Poderia dizer-se que a circularidade das trajectórias deixou os jovens sem estratégia de inserção adulta, já que não parece aguardar-lhes no fu- turo um destino definido, o que os priva de metas fixas ou objectivos a
conquistar. E, ao carecerem de estratégia futura, os jovens refugiam-se no mero tacticismo, ensaiando, uma atrás da outra, as mais diversas tácticas oportunistas que lhes permitam viver cada dia enquanto se adaptam ao contexto presente mais imediato. É então que impõe a sua primazia o conceito de «transições», entendido como as sucessivas mudanças tran- sitórias que se sucedem ao longo da trajectória juvenil. Mudanças de idade: infância, adolescência, primeira juventude, maturidade adulta... Mudanças de nível de estudos: escola, liceu, universidade... Mudanças de estatuto laboral: procura de primeiro emprego, trabalhos iniciais, as- censão na carreira profissional... Mudanças amorosas: primeiras relações, namoro, casamento... Mudanças domésticas: saída de casa, casa parti- lhada, domicílio próprio...
Nas trajectórias juvenis industriais e meritocráticas, estas transições esta- vam integradas num todo contínuo que lhes servia de fio condutor e guia de referência. Daí que as transições fossem transitivas ou consequentes, no sentido em que se sucediam umas às outras, cada uma consequência da anterior e antecedente da próxima, constituindo uma sequência de passos necessários que conduziam progressivamente à maturidade adulta como os degraus de uma escada ascendente. Agora, ao perder o sentido último que as integrava como um todo, as trajectórias tornaram-se descontínuas e fragmentadas. E, em consequência, as transições que as integravam como fases transitórias também se tornaram intransitivas ou inconsequentes, na medida em que já não dão passagem umas às outras nem conduzem à fu- tura inserção adulta. Pelo contrário, agora são autónomas e independentes entre si, deixando de constituir os degraus necessários para ascender a en- costa da integração social.
De facto, as transições juvenis da sociedade industrial e meritocrática estavam ordenadas no tempo de forma gradual, acumulativa e hierár- quica, do mesmo modo que também estava o curso escolar e académico que então lhes servia de coluna vertebral: primeiro o ensino primário, depois o secundário e, por último, o superior; e, dentro de cada um des- tes, cada curso era a chave de ascensão até ao seguinte e posterior. Pois bem, de igual modo, as transições juvenis compunham uma sequência de etapas cujo itinerário tinha de se percorrer em sentido ascendente sem possível retrocesso: primeiro a formação académica (ensino e escolha da carreira), depois o emprego (início da carreira profissional), depois o na- moro e o casamento e, por fim, a formação de família (lar e progenitura). Mas agora essa sequência temporal quebrou-se e as suas peças podem baralhar-se e permutar entre si quase de qualquer modo. Assim acontece sobretudo com a transição mais simbólica de todas, pelas suas implicações
fisiológicas, emocionais e reprodutivas, que é o acesso às relações sexuais. Nas trajectórias juvenis da sociedade industrial, a sexualidade adolescente era fortemente reprimida, pois o seu acesso legítimo adiava-se para reservá- -lo como prémio final que coroava o processo, após cada jovem ser inves- tido como adulto maduro. De facto, os jovens só podiam ter relações se- xuais habituais quando já estavam casados. É verdade que havia grandes diferenças de género, pois as jovens nunca deviam tê-las, porque isso amea- çava as suas oportunidades de ascensão matrimonial, enquanto os jovens podiam ter algumas relações precárias, esporádicas e clandestinas com em- pregadas domésticas ou prostitutas. Deste modo, a repressão da sexualidade excitava todos os jovens, criando uma tensão ética para a acção (Weber 1972) que constituía um engodo, anzol ou estímulo para a integração adulta: se se queria ter sexo legítimo habitual, era preciso esforçar-se e fazer proezas para alcançar o direito a casar-se e constituir família.
Pois bem, isto já não acontece actualmente. Na actualidade, a transição para a sexualidade ocorre a qualquer idade, e em idades cada vez mais pre- maturas, mas, em todo o caso, acede-se a ela com total independência do estádio em que se encontrem as demais transições escolares ou laborais. Da restrição da sexualidade como prémio diferido para estimular os esfor- ços para obtê-la, passou-se à sua liberalização, permitindo o seu acesso an- tecipado e gratuito. Então, para quê lutar por merecer e conquistar o direito a casar-se, se já se pode obter gratificação sexual sem qualquer necessidade de esforço? Assim, a transição sexual deixou de ser a meta final da trajec- tória juvenil (tal como terminava o final feliz de todos os contos: casaram- se e foram felizes para sempre), para tornar-se numa das suas transições ini- ciais, mas uma transição intransitiva, desconectada das demais transições, que já não possui a chave nem o estímulo de nenhuma outra. E uma tran- sição insignificante, que já não exerce consequências decisivas, convertida em puro passatempo sexual como uma brincadeira de crianças.
Este processo pode ser chamado intransitabilidade, entendendo por isso a crescente irrelevância das transições juvenis, que já não servem, ou servem cada vez menos, de incentivo no acesso às demais transições fu- turas. Este fenómeno é muito visível na transição para a sexualidade, mas produz-se também nas demais transições, como acontece, por exemplo, com a formação educativa. Na sociedade meritocrática era muito rentável esforçar-se para superá-la com êxito académico, pois os melhores estudan- tes posteriormente conseguiam os melhores postos de trabalho e, mais tarde, os melhores parceiros. Mas tal já não acontece em igual medida.
Como revela o exemplo espanhol dos mileuristas (bolseiros com exce- lência académica que só acedem a postos precários), agora os empregos
e os salários estão cada vez mais desconectados dos méritos académicos e profissionais: é o declive da meritocracia denunciado por Sennett (2006). Daí que cresça o abandono prematuro dos estudos a todos os ní- veis, mesmo antes de concluir a escolaridade obrigatória, com grave re- trocesso da formação profissional, como revelam os elevados valores es- panhóis ou portugueses (OCDE 2008).
Esta nova intransitabilidade das transições gera também a sua recessão ou, pelo menos, a sua reversibilidade. Antes, na sociedade industrial, cada uma das transições conduzia à seguinte de forma necessária, sem possível volta atrás. Por exemplo, a transição do casamento conduzia irreversivel- mente do estado civil de solteiro ao de casado, um novo estado civil que já não se podia perder, pois ao dissolver-se o casamento não se regressava à vida de solteiro mas entrava-se na viuvez ou no divórcio como ulterior estado civil. E acontecia algo semelhante com as habilitações académicas. Ao ter uma carreira obtinha-se uma saída profissional para a vida que já não tinha retorno, pois a investidura como médico ou engenheiro era ir- reversível e vitalícia.
Mas agora tal já não acontece. A união de facto tornou-se muito menos relevante, para não dizer irrelevante, pois a coabitação informal, que hoje se prefere em relação ao casamento, apenas modifica o estado civil dos membros do casal, como demonstra que, quando esta se dis- solve, aqueles voltam a comportar-se exactamente como pessoas solteiras, equivalendo a viuvez, a separação ou o divórcio a uma espécie de nova vida de solteiro. E com a habilitação ocorre o mesmo, pois os diplomas actuais são agora quase irrelevantes, dada a rapidez com que se desvalo- rizam e amortizam, nesta era de mudança tecnológica e formação contí- nua onde é preciso reciclar constantemente a capacitação profissional. Pois se assim não se faz, por muito engenhoso que se seja, o emprego perde-se quase à mesma velocidade com que se perdem os casais, e re- gressa-se ao estado de desempregado ou estudante em vias de reconversão profissional.
As transições juvenis foram privadas do seu antigo dramatismo como luta pela vida. Se antes pareciam cruciais, relevantes e decisivas, porque nelas cada um jogava literalmente a vida, agora parecem quase uma brin- cadeira de crianças, irrelevantes, fúteis ou banais. De carregadas com a tensão dramática da luta pela vida, passaram a parecer meros passatem- pos, puro entretenimento, quase uma comédia, ou talvez uma farsa, que se pode protagonizar com displicência, cepticismo e muita distância crí- tica. Pois quem pode levar a sério um itinerário juvenil cujas etapas tran- sitórias podem alterar-se aleatoriamente sem medo das possíveis conse-
quências, como se se baralhassem as cartas e os naipes de um baralho trocado?