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TÓPICO 3 — ELEMENTOS DE EXISTÊNCIA E VALIDADE DO NEGÓCIO JURÍDICO

3.1 AGENTE CAPAZ

O primeiro elemento elencado pelo Código Civil como requisito de validade é o agente capaz. Considerando que a existência de um agente já deve ter sido observada quando se vai analisar se o negócio jurídico é existente ou não, o grande ponto sobre o qual você deverá se debruçar agora, no plano de validade, é sobre a questão da capacidade.

De acordo com Gonçalves (2020, s.p):

A capacidade do agente (condição subjetiva) é a aptidão para intervir em negócios jurídicos como declarante ou declaratório. Trata-se da capacidade de fato ou de exercício, necessária para que uma pessoa possa exercer, por si só, os atos da vida civil.

Ou seja, considerando que o negócio jurídico é manifestação da vontade, a capacidade de exprimir essa vontade relevante para o direito, uma vontade que realmente corresponda ao que o agente pretende com aquele negócio, é imprescindível.

Lembre-se de que, conforme o Código Civil (2002, s.p.):

Art. 3º São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil os menores de 16 (dezesseis) anos.

Art. 4º São incapazes, relativamente a certos atos ou à maneira de os exercer:

I - os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos;

II - os ébrios habituais e os viciados em tóxico;

III - aqueles que, por causa transitória ou permanente, não puderem exprimir sua vontade;

IV - os pródigos.

ATENCAO

A incapacidade deve ser analisada com relação ao momento da realização do negócio jurídico. Se Fulano, com 16 (dezesseis) anos, faz um contrato sem a assistência de seus genitores, quando ele completar 18 (dezoito) anos o contrato continuará inválido, a não ser que ele o ratifique, ou seja, confirme a manifestação da vontade que fez quando era relativamente incapaz. Do mesmo modo, se Sicrano, plenamente capaz, efetua um contrato de empréstimo bancário hoje e, daqui a três meses, em razão de um acidente grave, tem que ser interditado, tornando-se relativamente incapaz, o contrato, vez que feito no momento que ele era capaz, continuará completamente válido.

UNIDADE 1 — TEORIA GERAL DOS FATOS JURÍDICOS

Enfim, para que o negócio seja válido, “[...] o agente deve ser capaz, respeitadas as hipóteses de absoluta e relativa incapacidade traçadas pelos Arts.

3º e 4º da Codificação (com a redação emprestada pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência), sob pena de nulidade ou anulabilidade, respectivamente” (FARIAS;

ROSENVALD, 2017, p. 622).

No que toca às pessoas jurídicas, para caracterizar a plena capacidade, conforme Gagliano e Pamplona Filho (2015, p. 388), exige-se “o necessário registro de seus atos constitutivos” para a prática de atos e celebração de negócios jurídicos.

Você deve ficar atento para o fato de que existem situações em que uma pessoa, mesmo plenamente capaz, nos termos dos artigos 3º e 4º do Código Civil, está impedida ou tem restrições para a prática de determinados atos jurídicos. Estas restrições são chamadas pela doutrina de capacidade especial ou legitimação ou legitimidade. Grande parte dos autores, porém, evita usar este último termo, para que não haja confusão com a legitimidade postulatória, do direito processual, por exemplo. Mas afinal, você deve estar se perguntando, o que é essa legitimação? Mello (2015, s.p) explica que:

[...] a legitimação consiste em uma posição do sujeito, capaz ou não, relativamente ao objeto do direito, que se traduz, em geral, na titularidade do direito, posição esta que tem como conteúdo o poder de disposição, bem assim o poder de aquisição e o de contrair dívidas.

Excepcionalmente, a legitimação pode decorrer de atribuição do sistema jurídico a terceiro que não seja o titular do direito.

Ou seja, é quando a lei impõe mais requisitos que a mera capacidade civil para que o sujeito possa efetuar certos negócios jurídicos. Isso é o que ocorre, por exemplo, com a pessoa casada que pretende alienar um imóvel. Neste caso será necessária, para a plena validade do ato, a outorga do cônjuge, sob pena de futura anulação do negócio. No mesmo sentido é a explicação de Farias e Rosenvald (2017, p. 622):

[...] por vezes, poderá a lei exigir, além da capacidade geral, determinado requisito concreto, denominado doutrinariamente capacidade específica ou legitimação, da qual é exemplo elucidativo a outorga do cônjuge para a alienação de bens imóveis por pessoas casadas, exceto se o regime do casamento for a separação de bens (CC, art. 1.647).

Outro exemplo que pode ser citado é o caso de venda de ascendente para descendente que, se for feita sem anuência do cônjuge e dos demais herdeiros, também será passível de anulação.

Além das situações em que é necessária a capacidade especial, existem outros casos em que há impedimento absoluto para realização de alguns negócios jurídicos. Isso ocorre, por exemplo, com as vedações de compra de bens do pupilo pelo seu tutor, do leiloeiro de bens que ele mesmo é responsável por leiloar, de

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geral em razão de uma tutela da probidade, a fim de evitar prevalecimento de determinadas situações, ou então por questões de costumes e preceitos morais da Sociedade.

Disso tudo, é possível perceber que a noção de agente capaz vai muito além da mera capacidade civil alcançada com o advento da maioridade ou com a emancipação. Por vezes, outros fatores deverão ser observados para que se possa dizer, com certeza, se o agente era capaz e, consequentemente, se o negócio jurídico era válido.

Quando o negócio feito por relativamente incapaz, o legislador previu regra que dispõe que essa incapacidade não poderá ser invocada por outra parte em benefício próprio. De acordo com o artigo 105 do Código Civil: “A incapacidade relativa de uma das partes não pode ser invocada pela outra em benefício próprio, nem aproveita aos cointeressados capazes, salvo se, neste caso, for indivisível o objeto do direito ou da obrigação comum”.

As pessoas relativamente incapazes são assistidas nos negócios jurídicos pelas pessoas que a lei indica. A incapacidade é exceção pessoal; só pode ser formulada pelo próprio incapaz ou pelo seu representante legal. Essa defesa não pode ser invocada em proveito próprio pelo interessado capaz, nem aproveita aos cointeressados capazes, a menos que ocorram as ressalvas legais, insto é, for indivisível o objeto do direito ou da obrigação comum (MONTEIRO;

PINTO, 2012, p. 230-231).

Em outras palavras, se Fulano, capaz, faz um negócio com Beltrano, relativamente incapaz sem a assistência de seus representantes, não pode Fulano ingressar com ação de anulação do negócio jurídico sob o argumento de que Beltrano era menor e, portanto, o negócio é inválido. Só quem terá essa legitimidade será Beltrano, ou com a assistência de seus representantes, ou no dia em que se tornar capaz. A segunda parte do dispositivo diz respeito a situação em que o incapaz fez negócio junto com outras pessoas, estas capazes (por exemplo, uma compra coletiva, ou então um contrato para um trabalho em grupo).

Nesses casos, não poderão um dos compradores capazes ajuizar ação de anulação do negócio jurídico sob o argumento de que outro dos compradores era incapaz, a não ser que o objeto do contrato ou da obrigação comum seja indivisível.

Por fim, antes de passar ao estudo dos dispositivos sobre representação, é importante lembrar que enquanto os absolutamente incapazes são representados, os relativamente incapazes são assistidos pelas pessoas que a lei determinar. Ou seja, não se pode dizer que é absolutamente vedado aos incapazes a realização do negócio jurídico, entretanto, para que não haja problema de validade, a manifestação de vontade deve ser feita por um representante (no caso do absolutamente incapaz) ou então vigiada, fiscalizada, ratificada, pelo assistente, no caso dos relativamente incapazes. Assim, pode uma criança ser parte em um

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contrato, desde que a manifestação de vontade de efetuar este contrato seja feita por seus representantes. Do mesmo modo, pode um adolescente relativamente incapaz locar um imóvel, desde que assistido por seus genitores.