• Nenhum resultado encontrado

Mudando percursos de vida na modernidade tardia

No documento Jovens e rumos (páginas 115-119)

Desde os anos 80 que os sociólogos têm discutido e debatido as mu- danças sociais nas sociedades ocidentais e como estas afectam o curso de vida das pessoas (jovens). Embora com ênfase diferenciada em termos temáticos, analíticos e de referências às grandes teorias (mais recente- mente Beck, Bauman e Giddens), os estudiosos convergem nas suas aná- lises das principais tendências quanto à transformação, no período pós- -guerra, do modelo estandardizado de curso de vida para biografias individualizadas e desestandardizadas, em ambos os sexos. As trajectórias educacionais prolongadas, em particular, são responsáveis por estas ten- dências. Estas traduzem-se em períodos juvenis cada vez mais prolonga- dos, e atrasam a aquisição dos estatutos previamente definidos da vida adulta, como os marcadores de independência económica e os papéis fa- miliares como jovens pais.

Como tal, as fases da vida perdem a sua distinção e tendem a confun- dir-se e sobrepor-se. Os investigadores do grupo EGRIS (ver a nota 1) têm retratado essas alterações como transições Iô-Iô, caracterizadas pela menor clareza sobre quando o estatuto de adulto, na sua acepção tradicional, é atingido, se tal for sequer possível (Walther, Bois-Reymond e Biggart 2006). Ao tipificar sujeitos que estão algures entre a juventude e a idade adulta como jovens adultos, denotam-se as ambivalências que se instalaram nas fases da vida. Uma mãe que tenha o seu primeiro filho aos 35 anos pode, actualmente, sentir-se tão jovem como a sua irmã que tem menos seis ou sete anos e, ao mesmo tempo, sentir-se mais adulta por causa da sua maternidade. «As sociedades modernas não fornecem respostas defi- nitivas quanto ao início da idade adulta» (Blatterer 2007, 773).

É precisamente essa a razão pela qual os cientistas sociais se debatem com os conceitos de vida adulta e, em consequência, de juventude. De- pendendo da sua formação científica, tendem a sublinhar traços de per-

sonalidade individual (psicólogos) ou efeitos das mudanças sociais sobre os sujeitos (sociólogos). As controvérsias sobre a «pós-adolescência», a «vida adulta emergente», a «vida adulta suspensa» e a «nova vida adulta» (ver Arnett 2004; Blatterer 2007; Coté 2008; Coté e Bynner 2008) dizem todas respeito a temas relacionados com ambivalência, riscos e oportu- nidades, introduzindo novas formas e exigências futuras de lidar (apren- der) com essa nova realidade.

A parentalidade jovem põe à prova estas noções: em primeiro lugar, não há qualquer dúvida de que, em toda a Europa, os jovens se tornam pais cada vez mais tarde e dessa forma diferem dos anteriores modelos estandardizados; o estatuto da parentalidade tinha, no passado, uma re- lação mais estreita com a idade adulta do que tem actualmente. Mas isso não significa que nos percursos de vida não padronizados e individuali- zados o modelo tradicional de vida adulta, com a parentalidade no seu centro, esteja dissolvido. Na verdade, ele é transformado e contém agora novos elementos que podem coexistir de forma pacífica ou conflituosa, em função de circunstâncias sociais e culturais e, também, das preferên- cias individuais. «Os indivíduos podem fazer escolhas relacionadas com o percurso de vida mas têm de fazê-lo correspondendo aos requisitos do curso de vida estandardizado» (Buchmann 1989, 18); por outras palavras, o percurso de vida reestandardizado.

A complexa relação entre escolha e constrangimento e entre estandar- dização, desestandardização e reestandardização dos padrões de curso de vida, determina o estado actual da parentalidade jovem. A relação pa- dronizada entre géneros – ela, a dona de casa e mãe; ele, o principal sus- tento da família – tornou-se desestandardizada e resultou no «problema da combinação» sobre como reorganizar as tarefas relacionadas com a família e com o trabalho entre homens e mulheres na sociedade em geral. Surgiram novos modelos que, ao tornarem-se um novo padrão, efectua- ram uma reestandardização do curso de vida: hoje a maioria das jovens mães trabalha a tempo inteiro ou parcial.

Mas esta reestandardização significa coisas diferentes para homens e mulheres: trabalho a tempo parcial e cuidados com a infância para as mulheres; trabalho a tempo inteiro e alguns cuidados com a infância para os homens, enquanto parceiros de uma mulher que já não é, nem está disposta a ser, dona de casa a tempo inteiro; várias formas do modelo «um-e-meio» são experimentadas pelos jovens pais e incentivadas por po- líticas de família – ainda que com intensidade díspar nos diferentes países. Este novo-velho modelo, com uma dupla carga para as mulheres e novas exigências para os homens, tem de ser negociado continuamente por

todos os agentes envolvidos: homens e mulheres, políticos, empregado- res, prestadores de cuidados de saúde privados e públicos. Não se trata de um modelo tão evidente como o modelo antigo, e tem diferentes sig- nificados e expectativas junto dos respectivos agentes (note-se que nestes se incluem as crianças).

A dialéctica entre estandardização, desestandardização e reestandardi- zação dos cursos de vida masculinos e femininos funciona de forma dis- tinta em diferentes países e culturas. Há países e regiões onde a desestan- dardização não se implementou tanto quanto em outras partes da Europa, como no Sul de Itália e na Bulgária, por exemplo. Existem outros países e regiões onde a reestandardização está associada a uma nova ideo- logia feminista, justapondo os valores da maternidade dedicada à mulher do Segundo Movimento das Mulheres, duplamente sobrecarregada, como sucede nos Países Baixos (ver Brinkgreve e Ter Velde 2006). Os pla- nos de curso de vida dessas mulheres não são comparáveis com, por exemplo, os das suas irmãs da Alemanha de Leste, onde as mulheres, de- vido ao desemprego, são forçadas a regressar a percursos de vida estan- dardizados – tal como os homens a cair em «percursos de vida de padrão feminino» como donos de casa involuntários.

Escolha individual e independência possibilitam novas alternativas e normas de comportamento; exigem a continuidade a nível do cresci- mento pessoal e a auto-análise para encontrar um ajuste entre a vontade individual e as necessidades sociais. Em simultâneo, as instituições sociais e as políticas familiares ainda conservam a vida adulta na acepção do velho modelo padrão como ponto de referência; a idade adulta como um estatuto final a alcançar para adquirir a individualidade por inteiro. Ambos, o crescimento contínuo (aprendizagem) e o estatuto de vida pre- definido (fechado) não se conjugam bem, antes criam tensões: se as mu- lheres, hoje em dia, adiam a maternidade porque querem dar continui- dade à sua carreira profissional, investir na sua relação íntima e manter uma vida social, não alcançam a «vida adulta» num ponto predetermi- nado; a vida é um projecto contínuo, exigente, satisfatório e, por vezes, stressante. E apesar de os homens jovens, de 30 e mais anos, apreciarem a sua independência com os seus grupos pares masculinos, podem sen- tir-se adultos mas (ainda) abstêm-se deliberadamente de assumir as res- ponsabilidades da paternidade; também para eles, a vida é um projecto aberto.

No anterior modelo, a idade adulta, a parentalidade e a inclusão social identificavam-se (idealmente) umas com as outras. Actualmente, já não é assim. O percurso de vida está fragmentado ao longo destas linhas e

conduz a um vasto horizonte de novos modelos: a idade adulta separada da parentalidade, com e sem inclusão social, muito em função do histo- rial de mercado de trabalho e de migração; a parentalidade separada da vida adulta (na acepção tradicional do termo), como se verifica nas mães adolescentes (migrantes); concordância entre idade adulta, parentalidade e inclusão social, mas com um novo equilíbrio entre homens e mulheres, nova assistência às crianças, novas relações entre as gerações e um novo imaginário sobre o significado da parentalidade, enquanto homens ou mulheres. A inclusão social não é uma evidência para todos os jovens nas sociedades de modernidade tardia. Pelo contrário: processos de ex- clusão social neutralizam noções de idade adulta, parentalidade e inde- pendência. Os mecanismos e os desenvolvimentos que colocam os pro- cessos de exclusão social em movimento estão, em grande parte, para lá do poder de agência e de influência dos sujeitos; esta realidade faz au- mentar o número de confusões e brechas nos percursos de vida. Assim, ser capaz de – aprender a – utilizar e divulgar recursos pessoais e sociais torna-se vital.

A noção de agência, nesse processo de aprendizagem, deve ser enten- dida como uma capacidade que mitiga necessidades e desejos biográficos, por um lado, e oportunidades e obstáculos estruturais, por outro (Pohl, Stauber e Walther 2007). Por parte dos jovens, o desenvolvimento de es- tratégias autoconscientes de agência no sentido de influenciar as suas condições de vida imediatas e prospectivas tornou-se um propósito de vida explícito, e todos aqueles que não respondam a tal propósito correm um elevado risco de perder o contacto com as principais instituições e entidades relevantes. Tal pode ser visto em percursos de vida de jovens que não querem, ou não podem, reflectir sobre a transição para a paren- talidade com a devida circunspecção – entendida aqui como estar em concordância com novos padrões comportamentais e exigências sociais: não muito cedo (mães adolescentes), não sem um parceiro estável (pais solteiros), não sem um mínimo de segurança económica (famílias com menores recursos) (Misra, Moller e Budig 2007).

Os indivíduos devem contrabalançar todos estes requisitos sociais para chegar a uma parentalidade aceite. Isto revela a complexidade peculiar da transição para a parentalidade: não sendo uma transição singular, faz parte da simultaneidade das transições que os jovens devem dominar: di- reccionar as suas trajectórias educacionais para um bom (mas não finito: aprendizagem ao longo da vida!) resultado; encontrar trabalho (num con- texto de flexibilidade laboral!); encontrar um parceiro em quem confiar e que invista nas mesmas trajectórias (o que requer, mas também poupa,

tempo e energia!); descobrir juntos se existem recursos suficientes para construir uma família (talvez não; ou ainda não); e se é possível ter con- fiança suficiente na viabilidade económica do país (que é incerta e não pode ser influenciada pelo indivíduo; a mobilidade forçada pode ser a única opção).

Em suma, a concepção da parentalidade jovem como parte dos percur- sos de vida em mutação na modernidade tardia é um conceito multinível, re- lacionando as transições juvenis com a simultaneidade de passagens esta- tutárias, com as diferenças de género, étnicas e culturais, com os mercados de trabalho e com os sistemas de apoio à parentalidade jovem.

Transições para a vida adulta e parentalidade

No documento Jovens e rumos (páginas 115-119)