3 SEGURANÇA PÚBLICA, REFORMA POLICIAL E POLÍCIA COMUNITÁRIA
4.2 Abordagem dos dados e métodos de procedimento
A presente pesquisa é caracterizada como uma pesquisa empírica. Feldman e Orlikowski (2011) explicam a importância das pesquisas empíricas no campo da SAP. Os autores apresentam três formas de estudar a prática, ou seja, três possíveis abordagens das pesquisas sobre a prática nas questões de interesse em comum sobre as organizações: empírico, teórico e filosófico. Essas abordagens se relacionam com o quê, o como e o porquê de usar uma lente prática; representam três focos diferentes que os investigadores podem enfatizar no uso de uma lente prática: (a) o enfoque empírico refere-se a como as pessoas agem em contextos organizacionais; (b) o enfoque teórico refere-se à relação entre as ações das pessoas e a organização; e, (c) o foco filosófico refere-se ao papel constitutivo das práticas na produção da realidade organizacional (FELDMAN; ORLIKOWSKI, 2011).
Portanto, caracterizada como uma pesquisa empírica, o atual estudo reconhece a centralidade das pessoas nos resultados organizacionais e a importância das práticas nas operações em curso das organizações. Esta abordagem empírica das práticas responde o quê numa lente prática, com o foco na atividade cotidiana de ambas as formas de organizar: a rotina e o improviso (FELDMAN; ORLIKOWSKI, 2011).
Quanto à abordagem dos dados, esta pesquisa adota uma abordagem de natureza qualitativa. Segundo Bauer, Gaskell e Allum (2003), a pesquisa qualitativa lida com interpretações das realidades sociais, dando voz aos sujeitos. A pesquisa qualitativa também permite ao pesquisador visualizar um fenômeno em sua totalidade, com possíveis contradições e antagonismo, onde são consideradas as múltiplas verdades de múltiplas vozes, garantindo, também, uma maior riqueza do corpus (VIEIRA, 2006).
Na pesquisa qualitativa, acredita-se que um fenômeno pode ser compreendido se analisado numa perspectiva integrada, e, se for observado no contexto natural em que ele ocorre, dando espaço as suas particularidades e pluralidades de sentido. O pesquisador vai a campo buscando capturar o fenômeno estudado a partir da perspectiva dos indivíduos, ou seja, pretende-se abordar “o mundo lá fora (e não em contextos especializados de pesquisa, como os laboratórios) e entender, descrever e, às vezes, explicar os fenômenos sociais de dentro de diversas maneiras diferentes” (FLICK, 2009b, p. 8).
A presente pesquisa pode ser classificada também como um estudo etnometodológico (GARFINKEL, 1967), coerente com a perspectiva da SAP (JARZABKOWSKI, 2004; WILSON; JARZABKOWSKI, 2004; WHITTINGTON, 2006), pois considera que o contexto é essencial para a análise: “a observação atenciosa e a análise dos processos aplicados nas ações [permitem] pôr em evidência os modos de proceder pelos quais os atores interpretam constantemente a realidade social, inventam a vida em uma permanente bricolagem” (COULON, 1995, p. 32). A etnometodologia estuda, portanto, os “fenômenos sociais, aqueles que estão disponíveis em atividades humanas incorporadas, sensíveis, de fala e ação” (OLIVEIRA; MONTENEGRO, 2012, p. 129). Nessa abordagem, é importante observar: “como os atores de senso comum o produzem e tratam a informação nos seus contatos e como utilizam a linguagem como um recurso” (COULON, 1995, p. 32). O desafio está em não analisar as microações de forma isolada, sem considerar o contexto em que elas ocorrem; nem, analisar as práticas a nível macro sem considerar as interpretações dos sujeitos em suas atividades cotidianas.
A etnometodologia é uma corrente da sociologia americana, surgida nos anos 1960, que começou com os trabalhos do sociólogo Harold Garfinkel, o qual recebeu forte influência das obras de Talcott Parsons, Alfred Schütz, dentre outros. O livro de Garfinkel (1967), intitulado Studies in Ethnomethodology16 é considerado o marco fundador. Não é o objetivo
aqui discorrer sobre as origens da etnometodologia, mas sua entrada anuncia uma reviravolta na tradição sociológica, pois há uma “ampliação do pensamento social [dando] maior importância à compreensão que à explicação, à abordagem qualitativa do social que à quantofrenia das pesquisas sociológicas anteriores” (COULON, 1995, p. 7). Os etnometodólogos reconheciam que não partiam do zero, desconsiderando o acúmulo desenvolvido pelas correntes anteriores, pois valorizavam o “caráter de complementaridade e de valorização do aporte já construído pela ciência” (GUESSER, 2003, p. 157- 158). Também não é o objetivo do atual trabalho fazer uma revisão histórica (estado da arte) da etnometodologia; para esse propósito podem ser consultados Coulon (1995), Giddens e Turner (1999), Guesser (2003), Oliveira e Montenegro (2012), dentre outros.
Em um ensaio teórico sobre a origem da etnometodologia, o desenvolvimento teórico do tema, bem como as críticas e os pontos de convergência com outras abordagens de pesquisa social, Oliveira e Montenegro (2012, p. 129) afirmam que “a partir do seu caráter multiparadigmático e multifacetado, a etnometodologia pode ser uma abordagem de pesquisa válida para o estudo qualitativo das organizações”, e, por isso, a etnometodologia “parece ser uma possibilidade de aproximação com o fenômeno organizacional que permite compreendê- lo de forma adequada com base na noção de práticas sociais”.
Figura 8 - Os conceitos-chave da etnometodologia
Segundo Coulon (1995), o vocabulário da etnometodologia é particular, mas não necessariamente novo, pois retomam termos já conhecidos, podendo dar-lhes, ou não, um novo sentido. Esse autor apresenta os conceitos-chave da etnometodologia, conforme apresentado na Figura 8, e as características complementares e solidárias desses conceitos:
a) prática, realização: o interesse da etnometodologia está intimamente relacionado com as atividades práticas, ou seja, ao raciocínio prático como temas de estudos empíricos. A etnometodologia é o estudo de atividades cotidianas, triviais ou eruditas, “é a pesquisa empírica dos métodos que os indivíduos utilizam para dar sentido ao mesmo tempo realizar as suas ações de todos os dias: comunicar-se, tomar decisões, raciocinar” (COULON, 1995, p. 30). Preocupa-se com as crenças e os comportamentos advindos do senso comum, considerando-os como elementos importantes para a compreensão de todo comportamento socialmente organizado, contextualizado. Elimina-se o pensamento sociológico tradicional e suas hipóteses sobre a realidade social, onde os sujeitos estariam seguindo regras. No lugar de hipóteses a abordagem objetiva “pôr em evidencia os métodos pelos quais os atores ‘atualizam’ essas regras. É o que as faz observáveis e descritíveis [...] como fabricam um mundo ‘racional’ a fim de nele poderem viver” (COULON, 1995, p. 31-32). Procura-se descobrir no senso comum os verdadeiros sentidos que os atores dão às suas ações, esperando compreender o raciocínio prático que os orienta;
b) indicialidade: termo técnico adaptado da linguística, a indicialidade refere-se a todas as determinações que se ligam a uma palavra, fazendo com que esta, embora tenha uma significação trans-situacional, tenha também um significado diferente para cada situação. O interesse da etnometodologia está direcionado à linguagem comum, vista como prática cotidiana, ordinária, que os sujeitos não sentem dificuldade para compreender, mas que se tornam um desafio para o pesquisador. Admite-se que as palavras, frases ou expressões não tenham sempre o mesmo sentido, pois sua significação provém de fatores contextuais como a história pessoal, a intenção imediata e a relação única existente entre os sujeitos participantes naquele momento. Portanto, a análise dessas conversas não deve ser realizada como se existisse uma homogeneidade semântica das palavras ou uma adesão comum dos indivíduos ao seu sentido, admitindo-se a “incompletude natural das palavras, que só ganham o seu sentido ‘completo’ no seu contexto de produção” (COULON, 1995, p. 33). Dada à impossibilidade de análises generalizantes, o pesquisador deve atentar para as redes de significações que são estabelecidas pelo uso da linguagem, para o maior conteúdo explicativo possível através das significações contidas nas expressões indiciais, compreendendo o
mundo social por meio da linguagem que este mundo se utiliza para se fazer compreensível e transmissível;
c) reflexividade: é um processo contínuo e automático que designa “as práticas que ao mesmo tempo descrevem e constituem o quadro social” (COULON, 1995, p. 41). Para apresentar o conceito de reflexividade, Coulon (1995) discorre sobre exemplos de códigos não formalizados e facilmente reconhecidos pelo senso comum que rege os comportamentos cotidianos de indivíduos numa verdadeira ordem moral. Os sujeitos “apenas sabem” como as coisas funcionam, e, portanto, sabem também como devem proceder. Esses códigos são constantemente aplicados e atualizados em uma fórmula que é exigida por cada situação em particular, pela interação. Nessa perspectiva, é possível afirmar que descrever uma situação é também constituí-la. Garfinkel (1967, p.1, tradução nossa) afirma no primeiro capítulo da sua obra que “as atividades pelas quais os membros produzem e administram as situações de sua vida organizada de todos os dias são idênticas aos procedimentos usados para tornar essas situações descritíveis”. Isso quer dizer que as “descrições do social se tornam, assim que proferidas, partes constitutivas daquilo que descrevem” (COULON, 1995, p. 41). A reflexividade não é o processo de reflexão que os atores desenvolvem sobre suas atitudes. As pessoas refletem sobre aquilo que fazem, mesmo sem ter consciência do caráter reflexivo de suas ações, “pois necessita a si próprio de encontrar motivações e orientações para suas ações” (GUESSER, 2003, p. 162). A reflexividade “designa a equivalência entre descrever e produzir uma interação, entre a compreensão e a expressão dessa compreensão [...] ‘fazer’ uma interação é o mesmo que ‘dizer’ a interação” (COULON, 1995, p. 42). Para Guesser (2003, p. 162), “a compreensão das significações das ações só é possível a partir do próprio processo de reflexividade desenvolvido pelos atores, que deve ser captado e recuperado no momento em que são produzidos”;
d) relatabilidade: esse conceito-chave da etnometodologia tem complementaridades diretas com a reflexividade, pois a fonte dos dados para sua análise são os próprios atores, em interação efetiva, a partir desse processo de relatabilidade, ou accountability (GUESSER, 2003). A propriedade de relatabilidade - ou seja, de descrição - é uma característica que permite aos atores sociais comunicarem e tornarem as atividades práticas racionais compartilháveis. “Dizer que o mundo
social é accountable significa que ele é algo disponível, isto é, descritível, inteligível, relatável, analisável” (COULON, 1995, p. 45). O interesse da etnometodologia está nas descrições que os sujeitos fazem “de seus processos reflexivos, procurando mostrar sem cessar a constituição da realidade que produziram e experienciaram” (GUESSER, 2003, p. 162), portanto racional, pois é metodicamente produzida em práticas que podem ser descritas e avaliadas sob o aspecto de sua racionalidade; não como indícios daquilo que se caracterizou antecipadamente como verdadeiro, mas na perspectiva ontológica de que o mundo social se realiza em atos práticos contínuos. Como afirma Coulon (1995, p. 45), “o mundo não é dado de uma vez por todas”. A etnometodologia não se preocupa com a descrição do mundo em si, se preocupa é em compreender a maneira como os relatos são produzidos em interação, como os atores conseguem estabelecer intercâmbio, comunicação e interação. A análise dos relatos não descreve a realidade do mundo social, mas tem a intenção de mostrar sem cessar a constituição dele, ou seja, enquanto acontece essa descrição “como os atores reconstituem permanentemente uma ordem social frágil e precária, a fim de compreenderem e serem capazes de intercambio [...] essa descrição, em se realizando, ‘fabrica’ o mundo, o constrói” (COULON, 1995, p. 46). Tornar o mundo visível significa tornar a ação do indivíduo, que o descreve, compreensível e transmissível, dotadas de significado e sentido através dos processos pelos quais são relatadas;
e) noção de membro: a partir da junção dos conceitos anteriores, tem-se a noção de membro, que não se refere simplesmente à pertença social, mas “à inserção de um indivíduo num específico contexto de grupo” (OLIVEIRA; MONTENEGRO, 2012, p. 136), a partir do domínio da linguagem comum/natural do grupo e do acesso a um conjunto de práticas. Concretiza-se por meio de “redes de significação estabelecidas nos processos interacionais, que compreende o mundo social em que está inserido sem grandes esforços racionais, mas apenas pela pertença natural de sua socialização” (GUESSER, 2003, p. 163). Nas coletividades (não apenas em coletivos organizados), a questão da intersubjetividade é formulada e sustentada a partir do senso comum (OLIVEIRA; MONTENEGRO, 2012). Para se tornar um membro de um determinado grupo ou instituição, é preciso filiar-se, “o que exige o progressivo domínio da linguagem
institucional comum [...] sua maneira singular de enfrentar o mundo, de ‘estar no mundo’ nas instituições sociais da vida cotidiana” (COULON, 1995, p. 48), compartilhando a construção social desse grupo, ou seja, sendo responsável pela produção e pela apresentação objetiva do saber de senso comum de um cotidiano observável e relatável. Portanto, conforme Coulon (1995, p. 48), membro é “uma pessoa dotada de um conjunto de modos de agir, de métodos, de atividades, de savoir-faire, que a fazem capaz de inventar dispositivos de adaptação para dar sentido ao mundo que a cerca". Ao incorporar os etnométodos de um grupo social, o membro "exibe ‘naturalmente’ a competência social que o agrega a esse grupo e lhe permite fazer-se reconhecer e aceitar”.
Considerando esses conceitos-chave da etnometodologia e suas características de complementaridade, a presente pesquisa os adotou como guias para a coleta de dados e a análise. O Quadro 3 sintetiza as possibilidades de aplicação desses conceitos para a presente pesquisa.
Quadro 3 - Aplicação na pesquisa dos conceitos-chave da etnometodologia Conceitos-chave da
etnometodologia Aplicação na presente pesquisa
Prática e realizações Análise das rotinas de gestão e modos de proceder do policiamento comunitário a partir de micropráticas e macropráticas em um contexto de reinvenção da polícia militar a partir de práticas de polícia comunitária.
Indicialidade Análise do sentido/da imagem do policial e da sociedade civil que indica a existência ou não de uma distância da polícia comunitária vis-à-vis polícia tradicional. Para tanto, serão consideradas todas as formas simbólicas, como os enunciados, os gestos, as regras (formais e informais), as ações e omissões, admitindo-se suas margens de incompletudes que tendem a desaparecer quando elas se produzem contextualmente, embora “a análise dessas situações indiciais nunca termina” (COULON, 1995, p. 37).
Reflexividade Análise dos objetivos da prática policial comunitária, entendidos como descrições da Polícia Comunitária no atual quadro social, ao mesmo tempo em que esta se constitui enquanto parte de uma realidade social, ou seja, os objetivos não são apenas enunciados sobre o que a Polícia Comunitária faz, mas refletem o sentido, a ordem e a racionalidade do que se faz. Como afirma Coulon (1995, p. 40), “a interação ‘diz’ o código [...] O código é geralmente tácito, mas ao mesmo tempo estrutura a situação. Pode aflorar à linguagem”.
Relatabilidade
(Accountability) Análise dos resultados esperados da prática policial comunitária enquanto expressão da inteligibilidade e racionalidade de um novo agente social, tornando assim as ações da Polícia Comunitária compreensíveis e transmissíveis.
Noção de membro Análise da interação entre a polícia e a comunidade enquanto praticantes que compartilham modos de agir, métodos e atividades e podem juntos criar e adaptar dispositivos que mostram a sua competência social para a gestão da segurança pública, ao mesmo tempo em que se reconhecem e se aceitam. A noção de membro seria administrada de acordo com a capacidade que os sujeitos têm de dominar naturalmente esse “conjunto de modos de agir, de métodos, de atividades” (COULON, 1995, p. 48), com o uso da linguagem compartilhada, para dar sentido ao mundo que as cercam (OLIVEIRA; MONTENEGRO, 2012).
A abordagem da etnometodologia preocupa-se com a construção do mundo social de determinados grupos sociais, considerando que essa construção acontece a partir das interações do cotidiano. A inclusão da sociedade civil nas práticas de segurança pública, pela Polícia Militar da cidade de Uberlândia, dá-se à medida que as interações de tais grupos acontecem, numa construção cotidiana do mundo social. A etnometodologia pressupõe que esses grupos constroem no dia a dia uma série de regras de convivência e de relacionamentos, as quais são o objeto de interesse da atual pesquisa: estudar esses métodos que são construídas, compartilhadas e atualizadas no cotidiano, meio a elaboração do senso comum que pode ser observável e relatável.
Portanto, coerente com as propostas metodológicas da SAP (FELDMAN; ORLIKOWSKI, 2011; RASCHE; CHIA, 2009; ROULEAU, 2013), a etnometodologia busca fazer a relação entre o micro e o macro. O foco está no micro, porém de forma macro contextualizada. A etnometodologia se preocupa com fenômenos que seriam até mesmo descartados/banalizados por outras abordagens sociológicas. Não se propõe identificar leis de comportamento, não se busca generalizações; entretanto, busca por regras válidas em contextos e situações específicas, e também, em determinado grupo social.