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Acesso ao mercado de trabalho

No documento Jovens e rumos (páginas 145-148)

Uma análise secundária das estatísticas do mercado de trabalho, bem como de estudos especializados sobre os diferentes Estados-membros da UE, confirmam o facto de os jovens imigrantes detentores de poucas qualificações terem mais dificuldades no processo de integração no mer- cado de trabalho em países com elevados padrões educacionais e merca- dos de trabalho pós-industriais. No caso de jovens imigrantes a residir em países como a Dinamarca, a Finlândia, a Alemanha, a Noruega e a Suécia estas dificuldades acentuam-se, não deixando, contudo, de ter lugar também na maioria dos outros Estados-membros.

Nos países nórdicos, bem como em outros países de sentido mais em- preendedor, os empregadores apresentam elevadas expectativas em rela- ção às capacidades e competências dos jovens que abandonaram a escola. Deste modo, os fracos desempenhos escolares demonstrados pelos jovens de origem imigrante constitui uma das razões que reforçam os precon- ceitos, atitudes negativas e práticas discriminatórias que justificam a não contratação de jovens imigrantes ou pertencentes a grupos étnicos mi- noritários (Mørch et al. 2008; Walther, Stauber e Pohl 2009).

Na maioria dos países da UE, as trajectórias profissionais de jovens imi- grantes, com background migratório ou pertencentes a minorias étnicas, são caracterizadas por situações de precariedade laboral. Estes desempenham, sobretudo, profissões menos qualificadas com um vínculo laboral, maiori- tariamente, de curto prazo. Na Europa do Sul, muitos destes jovens traba- lham no sector informal da economia e não se encontram abrangidos pela segurança social. Em alguns casos, este tipo de integração laboral é conju- gado com a frequência escolar a nível do ensino secundário. Assim, por exemplo, 25% dos jovens de origem africana em Portugal, entre os 14 e os 19 anos de idade, trabalham e estudam ao mesmo tempo (Ferreira, 2003). Além disso, os dados revelam que jovens imigrantes com qualificações não formais enfrentam mais acentuadamente situações de desemprego do que a maioria dos jovens na mesma condição. Alguns estudos mos- tram que os jovens imigrantes desempenham frequentemente funções menos qualificadas em negócios geridos por membros da mesma comu- nidade ou grupo étnico, como, por exemplo, jovens italianos em restau- rantes italianos, jovens turcos em restaurantes e lojas turcas, etc. (Zentrum

für Turkei Studien 2004). Noutros casos, estes jovens recorrem às suas redes de apoio (pais e outros familiares) no processo de integração no mercado de trabalho. Tal acontece, principalmente, ao encontrarem tra- balho nas empresas onde pais, familiares e amigos já trabalham, ou ainda ao integrarem o negócio da família (Bendit 1997; Schittenhelm 2005).

Desafios culturais e comportamentos

A integração social e cultural dos jovens de origem imigrante ou étnica tem lugar na vida quotidiana: a família, a escola, o bairro, os grupos de pares, os centros de juventude, as ONG e as associações de jovens, bem como também os meios de comunicação social, constituem a base psico- lógica e social a partir da qual os jovens de origem imigrante e os perten- centes a minorias étnicas, como todos os outros jovens, aprendem a desen- volver competências de agência e identidades culturais próprias. Mas nestes diferentes contextos, esses jovens são também confrontados com situações de discriminação e outros problemas que, em alguns casos, levam à «rotu- lagem» social ou à etnicização das relações sociais (Skrobanek 2007).

Diferentes estudos empíricos sobre jovens de origem imigrante na Áus- tria, na Dinamarca na Alemanha, em França, na Holanda, em Portugal e em Espanha, mostram que uma parte importante dos seus pais consi- dera importante transmitir a sua própria identidade cultural aos filhos. Nesta perspectiva, e concomitantemente, alguns pais exercem pressão sobre os seus filhos (crianças e jovens) não só para a aceitar, mas também reproduzir os seus estilos de vida e tradições. Este é especialmente o caso das crenças e práticas religiosas. Além disso, famílias imigrantes mais tra- dicionais entendem os estilos de vida ligados à modernidade tardia como problemáticos e perigosos para a sua vida familiar. Neste tipo de famílias domina a ideia de que os contactos sociais da mulher não casada só de- verão ter lugar no âmbito das suas próprias redes familiares. A maioria das raparigas e jovens que crescem neste tipo de contextos familiares casam-se e têm filhos relativamente cedo.

A participação em diferentes contextos quotidianos influencia de di- ferentes formas o processo de individualização. Os jovens podem apren- der sobre a vida em contextos de modernidade tardia quando participam em muitas actividades e grupos informais. Em grupos interétnicos de pares, centros e associações de juventude, os jovens de origem imigrante e pertencentes a minorias étnicas contactam com valores, normas e pa- drões de comportamento característicos da modernidade tardia, apren- dendo de forma cadenciada a fazer parte da vida e das culturas juvenis

modernas.8No entanto, certos grupos de jovens imigrantes e de jovens

pertencentes a minorias étnicas preferem manter as suas relações sociais em contextos informais de grupos intraétnicos (por exemplo, grupos de pares; clubes desportivos; organizações religiosas e políticas, etc.). Estes grupos e organizações são vistos de forma relativamente céptica pela so- ciedade em geral e, por vezes, caracterizados como «sociedades paralelas» inibindo a integração social e desafiando a coesão social.

Em diferentes Estados-membros da UE, as raparigas de origem imi- grante ou pertencentes a minorias étnicas provenientes de contextos fa- miliares tradicionais tendem a ter poucas oportunidades para participar na vida juvenil moderna. Elas permanecem excluídas dos seus grupos de pares e das associações de juventude, bem como de outras formas de ex- pressão no contexto das culturas juvenis. Assim, essas jovens encontram- -se simultaneamente excluídas de diferentes situações informais de apren- dizagem de estilos de vida específicos, relevantes para a sua integração social e cultural nas sociedades de modernidade tardia.

Os jovens de minorias étnicas com baixos níveis de escolaridade e que desempenham profissões pouco qualificadas parecem reproduzir mais cedo, no seu percurso, estilos de vida mais tradicionais. Casam mais cedo, e as raparigas não trabalham e têm filhos precocemente. Para muitos destes grupos de jovens pertencentes a minorias étnicas, as condições de base ét- nica e socioeconómica actuam de forma combinada e constituem factores determinantes na construção de trajectórias de vida mais tradicionais.9

Em suma, para os jovens descendentes de imigrantes e pertencentes a minorias étnicas, a sua aprendizagem no que se refere a pôr em prática estratégias activas de coping («agência») relevantes para a sua integração social e cultural nas sociedades de modernidade tardia, passa por proces- sos de aprendizagem informal em diferentes espaços sociais da vida quo- tidiana. Na maioria dos países analisados, registam-se grandes diferenças entre a primeira, a segunda e a terceira gerações de jovens de origem imi- grante e pertencentes a minorias étnicas. Também o processo de indivi-

8Nestes espaços «abertos» e informais de aprendizagem, podem ser desenvolvidos

novos contactos interpessoais, assim como novas perspectivas de vida. No contexto de grupos interétnicos, estes jovens podem aprender a desenvolver estratégias para lidar com as ambivalências, contradições e conflitos que emergem entre os seus estilos de vida mais tradicionais e os estilos de vida modernos prevalecentes nas sociedades de acolhimento. Nestes espaços, os jovens imigrantes e os jovens pertencentes a minorias étnicas podem igualmente aprender a lidar com o preconceito, com situações de discriminação, xeno- fobia e racismo.

9Ver Walther, Stauber e Pohl 2009; Weiss 2007a, 2007b, 2007c; Machado e Matias

dualização destes jovens parece ser mais «gendrificado» do que o processo de individualização que caracteriza as sociedades de modernidade tardia. Deste modo, iniciativas sociais directas e indirectas de integração escolar e laboral apresentam-se como extremamente relevantes.

Uma visão geral sobre as estratégias

No documento Jovens e rumos (páginas 145-148)