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O caso dos jovens búlgaros

No documento Jovens e rumos (páginas 122-125)

Para os jovens búlgaros, a noção de transição tem, de forma dramática, um duplo significado. A transição de uma economia planificada comu- nista para uma economia de mercado pós-comunista foi posta em mar- cha no início dos anos 90 e tem vindo a afectar as oportunidades de vida de todas as gerações, não apenas os jovens, até hoje. O segundo signifi- cado é, mais peculiarmente, que as etapas de transição das gerações mais jovens começam a libertar-se de padrões ligados à tradição. A constituição de família ainda ocorre na Bulgária mais cedo do que na maioria dos ou- tros países desenvolvidos europeus, mas encontra-se em mudança; os jo- vens tornam-se pais mais tarde do que antigamente.

Nem sempre tal sucede por razões inteiramente voluntárias. A incer- teza económica, as estruturas de emprego diferentes, a falta de habitação e as fronteiras abertas levam a que o planeamento seja necessário e, ao mesmo tempo, dúbio. Os jovens búlgaros têm de planear sem grandes certezas quanto ao resultado final. De certo modo, dentro do seu curto percurso de vida, têm de condensar um desenvolvimento cultural, polí- tico e económico que, para os seus contemporâneos ocidentais, teve lugar ao longo de três ou mais décadas e gerações. Não houve um período de aprendizagem intergeracional: a geração dos pais não pode servir como modelo para os seus filhos no que toca à gestão do presente. Os jovens búlgaros têm, portanto, de desenvolver estratégias de aprendizagem para lidar com situações até aqui desconhecidas.

Quando as situações se tornam problemáticas, os sujeitos têm de tomar as suas decisões com circunspecção, sem que haja tempo para de- senvolver a consciência do problema e antecipar o futuro próximo: quando é que seria estrategicamente oportuno planear uma criança? Mais, será que o momento adequado para fazê-lo, devido à evolução im- previsível do mercado de trabalho, nunca chegará? Consequentemente, será sensato atrasar a constituição de uma família, ou mesmo abster-se inteiramente de o fazer? Mas como combinar este raciocínio com hábitos tradicionais, os seus desejos próprios3e as aspirações dos respectivos pais

(avós)? Em condições de grande incerteza económica, a fonte principal

3Na Bulgária, ter crianças é um dos valores pessoais mais elevados entre os jovens

de apoio emocional e material são os pais dos jovens (Kovacheva 2008). No entanto, não se trata já do antigo vínculo: ambas as gerações têm de se adaptar à nova realidade social. Os jovens continuarão a ser filhos fiéis aos seus pais, que mantêm, em grande medida, comportamentos e valo- res tradicionais, mas estes não se oporão aos diferentes modos de os seus filhos lidarem com problemas actuais. A aprendizagem faz-se em ambos os sentidos.

A transição dos jovens búlgaros para a parentalidade, homens e mu- lheres, é um exemplo revelador dos efeitos da modernização selectiva sobre o percurso de vida: como é que os jovens aprendem (ou recusam, ou são incapazes de aprender – e porquê) a fazer novas combinações de antigas formas e valores de vida (família, género, lealdades entre gerações, reli- gião) com novas oportunidades e novos riscos? Há a possibilidade de exercer agência em conformidade com a própria vontade; há o risco de cortar raízes quando se emigra; há a oportunidade de compensar o con- formismo e, mais uma vez, há o risco de não conseguir aprender o que é necessário para fazer face às mudanças e às incertezas em curso.

O caso dos jovens italianos

Tal como foi referido, a Itália é um dos países europeus menos homo- géneos, devido à profunda divisão entre o Norte industrializado e o Sul ainda, em grande parte, rural. Isto tem implicações nos percursos de vida dos jovens adultos, no equilíbrio entre géneros e na conciliação entre tra- balho e vida familiar dos jovens pais. Surgem ambivalências nos percur- sos de vida das mulheres jovens em ambas as partes de Itália. As mulheres que vivem no Norte são mais orientadas para valores e planos de vida individualizados, tentando conciliar trabalho e parentalidade, e incluindo um equilíbrio mais moderno entre os géneros. As suas perspectivas são, porém, dificultadas por normas tradicionais e rígidas de género que de- sencorajam as mulheres de alcançar, simultaneamente, uma carreira e a maternidade.

A pressão advém de três instâncias: a Igreja, o mercado de trabalho e os homens. Os jovens homens italianos foram educados por mães que, a seu tempo, interiorizaram elas próprias normas e valores de género es- pecíficos; os filhos esperam o mesmo da relação com as suas parceiras. Para eles, portanto, existe menos ambivalência e maior resistência à mu- dança do ponto de vista das questões de género. Os jovens «homens aca- rinhados» querem manter-se acarinhados pelas suas esposas e estão menos dispostos a assumir o papel de «novos pais» (Leccardi e Magaraggia 2007).

A família alargada (Sgritta 2005) funciona como uma comunidade ín- tima e fonte de apoio para ambos, homens e mulheres jovens: os avós de bom grado ajudarão a criar as crianças que, por sua vez, irão participar nas extensas redes que existem dentro e entre famílias amigas. Mas a fa- mília de origem é também tendenciosa em termos de género, na medida em que não existe a expectativa de os homens/filhos jovens partilharem as tarefas de cuidar das crianças; as mulheres/filhas jovens têm de viver com essa contradição, entre o apoio e os preconceitos de género nas suas próprias famílias e nas dos seus sogros. A Igreja Católica apoia esses va- lores e práticas.

A terceira fonte de pressão, representativa de um obstáculo ao equilí- brio satisfatório entre trabalho e vida familiar, é a existência de um mer- cado de trabalho extremamente desfavorável para jovens pais/mães. O trabalho a tempo parcial regular e bem pago para jovens mães é prati- camente inexistente, e ainda mais raro para jovens pais. As negociações com as entidades patronais são raras e as estruturas públicas de acolhi- mento de crianças são escassas e caras.

Foi já referido que a sociedade italiana é um exemplo de modernização da cultura familiar tradicional, mais no Norte, mas também no Sul, onde famílias pequenas com menos filhos começam a tornar-se a norma «mo- derna» (Stauber e Bois-Reymond 2006). Ali, também, as mulheres jovens enfrentam o desafio de aprender estratégias que ajudem a amenizar o percurso das suas biografias num sentido moderno, sem excluir a priori carreira e maternidade. Para elas, de forma mais vincada no Sul do que no Norte, isto é consideravelmente difícil na medida em que já interio- rizaram, através da sua educação religiosa, o ideal de mãe («mamma Ita- lia»), tal como os homens.

As mulheres italianas – muito mais que do que os homens – pagam um preço elevado pelas mudanças de estandardização, desestandardização e reestandardização do curso de vida que acompanham a modernidade: percursos de vida especificamente marcados por diferenças de género foram dominantes em tempos de estandardização, mas mantêm-se fortes nas fases posteriores. No entanto, ao passo que a parentalidade represen- tava então uma fase evidente nas vidas dos jovens italianos de ambos os sexos, agora tornou-se problemática também para ambos: para as mulhe- res, porque têm de escolher entre a maternidade e a carreira; para os ho- mens, porque têm de se afastar do ideal da família alargada, visto que di - ficilmente irão assumir o papel de patriarca de uma grande família, tal como fizeram os seus pais. Mais exactamente, irão (ter de) submeter-se a uma parentalidade adiada e a uma família com um ou – mais improvável – dois

filhos, ou nenhum. A Itália pertence ao grupo de países da UE com as mais baixas taxas de fertilidade.

No documento Jovens e rumos (páginas 122-125)