e entendimento.

Para que a actuação dos enfermeiros seja adequada às necessidades da população é necessário efectuar estudos de campo. Assim, propusemo-nos a elaborar um estudo descritivo analítico e transversal que tem por objectivos:

• conhecer os comportamentos dos adolescentes face à sexualidade; • identificar as atitudes dos adolescentes face à sexualidade; • identificar o seu nível de conhecimentos relativos à sexualidade;

• conhecer a opinião dos adolescentes em relação às consultas de planeamento familiar.

No documento Sexualidade na Adolescência (páginas 86-89)