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TÓPICO 1 — DEFEITOS DO NEGÓCIO JURÍDICO

2.4 ESTADO DE PERIGO

Imagine que você estava caminhando por uma trilha e acaba caindo em um buraco de onde você não conseguirá sair sozinho. Espera alguns minutos e percebe que há pessoas vindo pelo caminho, e as chama, pedindo ajuda. O que você ofereceria a elas para que lhe salvassem? Dinheiro? Seu carro? Sociedade na sua empresa? Provavelmente, qualquer dessas coisas e até muito mais. Essa seria uma típica situação de estado de perigo. Ou seja, uma situação em que você se obriga a ter uma obrigação excessivamente onerosa para se salvar. Veja o que diz o Art. 156 do Código Civil (BRASIL,2002, s.p):

Art. 156. Configura-se o estado de perigo quando alguém, premido da necessidade de salvar-se, ou a pessoa de sua família, de grave dano conhecido pela outra parte, assume obrigação excessivamente onerosa.

Parágrafo único. Tratando-se de pessoa não pertencente à família do declarante, o juiz decidirá segundo as circunstâncias.

As definições doutrinárias deste defeito do negócio jurídico não diferem significativamente do que consta na legislação. Segundo Gagliano e Pamplona Filho (2015, p. 418), o estado de perigo “configura-se quando o agente, diante de situação de perigo conhecido pela outra parte, emite declaração de vontade para salvaguardar direito seu, ou de pessoa próxima, assumindo obrigação excessivamente onerosa”.

Para a caracterização do estado de perigo é necessária a presença de dois elementos, que podem ser identificados na seguinte fórmula: “ESTADO DE PERIGO = Situação de perigo conhecido da outra parte (elemento subjetivo) + onerosidade excessiva (elemento objetivo)” (TARTUCE, 2016, p. 264).

O elemento subjetivo é a situação de perigo propriamente dita. Este perigo, conforme entendimento amplamente majoritário, deve ser de um dano pessoal, “portanto, que diga respeito, exclusivamente, à vida, à saúde ou à integridade física, excluído do conceito qualquer prejuízo de ordem patrimonial”

(MELLO, 2015, s.p). Ainda, segundo Mello (2015, s.p.), “o dano temido deve ser grave. É preciso que haja perigo de vida, ou de prejuízos ponderosos à saúde ou à integridade física das pessoas, de tal ordem que incuta na pessoa temor que justifica a assunção da excessividade da obrigação”. Ou seja, não basta um receio

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de uma execução de dívida, por exemplo, o risco deve implicar a violação de direitos mais sensíveis. É muito importante que você tenha isto claro em mente, pois é um dos elementos que facilitará a diferenciação do estado de perigo para a lesão, que você estudará na sequência.

Pois bem, ainda sobre o elemento subjetivo, para que se caracterize o estado de perigo, além de a pessoa (ou pessoa a si relacionada) estar em risco, este risco deve, obrigatoriamente, ser conhecido da outra parte. A configuração do estado de perigo invalidante supõe intenção dolosa daquele que dele se aproveita para obter vantagem indevida (MELLO, 2015). Isso é visível dos exemplos típicos de estado de perigo, que normalmente envolvem o salvamento de alguém.

A pessoa a quem se requer o salvamento em troca de vultosa recompensa, ou que a exige, para que tome alguma atitude, sabe do perigo e, sabendo, haverá contra si certa presunção de má-fé, por estar se beneficiando de uma situação de desespero da outra parte.

O segundo elemento, objetivo, é onerosidade excessiva. Para a caracterização deste elemento, não basta a exigência, ou o oferecimento, de vantagem para que a outra parte evite ou elimine e o perigo, é necessário que essa vantagem seja desproporcional ao valor real daquela ação. Também não tem relação com a condição financeira da parte, mas sim com os custos do serviço (serviço de resgate, serviço médico, por exemplo). Os casos típicos para exemplificar tal situação são os de atendimento médico, conforme didaticamente exposto:

O conceito de onerosidade excessiva tem por fundamento a grande desproporção entre o valor real do serviço prestado para eliminar o estado de perigo e aquele pago por imposição daquele que se beneficia do negócio jurídico. Não deve importar a repercussão da obrigação no patrimônio do figurante do negócio jurídico, mas a excessividade da exigência da outra parte, aproveitando-se do estado de perigo. Se pessoa bastante rica em risco de vida concorda em pagar a cirurgião importância de R$ 100.000,00 por uma cirurgia de urgência pala qual ele cobra, regularmente, R$ 10.000,00, há onerosidade excessiva invalidante. Se, ao contrário, o mesmo cirurgião cobra os R$ 10.000,00 pela mesma cirurgia a uma pessoa de poucas posses, o que lhe trará dificuldades financeiras, não se caracterizará a anulabilidade. A nosso ver a repercussão da obrigação no patrimônio do figurante não deve ser levada em conta para apurar-se a excessividade da oneração capaz de tornar anulável o negócio jurídico (MELLO, 2015, s.p).

Portanto, tudo que exceder o que seria normal de ser cobrado nesta situação, por exemplo, estará eivado de vício e passível de ser reputado inválido. Se toda a situação se caracterizar como excessiva, e ficar patente a má-fé do beneficiário do negócio, em regra, todo ele será anulável. Entretanto, uma vez que se aplica ao estado de perigo o disposto no §2º do Art. 157 do CC/02, quando as situações, como no caso de um atendimento médico em hospital particular, envolverem um serviço que possui um custo normalmente, somente estará autorizado o

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a cobrança daquilo que normalmente é cobrado pelo mesmo procedimento de outras pessoas ou em outras circunstâncias. Tudo que se demonstrar abusivo, ou que possa denotar aproveitamento da situação de vulnerabilidade, poderá ser tido como cobrança indevida.

O estado de perigo é “uma especial hipótese de inexigibilidade de conduta diversa, ante a iminência de dano por que passa o agente, a quem não resta outra alternativa senão praticar o ato” (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2015, p. 418). Assim, mesmo que o prejudicado no negócio seja um especialista, devido a vulnerabilidade no momento da negociação, poderá alegar o vício. Por exemplo: imagine que o filho de uma médica sofre um grave acidente e é levado ao hospital para fazer uma cirurgia. No local, é dito que para que se garanta o sucesso da cirurgia, é necessário que ele pague por meterias e procedimentos específicos, excessivamente caros. Você acha que, em regra, a médica, terá condições psicológicas de discutir com seus colegas os procedimentos na hora da emergência? Provavelmente não. Se após a realização do procedimento verificar-se que os materiais e procedimentos oferecidos eram desnecessários, poderá esta mãe reclamar o estado de perigo, que lhe impôs ônus excessivo no momento que buscava salvar o seu filho.

Veja este outro exemplo, tipicamente reconhecido como estado de perigo, tanto pela doutrina como pela jurisprudência:

Não há como não se reconhecer a ocorrência deste vício no ato de garantia (prestação de fiança ou emissão de cambial) prestado pelo indivíduo que pretenda internar, em caráter de urgência, um parente seu ou amigo próximo em determinada Unidade de Terapia Intensiva, e se vê diante da condição imposta pela diretoria do hospital, no sentido de que o atendimento emergencial só é possível após a constituição imediata de garantia cambial ou fidejussória (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2015, p. 419).

O legislador lembrou-se de deixar expresso que o risco pode recair sobre pessoa que não seja da família do declarante e que, nestes casos, o magistrado deverá analisar o caso concreto. Ora, como você já estudou quando da análise do vício da coação, por vezes, há pessoas que não são familiares, mas que se tem vínculos afetivos até mais fortes do que com estes.

Ainda, podem existir situações em que uma pessoa se sinta responsável por um terceiro. Por exemplo, se Fulano atropela Sicrano, mesmo sem o conhecê-lo, provavelmente se sentirá responsável pela sua situação e poderá aceitar maus negócios para salvar a sua vida do risco que corre.

Para finalizar o estudo do estado de perigo, é importante ter clareza sobre o que o diferencia da coação, defeito estudado no tópico anterior. Em ambas as situações, o agente não manifesta sua vontade livremente, pois está querendo salvar-se de um perigo. Ocorre que na coação há uma ameaça de dano, que ainda não ocorreu, e a ameaça parte diretamente do coator, ou de terceiros, que tem controle sobre se situação irá ocorrer ou não. Ou seja, na coação é o coator que cria

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o risco de dano. Por outro lado, no estado de perigo o risco é atual ou iminente e causado por uma situação externa aos envolvidos, como um acidente ou uma doença. A parte que se beneficia no estado de perigo toma conhecimento de um risco já existente, que não foi ele que deu causa.

Compreendido esse defeito dos negócios jurídicos, na sequência você estudará o último vício do consentimento, a lesão, cujas semelhanças com o estado de perigo não são poucas, exigindo muita atenção na hora de estudar os elementos que os diferenciam.