Neste texto, parti da hipótese de que a transição para a parentalidade jovem, no percurso da modernização, se tornou um passo reflexivo no percurso de vida dos seres humanos. Jovens prestes a tornarem-se pais
6Na Holanda ser mãe solteira também é mais frequente entre jovens adultos da região
têm de calcular os prós e os contras de constituir família. Isso implica aprendizagem, na acepção mais ampla possível do termo.
Para sustentar esta hipótese, fiz referência à extensa discussão sobre a indefinição das categorias de idade que separam a juventude da idade adulta. No decurso das últimas cinco décadas, aproximadamente, o curso de vida humano passou por uma ampla transformação de um modelo estandardizado em função do género para um modelo mais desestandar- dizado, com menos diferenças de género e mais espaço para experimentar comportamentos alternativos. Essa transformação resulta na reestandar- dização considerando que estes novos comportamentos, normas e valo- res se generalizam e resultam em novas formas de normalidade.
Este vasto processo incorpora mudanças na parentalidade jovem. Ser pai ou mãe estava, normalmente e de forma prática, codificado e padro- nizado no curso de vida em função do género, tratando-se de um acon- tecimento inquestionável. No entanto, a ordem consecutiva das etapas para a parentalidade perdeu o seu carácter ideológico e obrigatório e levou a percursos de vida pluralizados e individualizados, no qual a pa- rentalidade é possível sem casamento, nos momentos escolhidos pelos próprios. Tornou-se parte do planeamento deliberado. Adiar a parentali- dade e ter menos filhos é agora uma tendência de praticamente todos os países europeus, devido sobretudo a trajectórias educacionais mais longas e à inclusão das mulheres no mercado de trabalho. Essas são as principais características da reestandardização do curso de vida na modernidade, juntamente com um reequilíbrio da relação entre géneros.
Estas tendências – delineadas aqui de forma ideal – não ocorrem da mesma forma e ao mesmo ritmo em todos os países europeus, mos- trando-nos que a aquisição do estatuto de jovem mãe ou pai depende de contextos políticos, económicos e culturais. A evidência aponta para a maior capacidade de deliberação e maior incerteza sobre se e quando constituir família, bem como para a menor referência a estruturas de pa- péis de género fixos, ou a tradições religiosas e regionais. Tentei destacar as características que tornaram plausível a participação efectiva dos jovens nas amplas vagas de modernização que alteraram a parentalidade no sen- tido de um conceito evidente para um conceito artificial, resultante de um projecto de elaboração próprio. Deve, no entanto, sublinhar-se que esse projecto nem sempre é auto-elaborado no sentido da livre escolha. A agência dos jovens é comprometida por coerções e restrições sociais, um mercado de trabalho inseguro e, ainda, a falta de apoios sociais.
Os processos de modernização selectiva resultam em novos modelos de género e de família. Pode assumir – e assume – formas variadas. No caso
da Bulgária, a modernização selectiva refere-se à compressão da mudança social numa só geração, ao contrário de países ocidentais, que tiveram mais tempo para mudar. No caso italiano, modernização selectiva signi- fica que, em primeiro lugar, por causa das tradições religiosas e familiares, o antigo modelo de curso de vida em função do género está ainda pro- fundamente enraizado na sociedade – profundamente mas já não com firmeza, na medida em que mulheres jovens exercem um poder de agên- cia que altera esse modelo, em prol do desenvolvimento (despadroniza- ção), eventual, de um modelo geral de aceitação de um maior equilíbrio de poder entre géneros. Nos Países Baixos existe, como demonstrei, um clima favorável para a divisão equitativa das obrigações familiares e la- borais entre mulheres e homens jovens, mas os valores ligados à cultura da família não são abandonados (as crianças pequenas não passam de- masiado tempo nas creches). Por último, temos o caso britânico das mães adolescentes como exemplo de, por um lado, uma resposta tradicional (negativa) para essas jovens mães, mas, por outro, de crescente autocon- fiança e energia na agência dessas mães (e pais) adolescentes, reivindi- cando espaço e reconhecimento social para o seu modelo de percurso de vida.
Relativamente às relações intergeracionais, a mudança social mani- festa-se como modernização no seio das famílias e entre famílias. Não sendo o único, trata-se de um motor muito robusto para orientar os per- cursos de vida dos jovens e para formar a base de aprendizagem para a parentalidade jovem. O óleo, por assim dizer, que determina o bom fun- cionamento desse motor, encontra-se nas culturas de negociação no seio e fora da família de origem, bem como entre o jovem casal. A negociação como realização cultural e técnica de aprendizagem para lidar com dile- mas e contradições faz parte dos mais vastos processos de modernização, individualização e pluralização. Apesar de se constatar que, eventual- mente, todos os jovens pais desenvolvem rotinas diárias pragmáticas de «sobrevivência», nota-se a tendência para um nível de negociação acres- cido dentro de relações de género mais equilibradas, devido a ambições individuais crescentes em todas as esferas da vida – proporcionada por um certo nível de bem-estar e segurança, como nos Países Baixos.
As tendências contraditórias decorrentes de uma intensificação nos cui- dados com os filhos e no trabalho – o pai ou a mãe ideal; o funcionário ideal – em sociedades abertas e pluralizadas e em economias de mercado «livre», colocam uma enorme pressão sobre os jovens. Este duplo com- promisso envolve todos os jovens pais e mães contemporâneos e faz parte da explicação de ambos: atraso ou abstinência no que diz respeito a ter
filhos e luta por mais tempo parental no local de trabalho, de forma a ter mais tempo para cuidar dos filhos. Curiosamente, essa luta não é feita contra a intensificação dos cuidados com os filhos. Pelo contrário, as jo- vens mães, e cada vez mais os pais, sentem-se obrigados (e querem) apren- der tanto quanto possível sobre a «boa parentalidade». Nunca antes na história houve um movimento tão significativo de autoprofissionalização no campo da gravidez, saúde, desenvolvimento na primeira infância, prá- ticas parentais, etc., para além da crescente necessidade de especialização profissional e de apoio nas sociedades de bem-estar avançadas de hoje; uma tendência que também se difunde nas sociedades menos abastadas. Finalmente, em todos os países considerados pelo nosso trabalho, há evidentemente grupos de jovens pais com trajectórias de alto risco; aí se encontram muitos pais e mães de minorias étnicas, mas não só. A pobreza estrutural, a exclusão do trabalho assalariado e as trajectórias educacionais interrompidas são os principais factores de risco, em todos os países, que ameaçam a parentalidade. As políticas em matéria de família não são, mui- tas vezes, concebidas para melhorar a situação de vida desses jovens e per- mitir-lhes aprender a (re)alcançar a independência e autonomia. Isto acon- tece porque a maioria das medidas em matéria de família não faz parte de políticas integradas que tenham em consideração o conjunto das trajectórias de transição que compõem e determinam a parentalidade jovem. Não são só os jovens que têm de aprender a parentalidade jovem; as políticas eu- ropeias no domínio da família também devem aprender a reagir de forma significativa à geração jovem. Devem aprender a tornar-se mais orientadas para o indivíduo e abandonar a pretensão de conhecer a forma «correcta» de vivência juvenil. Devem aprender a descartar a sua ignorância, a não negar as contingências inerentes às sociedades de modernidade tardia, com futuros incertos e em aberto, bem como as exigências crescentes dos sujeitos para lidar com tais contingências.
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