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5 INTERAÇÕES

5.2 TRANSGRESSÕES E INCIVILIDADES

5.2.2 Afeto

Morin (2000) afirma que o desenvolvimento da inteligência é inseparável da afetividade, da curiosidade e da paixão, há estreita conexão entre inteligência e afetividade. A capacidade de raciocinar pode ser diminuída, ou até destruída, pela ausência de emoção, não há um estágio superior da razão que domina a emoção, mas uma relação entre intelecto e afeto. A professora Maria afirma que não quer construir uma dinâmica de trabalho no qual os alunos têm medo dela, medo da repressão: “Eu acho que é o afeto, algo que vai e volta”. Para Tardif (2007), o trabalho docente repousa sobre emoções, afetos, sobre a capacidade de perceber e sentir as emoções, temores, alegrias e traumas dos alunos. O professor experiente sabe provocar entusiasmo, sabe motivar os alunos.

Por meio das falas das professoras do Núcleo Básico do CP percebe-se o uso do diálogo para evidenciar o sujeito com histórias, culturas e desejos; sujeito ativo, portador de problemas e potencialidades. Reconhecer tais diferenças é apontado pelas professoras como uma das melhores formas de dar sentido ao trabalho de aprendizagem em sala de aula, criar vínculos afetivos entre professores e alunos e entre os próprios alunos, como narra a professora Maria:

É você criar uma relação mais afetiva. Eu lembro de uma dia, no auge do GTD14, cada dia mais cansativo que o outro. Um dia eu levei um monte de desenhos para eles colorirem. Sentamos para colorir, eu sentei para colorir também e cada um escolheu um desenho, bacana e tal. Nós sentamos em volta para colorir, fiquei pertinho deles e começamos a conversar, contar caso e conversar (...) Conversamos, conversamos e conversamos. Desse dia em diante, mudou. Eu encontrava com eles em outros momentos, de merenda e eles me cumprimentavam: “Professora, professora” (...) As coisas mudaram. “Eu vou te respeitar, não é porque você é professora e você manda em mim, mas porque eu não quero que você fique chateada comigo. Se eu fizer alguma coisa para te desrespeitar ou para bagunçar a sala de aula, você vai ficar chateada. Eu não quero te ver chateada porque eu gosto de você”. Então as coisas mudaram.

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O GTD é o Grupo de Trabalho Diferenciado, um reagrupamento dos alunos do Primeiro Ciclo em um dia da semana para atendimento em uma área específica.

Nesse caso, as crianças ainda não conheciam a professora Maria e ela relata que após várias aulas cansativas, ela buscou se aproximar dos alunos por meio de desenhos para colorir e do diálogo, ou seja, criou um vínculo com os alunos possibilitando a criação de um espaço afetivo. Segundo a professora, após este dia, as aulas se transformaram. Em sua pesquisa Vieira (2002) evidencia saberes constituídos pelos professores sobre situações de conflito na escola. Uma professora afirma que pára a aula para conversar sobre a vida e o futuro quando as crianças estão agitadas. Em outra pesquisa empírica, Ambrosetti (2006) também observa a professora fazer uso de oportunidades para conversar sobre a vida das crianças, sobre seus interesses, sobre o que se espera deles enquanto alunos.

Ribeiro e Jutras (2006) parecem concordar com a fala da professora Maria e também com as pesquisas citadas acima. Para as pesquisadoras a afetividade é importante para o ensino e para a aprendizagem, pois contribui para a criação de um ambiente de compreensão, de confiança, de respeito mútuo, de motivação que beneficiam a aprendizagem escolar. Em um ambiente afetivo, seguro, os alunos mostram-se calmos e tranqüilos, constroem uma auto-imagem positiva, participam das atividades propostas. O professor afetivo percebe seu aluno em suas múltiplas dimensões, complexidade e totalidade. O professor esforça-se por desenvolver estratégias educativas dinâmicas e criativas que estimulam o aluno e o envolve nas decisões e nos trabalhos de grupo que demandam participação e nas quais os alunos aprendem a conviver uns com os outros.

O exemplo narrrado pela professora Maria evidencia a personalidade da professora, suas emoções e sua afetividade, que segundo Tardif (2007), são integrantes do trabalho docente: a pessoa com suas qualidades, defeitos, sensibilidade, tudo o que ela é torna-se seu instrumento de trabalho. A professora Taíssa concorda com o posicionamento da Maria:

Mas Maria, você falou uma frase que eu acho que devia ser nosso ponto de partida. Você falou o seguinte: “Eu vi que o único jeito era o afeto”. Eu acho que essa conquista dos meninos, essa sedução de relação professor/alunos, eu acho que o ponto de partida deve ser o afeto. É uma arte. Cheguei à conclusão que é uma arte de sedução. Eu acho que nossa sedução tem que iniciar pelo primeiro ano. Seja a sedução pelo afeto, seja a sedução por acolher, seja a sedução por chamar a atenção, por dizer não, por arrumar o espaço. O professor dá uma cara para a sala de aula. (...) Eu fico pensando no sentimento dos meninos, o que é entrar numa sala que você pensa “alguém está cuidando disso aqui”.

Perrenoud (2001) explica que a sedução no ensino não significa necessariamente se fazer amar, mas propiciar uma transferência, fazer amar os conteúdos porque se ama o ambiente,

o jogo, o suspense, a emoção, a surpresa, etc. Taíssa ressalta o acolhimento das crianças, a colocação de limites e a organização do espaço escolar como expressões de afeto. Esses exemplos como vivência da afetividade em sala de aula são sustentados por Mahoney e Almeida (2005). As pesquisadoras salientam que o acolhimento é importante em qualquer idade: seja o acolhimento da criança pelo grupo familiar, pelos amigos, colegas e professores; seja o acolhimento do professor pela direção, pares e alunos e ressaltam que a afetividade no processo ensino-aprendizagem exige a colocação de limites. Freire afirma que existe uma “eloqüência do discurso pronunciado na e pela limpeza do chão, na boniteza das salas, na higiene dos sanitários, nas flores que adornam. Há uma pedagogicidade indiscutível na materialidade do espaço” (Freire, 2002, p. 50).