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3 SEGURANÇA PÚBLICA, REFORMA POLICIAL E POLÍCIA COMUNITÁRIA

3.2 A reforma do conceito militar e as implicações para a segurança pública

3.2.1 O que “era” e o que “agora é” ser militar

No Brasil, alguns autores apuram problemas no modelo militarizado da segurança pública brasileira ao discorrerem sobre os desafios da reforma policial no Brasil (SILVA; GURGEL, 2016; SILVEIRA, 2013; SOUZA; BATTIBUGLI, 2014). Silveira (2013) analisa

os problemas do modelo militarizado da segurança pública, a qual se assemelha ao do exército, abordando sobre as propostas de desmilitarização e de unificação das polícias. Segundo o autor o problema teria sua gênese no Decreto n° 3.598 de 1866 que dividiu as forças policiais no país em duas (uma de natureza militar, outra civil).

Presente no Brasil Colônia e estruturada no período imperial, a polícia brasileira, conforme leciona Silva (2010), é resultado de um processo que se deu em meio a uma sociedade autocrática, autoritária, que buscou um modelo de segurança que assegurava a proteção de uma pequena classe dominante frente a uma grande classe de excluídos. Essa experiência da força policial brasileira representaria as formas de interação assimétrica existentes na distribuição desigual da segurança pública, responsável pela fronteira entre policiais e cidadãos.

A formação militar da polícia brasileira (MIRANDA, 2013), responsável pela segurança interna, origina-se já do período Colonial, da qual se herdou a estrutura militar da Divisão Militar da Guarda Real de Polícia. Para Silveira (2013) e Souza e Battibugli (2014), a Constituinte (1987-1988) teria perdido a oportunidade de resolver o problema da militarização das polícias, mantendo na CF as duas polícias: uma de natureza militar (Polícia Militar) e outra de natureza civil (Polícia Civil), subordinadas aos Estados. A Constituição equipara o corpo de bombeiros militares e as polícias militares às Forças Armadas quando os definiu como “forças auxiliares e reserva do Exército” (artigo 144, § 6°). Nesse sentido, Silva e Gurgel (2016) analisam a proposta de desmilitarização das polícias estaduais, com a criação de uma só polícia de natureza civil. Os autores analisam o Sistema Constitucional de Segurança Pública, buscando mostrar que “a existência de uma polícia como força auxiliar e reserva do Exército não se coaduna com a ordem democrática” (SILVA; GURGEL, 2016, p.

142).

Os principais problemas apontados pelos autores contrários à militarização do sistema policial são: o treinamento direcionado à guerra e ao enfrentamento do inimigo; os elevados níveis de violência policial; e, o desrespeito aos direitos e garantias fundamentais dos cidadãos, o que dificulta o processo democrático (SILVEIRA, 2013; SOUZA; BATTIBUGLI, 2014). O que se percebe, portanto, é que o conceito de desmilitarização, presente nessa literatura, representa uma resposta às críticas existentes na sociedade brasileira. Ou seja, a desmilitarização não seria apenas uma mudança normativa, ou nominal, de onde seria tirada apenas a palavra militar do nome da organização; de fato, significa uma mudança mais

profunda, uma reforma das práticas policiais. Apesar da aparente confusão conceituai, é possível indagar se as mudanças das práticas, tidas até então como tipicamente militares, podem ser consubstanciadas permanecendo, nominalmente, a polícia militar.

A aparente contradição do termo remete a uma dubiedade: como uma organização militar poderia passar por um processo de desmilitarização permanecendo esta ainda sob o nome de militar? O que ocorre de fato é: mesmo que a desmilitarização não ocorra no campo normativo/legal, as polícias militares já iniciaram um processo de desmilitarização por meio de suas práticas. Apesar do processo de desmilitarização ideológica da segurança pública, como nomeia Miranda (2013), não ter ocorrido por completo, permanecendo ainda os resquícios do antigo militarismo, é possível identificar esforços institucionais de aproximação da Polícia Militar com a sociedade civil, por meio da Polícia Comunitária. Assim, é possível afirmar que o militarismo, como proposto e praticado no passado (BROTTO, 1986; BRITO; PEREIRA, 1996), não é mais exercido de forma absoluta no cotidiano policial militar, sobretudo devido a sua interação com a sociedade civil.

Com base nos modelos seminais do militarismo, alguns autores avaliam a dicotomia existente entre militares e civis, bem como a separação e o não relacionamento sistemático entre esses grupos, como pressupostos básicos do militarismo: nos anos 1980, Brotto (1986) analisou os princípios orientadores do comportamento dos militares e suas instituições; nos anos, 1990, Brito e Pereira (1996) estudaram o comportamento e os valores das instituições militares por meio do curso de formação de soldados, como parte do processo de iniciação na cultura militar dos recrutas8.

A descrição de Brotto (1986) é um exemplo de como o conceito militar sofreu e sofre mutações. O autor faz um diagnóstico da situação do militarismo praticado antes de sua época, durante o seu tempo, e ainda, sugere a definição de um novo curso, mais apropriado. Segundo o autor, para que fosse possível estabelecer coerência com os princípios democráticos, a função militar deveria se sujeitar ao controle civil, buscando uma formação civilista. O conceito, até então aplicado à segurança nacional externa, foi adaptado e aplicado à segurança interna. Ainda às sombras do Regime Militar Brasileiro9, o autor propõe novas funções às forças militares para se ligar mais ao sistema democrático-representativo de um

8 Recruta é a denominação dada a militares recém-chegados à corporação militar. É nesse momento que, segundo os autores, há a aprendizagem dos valores, das atitudes e dos comportamentos apropriados à cultura militar.

9 Conhecida também como Ditadura Militar, o termo refere-se ao regime instaurado no país em 1° de abril de 1964 e que durou até 15 de março de 1985. Nesse período, foram instituídos cinco presidentes, todos militares.

governo civil. Essas mudanças não seriam realizadas imediatamente, pois, segundo o autor, “demandaria várias gerações de oficiais para começar a surtir efeito, integrando os militares e harmonizando seus conceitos de segurança com as legítimas aspirações da sociedade nacional, expressas através de processos democráticos” (BROTTO, 1986, p. 149). A força policial passaria então de uma polícia que serviria o Estado para uma polícia que objetiva servir e proteger a população civil.

Desde os estudos de Brotto (1986, p. 158), é possível verificar que: “a figura de ‘inimigo total’ se transformou em um conceito irreal e irracional”; que as normas da sociedade democrática deveriam vigorar na estrutura militar; e, a “incompatibilidade de princípios entre as categorias civil e militar, bem como entre suas estruturas, foram em grande parte superadas”. Entretanto, o autor reconhece, também, a “incompatibilidade entre estruturas democráticas baseadas no voto e estruturas rigidamente hierárquicas, como a militar”. Brotto (1986) prevê que a nova sociedade democrática, em que o país se transformaria, repudiaria a concepção policial para suas Forças Armadas.

Ao analisar o processo de iniciação na instituição, Brito e Pereira (1996, p. 154) afirmam que o processo de socialização na cultura militar propõe a “transformar um civil em um militar”, transparecendo a ideia de uma transposição a outro mundo, a verdadeira transformação em outra pessoa, diferente, distinta da sociedade comum: “é uma espécie de choque cultural, um rito de passagem” (BRITO; PEREIRA, 1996, p. 154). Os autores definem o curso de formação de soldado como um processo de natureza formal e pedagógica composto por rituais específicos direcionados ao abandono dos valores civis e à incorporação de normas, valores e comportamentos militares.

A introjeção dos valores e seu fortalecimento passam necessariamente pelo despojamento dos valores civis. Nesse processo, ocorre a perda de parte da identidade civil do recruta e inicia-se a construção da identidade militar. Os rituais das estratégias de despojamento são percebidos pelos recrutas como dramáticos, humilhantes e muito sofridos. As pressões psicológicas advindas dos rituais socializadores, na ótica dos recrutas, são passíveis de serem suportadas devido ao desenvolvimento do “espírito de corpo”. Em síntese, o curso de formação de soldados tem a sua função pedagógica e envolve várias estratégias ritualizadas, assemelhando-se, pelo menos em termos de estrutura, a um rito de passagem. Do ponto de vista simbólico, o processo representa para a corporação e seus membros a morte do civil e o nascimento do militar (BRITO; PEREIRA, 1996, p. 163, grifo nosso).

De fato, as convicções do militarismo, caracterizado pelo autoritarismo, conservadorismo político, pessimismo em relação à pessoa humana e alarmismo, tem se impregnado nas estruturas militares distanciando-as da sociedade civil (MIRANDA, 2013).

Entretanto, segundo as análises de Bengochea et al. (2004), apesar do desenvolvimento histórico das polícias no país, há um processo de transformação em andamento desde os anos

1990:

[...] cada fato que se apresenta hoje para polícia merece um tratamento diferenciado, e esta exigência está estabelecida para a ação da polícia no ambiente democrático. Assim, pode-se perceber que a função policial necessita ser vista, também, como de delicada complexidade e, para ser bem exercida, tornam-se imperativos sua qualificação, o reaparelhamento tecnológico, a atualização das técnicas policiais e, principalmente, sua revisão conceitual [...] Não é possível se fazer hoje um procedimento padrão para o policial no seu trabalho cotidiano. Ele precisa ter a capacidade de ampliar o espaço de decisão nas escolhas das ações e intervenções para cada fato que enfrenta (BENGOCHEA et al., 2004, p. 120).

Com base nesses argumentos, os autores sugerem que a sociedade civil participe mais efetivamente das discussões sobre segurança pública, a fim de garantir uma polícia cidadã, que se sujeita ao controle social legítimo, aquele que seja originado dos cidadãos civis.

[...] o controle social de uma polícia cidadã é aquele que sai da sociedade e entra para a polícia. É uma visão completamente diferente da atualmente existente. [...] O próprio Ministério Público, que tem como uma de suas responsabilidades o controle da polícia, afirma que essa tarefa é difícil. Para a sociedade, que carece de segurança pública, o peso é maior. Há muito tempo a sociedade está afastada dessa discussão (BENGOCHEA et al., 2004, p. 124).

Com a intenção de promover essa maior interação da sociedade civil e a polícia, bem como dar condições para que o controle social da polícia seja exercido, o Estado criou instrumentos como as Ouvidorias e as corregedorias policiais. O principal instrumento criado foi a garantia constitucional do controle social da polícia, bem como a participação de todos os cidadãos enquanto corresponsáveis pelas políticas públicas de segurança, quando “os legisladores aprovaram o princípio participativo de segurança pública na Constituição, ao instituírem que a ‘segurança pública é um dever do Estado e responsabilidade de todos” (BENGOCHEA et al., 2004, p. 124-125). Pelo fato da polícia possuir o dever legal do uso da força, na configuração democrática vigente, há uma necessidade proeminente “de um olhar controlador pela sociedade” (BENGOCHEA et al., 2004, p. 125) e de uma construção de uma polícia cidadã que “é uma concepção de polícia que problematiza a segurança, discute sua complexidade e divide responsabilidades” (BENGOCHEA et al., 2004, p. 128).

Apesar das críticas quanto à tradição militar da força policial brasileira e o seu consequente distanciamento da sociedade civil, dificultando o exercício de uma polícia cidadã, existe um esforço institucional em promover a aproximação da Polícia Militar e a sociedade civil. Tais esforços são considerados como uma forma de transição para o

policiamento desmilitarizado, mesmo quando aplicada à organização policial militar, conforme será exposto nas próximas seções deste trabalho.

Pelo fato da palavra militar, utilizada atualmente, não possuir o mesmo conceito de outrora, é possível supor a existência de uma reforma do significado do ser militar. Afinal, o militarismo objetivava permanecer distante da sociedade civil (BROTTO, 1986; BRITO; PEREIRA, 1996) e a Polícia Militar, atualmente, busca justamente o oposto, a sua aproximação, por meio das práticas de Polícia Comunitária e das configurações democráticas vigentes no país. É possível identificar esses mesmos processos de reformas em muitos países da América Latina, aliados à onda de democratização, ocorrida nos anos 1980 e 1990 (FRÜHLING, 2007), incluindo o Brasil (FERRAGI, 2011; BARREIRA; RUSSO, 2012; LEITE, 2012; MIRANDA, 2013; BOHN, 2015; MORAES; MARIANO; FRANCO, 2015), conforme exposição mais detalhada nas próximas seções.